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Crédito: Divulgação

Inovações em Educação

Kit com molas torna o aprendizado intuitivo e faz sucesso no crowdfunding

Como uma espécie de LEGO dos engenheiros e arquitetos, projeto também ajuda ensinar física no ensino médio

por Marina Lopes 25 de novembro de 2016

Quando estava no curso de especialização, o arquiteto Márcio Sequeira de Oliveira percebeu que as aulas teóricas não davam conta de ensinar conceitos abstratos. Como um aluno iria entender o comportamento de estruturas arquitetônicas sem notar os movimentos e as deformações de um edifício, uma ponte ou qualquer outra construção? Para visualizar isso, ele teve a ideia de criar um kit com molas, imãs e peças que permitem aprender com as mãos.

O projeto surgiu de uma necessidade pessoal do arquiteto paraense, mas logo fez sucesso entre os colegas e professores do Instituto Metodista Izabela Hendrix, em Minas Gerais. A solução também rendeu um convite para o mestrado em engenharia civil, na Universidade Federal de Ouro Preto, onde validou a proposta do Kit Mola entre 2006 e 2008. “Esse problema do ensino de estruturas está presente em escolas de arquitetura e engenharia do mundo inteiro”, avalia Márcio.

Com mais de 100 peças, que permitem inúmeras combinações, o Mola demonstra de forma tátil e visual como se comportam as estruturas arquitetônicas diante de fenômenos físicos. Mesmo sem conhecimento prévio, qualquer pessoa pode se arriscar a montar desde a estrutura de uma casa até uma réplica da Torre Eiffel. “É um aprendizado empírico e intuitivo. Você vai montando e consegue ver o que acontece”, explica ele, que define o kit como uma espécie de LEGO dos engenheiros e arquitetos.

Veja como funciona:

Toda vez que Márcio apresentava o projeto em feiras e congressos, apesar de ser procurado por professores e estudantes interessados em adquirir um kit, ele ainda precisava encontrar uma maneira de viabilizar a produção. A primeira e mais óbvia solução foi recorrer aos grandes investidores, mas depois de inúmeras tentativas ninguém demonstrou interesse em bancar a sua proposta.

Por sugestão de um amigo, o arquiteto decidiu recorrer ao financiamento coletivo em 2014. Após estudar muito sobre captação de recursos no crowdfunding, ele fez uma campanha no Catarse que faturou mais de R$ 603 mil de apoiadores de 30 países diferentes, atingindo a marca de maior arrecadação entre os projetos de educação. Neste ano, uma nova campanha lançada no início do mês de novembro também já arrecadou mais de R$ 439 mil, sendo que quase um quarto desse valor foi atingido em menos de 6 horas.

Para mobilizar tanta gente, ele conta que inicialmente apostou na divulgação offline. “Eu fiz 22 palestras durante a primeira campanha, quase um dia sim e um dia não”, recorda. Apesar do Mola atingir um nicho específico de pessoas, o que pode limitar quantidade de apoiadores, ele diz que a vantagem era saber exatamente com quem precisava falar. “Eu acho que uma série de ações devem ser feitas para lançar uma campanha, mas a principal delas é ter um produto que resolve o problema de muita gente”, sugere o paraense para justificar o sucesso na arrecadação.”

Aplicação na universidade e na escola
No curso de engenharia civil da Universidade Federal do Paraná, para entender melhor o comportamento de estruturas, estudantes do Programa de Educação Tutorial (PET) mobilizaram colegas e professores para contribuir com uma cota do Kit Mola na época da primeira campanha. Eles levantaram R$ 3.500 para apoiar o projeto e, como recompensa, ganharam um workshop e dez kits para usar na universidade. “A gente fez um financiamento coletivo do financiamento coletivo”, conta Otávio Maruyama Wogel, aluno do quarto semestre.

Após a chegada dos kits, as aulas se tornam um pouco mais compreensíveis, já que os estudantes passaram a ter a oportunidade de aprender na prática. “Na maioria dos cursos de engenharia, as aulas de estruturas são muito teóricas. Quando o professor faz um desenho no quadro, você só consegue visualizar em uma dimensão 2d. Tudo fica muito abstrato. Já com o kit, você sente a estrutura”, afirma o estudante.

mola_2Crédito: Arquivo/Pet Civil UFPR

Mesmo sendo uma solução pensada para os cursos de engenharia e arquitetura, o professor Anderson Inocencio, da Escola Castanheiras, em Santana de Parnaíba (SP), também percebeu que poderia usar o Kit Mola para ensinar física aos seus alunos do ensino médio. “Quando eu vi que o material, sabia que ele era pensado para atingir universitários, mas eu desconfiei que também dava para fazer uma transposição.”

A primeira experiência aconteceu na disciplina de projetos com a turma do nono ano do ensino fundamental, entre março e abril deste ano. “Fizemos um trabalho de montagem, mas já começaram a aparecer conceitos físicos importantes, como equilíbrio, força de tração, compressão e o próprio comportamento da estrutura”, exemplifica.

Já no final de setembro, o trabalho aconteceu com a turma do primeiro ano do ensino médio. Na disciplina de física, foram trabalhados conteúdos que envolvem equilíbrio, estabilidade e estática de um ponto material. “Eu acho que o aprendizado se tornou muito mais significativo. Os cálculos que nós tradicionalmente utilizamos para encontrar a força de equilíbrio e apoio ficaram muito mais simples. Eles conseguiram perceber as relações de uma forma mais significativa”, avalia.

Dicas para obter sucesso no financiamento coletivo
A partir da sua experiência com a campanha do Kit Mola, o arquiteto Márcio Sequeira de Oliveira faz algumas recomendações para quem deseja seguir o mesmo caminho para viabilizar um produto ou projeto. Confira:

1. Crie uma rede de contatos para espalhar uma ideia e atingir pessoas que realmente se identificam com o seu projeto;
2. Não deixe para divulgar a campanha apenas quando ela é lançada;
3. Invista na produção de vídeos. Isso é importante para contar uma história;
4. Tenha algo concreto para mostrar como o seu produto ou projeto funciona;
5. Pense na melhor data para o lançamento da sua campanha conforme o seu público.

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catarse, experimentação, financiamento coletivo, tecnologia