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Inovações em Educação

Análise de Big Data ajuda a conhecer realidade de escolas e redes de ensino

Sexta edição do CONECTE-C discutiu como a análise de grandes conjuntos de dados pode ser uma aliada na melhoria da educação

por Maria Victória Oliveira 27 de outubro de 2016

Com tantas tecnologias sendo aplicadas dentro e fora da sala de aula com o objetivo de melhorar a educação, fica difícil imaginar a quantidade de dados gerados por essas atividades. Mas você sabia que grandes conjuntos de dados, chamadas de Big Data, podem ser usados como um aliados no desenho de novas políticas educacionais?

Com o objetivo de discutir como a análise de pacotes de informações pode ser usada para transformar a educação, aconteceu, na última terça-feira (25), a sexta edição do Conecte-C, evento promovido pelo CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira). Especialistas convidados dividiram com o público suas experiências de coleta, agrupamento e aplicação de dados.

Em um extremo, na coleta, estava Daniela Costa, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), que faz parte do Nic.br (Núcleo de informação e Coordenação), setor que atua para melhorar a internet no país. Dentro desse papel, o Cetic é responsável por elaborar estatísticas e monitorar dados sobre a qualidade da internet no Brasil.

Para que esse objetivo seja alcançado, a TIC Educação é uma das pesquisas realizadas pelo grupo. Essa coleta de informações reúne etapas como a pesquisa de campo, onde um entrevistador visita escolas públicas e particulares de ensino regular (fundamental e médio) da área urbana e questiona alunos, professores, coordenadores pedagógicos e diretores sobre uso de internet e outros dispositivos tecnológicos. Outro momento da pesquisa é a validação dos dados obtidos com uma equipe de especialistas, que aponta qual linha teórica de análise pode ser feita a partir do que foi coletado. O produto final de todo esse trabalho é um livro anual, com mais de 150 indicadores por escola.

Segundo Daniela, a pesquisa, já no seu sétimo ano, tem sua importância justificada pois o censo escolar traz somente dados administrativos das escolas como, por exemplo, quantos computadores a instituição tem. “O censo não traz a informação de como é realizado o uso desses computadores, onde eles estão, se estão trancados dentro de uma sala ou são acessíveis”.

Durante sua exposição, ela compartilhou com o público que 84% das escolas públicas tem Wi-fi, enquanto que nas privadas esse número é de 94%. Entretanto, na maior parte das instituições das duas categorias o acesso é restringido ao aluno, ou seja, a internet está presente, mas o estudante não pode usar. “A pesquisa traz dados importantes que vão dizer não só sobre tecnologia, mas sobre os atores dentro da escola e sobre o grau de apropriação dessas tecnologias”.

Ao contrário do Cetic.br, o QEdu não realiza pesquisas e sim agrupa e cruza dados educacionais para fornecer uma base de dados de fácil acesso a gestores, diretores, professores e os demais interessados na melhoria da educação.

Segundo Cesar Wedemann, diretor do QEdu, é possível converter dados em ações e usá-los para aprimorar prática educacionais em diferentes frentes. Uma delas é garantir o aprendizado dos estudantes, uma vez que é possível medir e observar se eles estão aprendendo ou não, como está esse aprendizado e como estão evoluindo. Definir ou melhorar políticas públicas também é uma tarefa facilitada com o uso de grandes conjuntos de informações. “Uma vez que a gente consegue medir onde o aprendizado está e qual é a distância de onde estamos e onde queremos chegar, nós conseguimos definir políticas públicas mais específicas, mais focadas onde o problema está e onde  a oportunidade de melhora é maior”.

Entretanto, para que as informações sejam úteis na formulação de práticas pedagógicas mais eficientes, Wedemann destaca que os dados precisam ser atualizados, padronizados, comparáveis e confiáveis. Além disso, ele defende que o trabalho do QEdu de olhar para informações mais detalhadas ajuda a direcionar como escolas podem trabalhar na questão de atualização pedagógica. “Mais do que falar para a escola trocar toda sua gestão e mudar sua prática, se a gente conseguir levantar quais são os pontos mais críticos e quais as principais oportunidades de melhoria, conseguimos oferecer um apoio pedagógico melhor”.

Apesar de muita gente ainda se confundir sobre o conceito de Big Data, Wedemann defende que com os dados já disponíveis atualmente é possível pensar em novas formas de atuação. “O Brasil tem liderado uma série de iniciativas com relação a dados abertos. Apesar de a gente ainda ter um mundo de coisas para fazer com os dados, como investir na personalização de ensino, já existem conteúdos hoje que podemos usar e assim melhorar a nossa educação”.

Nessa mesma linha de facilitar a interpretação de dados, Ricardo Madeira, um dos fundadores da Tuneduc, empresa que usa dados públicos e privados para customizar produtos para instituições de ensino, expos possibilidades de usar os rastros deixados pelo uso cada vez mais frequente de tecnologia na sala de aula. Em uma comparação interessante, Madeira defende que usar Big Data na educação é diferente, por exemplo, do que fazem sites de e-commerce. “Quando você revisita uma plataforma de e-commerce, você é você, com seus hábitos próprios. O que a plataforma quer fazer é identificar o seu perfil. Quando a plataforma tem o objetivo de educar, quando a pessoa volta, você quer que ela volte diferente”.

Essa dificuldade de mapear escolas e alunos requer a existência de uma teoria pedagógica. Entretanto, elaborar esse plano de ação a partir do uso de dados não é tarefa fácil. Segundo Madeira, um dos grandes desafios enfrentados hoje em dia no que ele chama de “Novo paradigma da educação” é como capturar dados de diferentes fontes (fontes públicas, de avaliações que a própria escola aplica, de simulados) e cruzar todas essas informações.

A aplicação dos dados

Depois da etapa de pesquisa, organização e interpretação dos dados, vem a elaboração de práticas pedagógicas com base nas informações levantadas. Para mostrar como isso aconteceu numa rede estadual, Ralph Rangel, da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce) dividiu com o público a sua experiência com a criação da Goiás 360. Trata-se de uma ferramenta tecnológica usada para facilitar a rotina de gestores, professores, estudantes e comunidade escolar, que podem consultar informações e ter maior agilidade no planejamento e controle de resultados, seja em pequena ou grande escala.

Rangel defende que a criação da plataforma, que busca promover excelência e equidade na educação, cultura e esporte, ajuda no mapeamento da rede e na gestão e distribuição de recursos. “Nós sabíamos que tinham 17 alunos com deficiência visual na rede estadual. Depois que a Goiás 360 fez o mapeamento, esse número passou para 120. Conhecendo essa informação, ano passado foram solicitados notebooks equipados com biometria para cada estudante”. Já Wolney Mello, da área de desenvolvimento de produto da Geekie, dividiu como os produtos da empresa, como a Geekie Games, plataforma adaptativa que ajuda estudantes na preparação para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), usam dados para personalizar a experiência dos usuários.

Ao final do encontro, a diretora do CIEB, Lucia Dellagnelo, completou as apresentações realizadas ao afirmar que a mera existência ou o ato de gerar dados não significa que essas informações serão automaticamente utilizadas e aplicadas. Antes, é preciso um trabalho de interpretação desses dados para que eles sejam de fato uma alavanca de mudança.

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