Escola arranca cultura dos alunos para ensiná-los
Professor da Universidade de Columbia defende na abertura do SXSWEdu que única maneira de destraumatizar jovens em relação à escola é ouvi-los
por Tatiana Klix 7 de março de 2017
Durante algum tempo, a tribo Dinka, no Sudão do Sul, sofreu uma epidemia de tétano, que congelava as mandíbulas dos infectados. Para que as crianças conseguissem comer e sobreviver, os integrantes da tribo arrancavam seus dentes. Posteriormente, mesmo depois do surto ter ido embora, os dinkas mantiveram a prática, não porque isso fosse essencial para as crianças, mas porque era uma tradição. Essa história foi contada pelo Christopher Emdin, professor do Departamento de Matemática, Ciência e Tecnologia da Teachers College, da Universidade de Columbia, na palestra de abertura do SXSWEdu 2017, evento que reúne milhares de educadores, gestores e empreendedores para discutir tendências na educação em Austin, nos Estados Unidos.
“Na educação contemporânea, fazemos a mesma coisa. Também arrancamos os dentes dos adolescentes para que eles recebam conhecimento. Arrancar os dentes é o mesmo que extrair a cultura deles”, afirmou prendendo a atenção da plateia que lotava o salão principal do centro de convenções onde serão realizadas mais de 400 sessões até quinta-feira. Repetindo várias vezes o bordão que é também o nome de um álbum do grupo de rap Quest – “We Got It from Here…Thank You 4 Your Service” (Agora deixa com a gente…Obrigado pelos serviços prestados, em livre tradução) –, ele endereçou um recado àqueles que chamou de inimigos da educação, por não respeitarem a cultura dos alunos: “Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que nós éramos sementes”.
Christopher é negro, colabora com pesquisas relacionadas a minorias, tem pós-doutorado em educação urbana, é criador do movimento de mídia sociais HipHopEd e autor do best-seller “For White Folks Who Teach in the Hood… and the Rest of Y’all Too: Reality Pedagogy and Urban Education (Para homens brancos que ensinam no gueto…e para todos vocês também: pedagogia real e educação urbana, em livre tradução). Ele fez um discurso crítico, mas ao mesmo tempo motivador e performático, com objetivo de transformar aqueles que têm boas intenções, mas atuam em um sistema que historicamente marginaliza minorias, em amigos da educação. “Se um estudante é brilhante na rua, mostra energia para trocar e aprender com amigos, tem referências musicais e usa metáforas, mas dorme na sala de aula, alguma coisa está errada com o sistema de ensino”, afirmou.
A receita para “deixar de arrancar os dentes dos alunos”, segundo ele, é conversar com os estudantes. Para Christopher, os jovens estão traumatizados, porque são desrespeitados continuamente nas escolas por educadores que não conhecem sua cultura. E esse desrespeito já acontecia com seus pais e avós. Lembrando episódios recentes, ele citou como não poder conversar e debater em escolas casos de negros mortos pela polícia ou de imigrantes perseguidos causa trauma em crianças. Para o acadêmico, eles se obrigam a deixar suas emoções e sentimentos fora da aula.
“Será que conseguimos ser humildes o suficiente para criar espaços em que jovens vão nos ensinar o que nós precisamos fazer?”, convocou a plateia.
Entre aqueles que não considera amigos da educação estão empreendedores que ouvem boas ideias para aprender como ganhar dinheiro com elas. Entre as críticas que expôs na palestra estão a de que não basta redesenhar a escola para torná-la super tecnológica e focar no ensino de STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, em inglês) para engajar estudantes. “Muitos se escondem atrás do guarda-chuva da tecnologia e esquecem do pedagógico”, disse. A experiência escolar, para ele, deve fazer sentido para os alunos, e para isso, é preciso ouvi-los.
Tendências muito discutidas em eventos sobre inovações educacionais como o SXSWEdu não ficaram de fora dos ataques de Christopher. É o caso da educação baseada em projetos. Para ele, em escolas urbanas frequentadas por negros, há muito tempo, sempre que há uma goteira, os alunos precisam consertar o telhado e já aprendem matemática e ciências nesse processo. Hoje, no entanto, crianças estão sendo incentivadas a resolver problemas que não existem. “Projetos sem relevância para estudantes e que não se transformem em serviços para a comunidade tiram o valor da educação baseada em projetos”, afirmou.
Por fim, Christopher deu um caminho para abrir a conversa com os alunos, o hip hop, e convidou educadores a abraçarem essa cultura para promover o aprendizado dos alunos. “Não vamos mais deixar nossos brilhantes se sentirem insignificantes” afirmou. “Hip hop tem tudo a ver com excelência acadêmica”.
Nesta terça-feira, o Porvir/Inspirare promove um debate no SXSWEdu alinhado com a defesa do professor que abriu o evento. O painel Students as Education Innovators (Estudantes como Inovadores da Educação) vai discutir o papel do aluno na transformação da educação e mostrará dois casos brasileiros em que os estudantes foram ouvidos para promover mudanças.
Assista ao vídeo da apresentação de Christopher Emdin:
* Tatiana Klix, editora do Porvir, acompanha o SXSWEdu in loco. Acompanhe novidades nos próximos dias
Magistral. Mesmo considerando que o autor nutre um entusiasmo exacerbado com as possibilidades de inovação de verdade nos sistemas educacionais, avalio suas ideias na categoria de “excelente”. No Brasil, país vocacionado ao delírio burocrático hiperbólico, estávamos debatendo a seguinte questão transcendental: O que deve e o que não deve ser ensinado para um jovem no ensino médio? Por si só, já teríamos de desconfiar da relevância de uma tal questão. Porém, “estávamos”, porque um grupo de esclarecidos, encastelados no Ministério da Educação de um governo cuja legitimidade é “problemática” (para dizer o mínimo), resolveu a questão com uma medida provisória, aprovada por um Congresso Nacional, cuja ficha criminal de muitos membros e líderes é de fazer inveja a uma penitenciária. Agora, resta voltar ao deserto. Que deserto? As universidades, cujos currículos prenhes de disciplinas obrigatórias e pré-requisitos, não raras vezes, prescritos por associações profissionais, sem perceber, acabam criando as condições institucionais de possibilidade para a burocratização, engessamento e paralisia educacional, que, em última instância, impregna o corpo e a alma da dita reforma do ensino médio. A universidade brasileira grita muito, mas seus gritos são ignorados, porque, intuitivamente, sociedade e opinião pública conhecem a sua obsolescência.