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Diário de Inovações

Professora usa culinária, artes e robótica nas aulas de inglês

Invertendo a lógica do ensino, Ana Lucia Arruda propõe a vivência do idioma para depois ensinar gramática aos seus alunos

por Ana Lucia Arruda 30 de novembro de 2016

Tive a oportunidade de morar na Califórnia, e lá decidi fazer um curso de extensão sobre o método montessoriano de ensino. Comecei, então, a dar aulas de inglês e percebi que a Califórnia é um espaço onde há muitas misturas e famílias em trânsito. Eu tinha alunos japoneses, chineses, coreanos e 20% de americanos. Tinha que ensinar o idioma para eles, mas não tinha uma língua em comum com eles.

Por isso, comecei a usar metodologias diferentes, ensinando inglês a partir de aulas de culinária e artes. Esse período que fiquei fora foi como uma experiência de pesquisa. Voltei ao Brasil para dar aula mas não consegui me adaptar novamente ao sistema antigo. Por isso, optei por abrir uma salinha de 30 metros quadrados, que chamei de Let it Grow, e comecei a dar aula particular com o sistema que eu acredito que funciona.

let it grow 02Crédito: Divulgação / Let It Grow

Quando a escola começou a fazer sucesso, pensei em consolidar a metodologia. Aqui, nós fazemos o caminho inverso. Por exemplo: eu sou formada em inglês e, portanto, aprendi a gramática muito bem, mas quando cheguei nos Estados Unidos, não conseguia me comunicar. Então o método que eu experimentei e que está dando certo é esquecer a gramática e ensinar o inglês de forma mais prática.

Esse método é parecido com o desenvolvimento humano. Quando uma criança nasce, ela vai aprender gramática primeiro? Não! Ela passa quatro ou cinco anos da vida vivenciando o idioma e aprendendo de forma lúdica e prática. Depois, vai para a escola aprender a gramática e lapidar o que aprendeu até então. O que eu faço hoje é exatamente isso: ensino para os alunos a vivência do inglês, como se fosse uma imersão, e depois a gente entra com o livro e gramática.

Algumas crianças falam: “Eu não gosto de inglês”. Isso acontece porque quando frequentaram outras escolas, era assim “paper é papel”, “ball é bola”. É uma coisa muito mecânica

Nas aulas, nós jogamos, fazemos receitas de culinária, temos aulas de artes e robótica. Tem algumas crianças que chegam para mim e falam: “Eu não gosto de inglês e não vou aprender nunca”. Isso acontece porque quando esses alunos frequentaram outras escolas de inglês, era assim “paper é papel”, “ball é bola”. É uma coisa muito mecânica, não está envolvendo aquele ser humano no aprendizado de modo nenhum.

Na aula de culinária, por exemplo, nós fazemos receitas básicas. Na sala, nós só falamos em inglês, mesmo que os alunos sejam praticantes básicos. Eu coloco a receita no quadro e eles copiam. Quando vou fazer a receita, todos os ingredientes estão na minha frente. Conforme vou lendo os procedimentos, mostro o que estou usando e vou fazendo. Os alunos, divididos em grupos, vão acompanhando, cada um fazendo a sua receita e, dessa forma, conseguem relacionar que strawberry, por exemplo, é morango. No final, cada um leva sua produção para casa, junto com a receita copiada do quadro.

let it grow 01Crédito: Divulgação / Let It Grow

Eu acredito nessa possibilidade de despertar o entusiasmo no aluno, que dá vez à curiosidade. Eles também adoram essa questão de poder tocar e manusear os ingredientes, de poder fazer coisas que às vezes não são permitidas em casa.

Nas aulas de robótica, alunos de quatro e cinco anos também já começam a aprender o inglês. Se eles vão aprender sobre a girafa, por exemplo, nós passamos vídeos e desenhos sobre o animal. Então cada um recebe um kit com peças de montar e instruções, como “first you have to get the yellow block” (em tradução livre, “primeiro você deve pegar o bloco amarelo”). E a partir disso, as crianças vão montando.

Como nós tivemos uma grande procura de alunos que vem para a escola depois que saem de suas aulas tradicionais, nós abrimos a possibilidade deles almoçarem com a gente. Então nós já organizamos almoços em inglês e depois, quando terminamos, cada um vai para a aula de sua preferência.

Já alunos mais velhos, com cerca de 13 anos, pretendem fazer testes de proficiência. Por isso, além dos momentos mais lúdicos, eles têm aulas com livros didáticos para lapidar a gramática. Nessas aulas, nós vamos desenvolvendo a leitura e a escrita.

A realidade dos alunos de hoje não é mais a realidade do livro, de sentar na cadeira. Logo quando voltei dos EUA, eu tinha uma aluna na minha turma que não conseguia ficar sentada. Durante as aulas, ela ficava em pé ou andando. E isso nunca me incomodou, porque ela aprendia do jeito dela e eu respeitei isso.

let it grow 03Crédito: Divulgação / Let It Grow

Tudo o que é lúdico desperta a curiosidade. Quando você ensina ciências, por exemplo, é muito mais difícil atingir aquele nível de motivação no aluno com o uso do livro e imagens. Se as crianças experimentam e veem as coisas acontecerem, eu acredito que o entendimento e o aprendizado são internalizados e solidificados, porque elas estão vivenciando aquilo.

No mundo de hoje, o conhecimento está todo no Google. Apesar de algumas informações não serem 100% corretas, as crianças não são bobas e podem ir a qualquer lugar do mundo pelo computador. Quando o professor quer transmitir conhecimento e não permite uma troca, não há um interesse despertado na criança, não há motivação. Mas quando ela presencia e vivencia um conhecimento, a vontade de aprender é despertada dentro de cada uma.

Ana Lucia Arruda

Formada no Curso Técnico em Química Industrial e Curso Normal de formação de Professores, no Rio de Janeiro. Tem especialização no método construtivista e no método Montessoriano. É idealizadora e fundadora do Espaço Let it Grow, na Barra da Tijuca.  

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aprendizagem colaborativa, experimentação, robótica