Com ciências em alta, o que professores podem fazer para diversificar suas aulas? - PORVIR
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Coronavírus

Com ciências em alta, o que professores podem fazer para diversificar suas aulas?

Com assuntos científicos diariamente no noticiário, é a vez de professores começarem a desmistificar a aprendizagem, seja em casa ou na escola, e investirem em atividades práticas

Parceria com TEC Educação

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 27 de julho de 2020

Atualmente, 136 vacinas estão em estudo no mundo todo, unidas em um único objetivo: conter o novo coronavírus (COVID-19). Desde o início da pandemia no Brasil, as manchetes de jornais carregam diariamente expressões como EPIs (Equipamento de Proteção Individual), vacina, medicamentos com ou sem comprovação científica, sequenciamento do genoma viral em tempo recorde por equipe brasileira e assim por diante.

O que todos esses assuntos têm em comum? A valorização da ciência a passos largos, assunto abordado em pesquisas e eventos. Em julho, a Conferência Ethos, realizada pela primeira vez de forma online, reuniu um time de infectologistas, pesquisadores e professores da Universidade Federal de Goiás e da USP (Universidade de São Paulo) para questionar ‘Sairemos da pandemia com uma ciência reforçada?’. Já a pesquisa “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus” indicou que 5 a cada 10 jovens consideram que a pandemia pode trazer mais prestígio, reconhecimento e investimentos para a ciência e pesquisa e para a saúde pública.

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Julia Moura, fundadora da TEC Educação e autora de 35 livros didáticos sobre como trabalhar ciências e tecnologia de maneira democrática em sala de aula, afirma que a pandemia apresentou uma abertura para que haja um diálogo nas residências brasileiras sobre a importância das ciências. “Eu já trabalho com ciências, então, para mim, EPI não era uma palavra nova. Mas nunca ouvi falar tanto nisso como estou ouvindo agora. Acho que nunca se falou tanto sobre ciência como nesse momento. Como se trata de fenômeno que envolve o mundo todo, começamos a enxergar que isso faz parte do nosso dia a dia, e assim surge a brecha para falarmos sobre o assunto”, explica.

Mais prática é igual a mais envolvimento
Para a especialista, além de aproveitar que assuntos científicos estão sendo amplamente abordados na mídia, usar o contexto atual também pode ser uma forma de diversificar o tipo de conteúdo a qual crianças e adolescentes têm acesso durante as aulas à distância.

Incentivar o engajamento e estimular o interesse por disciplinas e conteúdos que envolvam as ciências deve ser feito, segundo Julia, a partir de atividades práticas e mão na massa, nas quais os conceitos teóricos são explicados de maneira simples. Isso faz sentido: basta fazer um exercício de relembrar os tempos de escola. O que era mais legal: uma aula no laboratório ou uma aula expositiva na sala de aula?

“O método científico pressupõe que você analise o ambiente, formule e teste hipóteses. Essa parte do teste é muito rica para conseguir o engajamento da criança ou do jovem, porque estamos muito acostumados a aulas 100% expositivas, o que, em um contexto de aula remota, é mais difícil ainda de engajar”, defende.

Além disso, propor que estudantes se dediquem a atividades mais práticas possibilita um descanso das telas, amplamente usadas no momento para suprir a falta do contato presencial. “O olho começa a ficar seco e a mente a ficar dispersa. Pensar que crianças têm seis horas de aula todos os dias em frente a uma tela é quase uma jornada de trabalho.” Dessa forma, é algo como unir o útil ao agradável: aproveitar o assunto em alta, dinamizar as aulas, engajar os estudantes, propor atividades práticas que deem um descanso para o corpo e a mente e, junto a tudo isso, incentivar o aprendizado de ciências de forma mais descontraída. Para Julia, esse é o único caminho.

“O mais interessante é que só aprendemos ciências na prática. Nunca trabalhei ensino de ciências sem que as crianças construíssem suas próprias experiência. Todos os estudos e divulgações científicas são sempre feitos usando experimentos, e isso é muito legal porque você está aprendendo na prática. E, vale ressaltar: os maiores aprendizados são aqueles que aprendemos por nós mesmos. Então, se o aluno pode realizar um trabalho manual, é uma oportunidade bastante interessante. Se juntar a isso o ensino de ciências, fica melhor ainda.”

O que pode ser feito na prática?
Não é porque as aulas ainda estão sendo realizadas à distância e crianças e jovens não têm acesso ao laboratório de ciências da escola que não é possível propor atividades práticas. “Eu sempre faço uma pegadinha nas minhas palestras ao perguntar quem já teve acesso a um laboratório científico de alto rendimento. Quando ninguém levanta a mão, eu mostro a foto de uma cozinha, porque essa é a verdade: até hoje, muitos experimentos são realizados na cozinha de casa.”

Dessa forma, professores não precisam pensar em atividades mirabolantes para propor. Para estudar suspensão coloidal, exemplifica Julia, e conceitos como moléculas e fluido não-newtoniano, ela sugere algo simples, que todas as casas têm: água e Maizena (amido de milho). “Ao invés de só explicar os componentes da biologia e trabalhar uma fórmula de física, você pode propor que os alunos façam a mistura e manipulem. Quando eles colocam força e velocidade, a mistura fica dura. Quando mexem devagarinho, fica mole. Quando você trabalha usando seus sentidos e realmente transfere aquilo para uma experiência, fica muito mais fácil de aprender.”

Outra ideia é usar a linguagem dos próprios jovens e propor, por exemplo, que façam uma apresentação de determinado conteúdo usando um vídeo do TikTok. Indicar vídeos e filmes – ou até a produção de um vídeo, assim como de um seminário curto – são outras dicas. Para Julia, o importante é ter em mente a estreita relação entre o ensino de ciências e tecnologia e a experimentação.

Ciência é só no laboratório?
Outro exercício interessante é pensar que a atividade com maizena citada por Julia, por exemplo, não precisaria ser realizada, no caso do ensino presencial, no laboratório de ciências da escola; bastariam alguns potes em sala de aula e os alunos divididos em grupo. Esse seria um caminho simples e rápido para propor mudanças, mesmo que simples, na forma de ensinar ciências presencialmente. Entretanto, é igualmente fácil imaginar que seriam poucos os professores dispostos a realizar essa ‘bagunça momentânea’ em prol de uma atividade mão na massa.

Por isso, Julia reforça que a ciência geralmente não trabalha na ordem, mas sim acontece no caos. “Veja o que estamos vivendo agora. A vacina para o coronavírus é apenas a ponta do iceberg, teremos muitos outros avanços na ciência, que é usada para resolver problemas. Nesse sentido, acredito na importância da desconstrução dos padrões e do local onde a ciência é realizada, porque em um momento de necessidade, as pessoas simplesmente começam a fazer como e onde é possível.”

Isso explica o surgimento de diversos grupos de pessoas e iniciativas de produção de respiradores alternativos, EPIs e outros materiais para ajudar no combate à pandemia. Segundo a especialista, adultos e jovens que tiveram acesso a impressoras 3D, por exemplo, e decidiram imprimir componentes de escudos faciais são exemplos dos chamados cientistas cidadãos, pessoas que atuam para melhorar a sociedade desenvolvendo experiências e contribuindo da forma que podem, usando materiais aos quais têm acesso. “Esse movimento contribui para desconstruir algumas coisas, como a figura do laboratório e a ideia de que apenas os mais inteligentes podem fazer ciência. Isso não é verdade.”

A importância de democratizar o ensino de ciências
Com praticamente a vida toda dedicada ao tema, Julia defende a democratização do ensino de ciências e tecnologia e, para isso, afirma que é preciso iniciar um processo de repensar como esses conteúdos são ensinados à crianças. Segundo a especialista, não só no contexto escolar, mas no próprio ambiente acadêmico, existe um tabu em torno de carreiras técnico científicas, e uma crença de que essas são oportunidades para poucos.

Como motivos, ela cita a existência de pesquisas que comprovaram que pessoas acreditam que não são capazes de acompanhar esses cursos. “Nos Estados Unidos e na América Latina, há uma série de pessoas que optam por fazer outro curso na faculdade que acham que tem mais a ver com suas capacidades, porque realmente acreditam que não conseguirão fazer um curso técnico científico”, afirma.  

Um passo para mudar essa mentalidade é investir no ensino de ciências desde pequeno. E, para isso, não é preciso de muito: bastam materiais que toda casa tem. Essa é a proposta do mais de 50 vídeos no canal da TEC Educação no YouTube, que ensina experiências práticas para crianças e jovens a partir de materiais do dia a dia.

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TAGS

aprendizagem baseada em projetos, coronavírus, educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, tecnologia

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