Eu sou professora da sala de recursos da escola EMEF David Canabarro, em Canoas, no Rio Grande do Sul. Minha função é acompanhar, em sala de aula ou no contraturno, alunos com deficiência física ou intelectual, procurando entender como eles resolvem problemas, aprendem e quais são suas estratégias. No ano passado, a gente tinha uma turma de terceiro ano formada por crianças multirrepetentes e com bastante dificuldade de aprendizagem.
Junto com a professora regular dos alunos, a Elisama Kemel, que também trabalha com inclusão, eu tentava de todas as formas ajudá-los. Mas nós não tínhamos muito resultado. Foi então que comecei a pesquisar o que podia fazer de diferente para que eles conseguissem ter mais concentração e atenção.
Depois de um tempo, descobri os exercícios cerebrais, que consistem em movimentos corporais estimuladores da respiração e dos cruzamentos do cérebro. Conversei com outra professora que é da Diretoria de Inclusão da Secretaria de Educação do município, e ela me trouxe mais material.
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A Elisama também estava muito preocupada com a falta de atenção dos alunos, que tinham dificuldade de ouvir e de participar. Quando mostrei as pesquisas, ela falou “vamos começar pra ontem”. O professor de educação física ficou surpreso com a proposta e passou a nos observar enquanto fazíamos os exercícios com os alunos. Logo depois, veio nos falar “que legal, vou fazer também, posso?”. Com esse apoio, propus à turma que, todos os dias antes de iniciarem a aula, fizéssemos uma sequência com esses exercícios cerebrais.
No início, as crianças que tinham mais dificuldade de parar, ouvir e prestar atenção debochavam e ficavam nos imitando. Mas a gente não valorizava isso. Só falávamos “Vocês que sabem. Seus colegas que estão participando e levando a sério estão dizendo que já melhoraram bastante”. Foi um estranhamento muito grande, porque elas não estão acostumadas com atividades diferentes. É sempre aquela coisa: entra, faz chamada, senta um atrás do outro, ninguém fala, ninguém respira, vira pra frente, não se mexe.
Mas com o tempo essas crianças também se interessaram e perceberam que tinha até professor entrando e fazendo os exercícios. A gente pedia que todos os alunos se acalmassem e começávamos com um exercício de respiração profunda, e a partir daí, fazíamos uma escala, para não ficar a mesma coisa todos os dias.
Tem criança, por exemplo, que não consegue fazer o exercício sem falar junto. E a gente não se importa com isso. Ela não consegue. Ponto. Não tem o que fazer. Elas mesmas ditavam a sequência. “Professora, agora é aquele que a gente faz assim com o braço. Professora, você esqueceu aquele”.
A criança que entra na escola é um corpo mandado e regrado para obedecer aquilo que os adultos querem que ela obedeça e ponto. Eu não acredito nesse tipo de educação. Por exemplo, você nunca vai me ver entrar na sala de aula e brigar se a criança estiver rolando no chão. Tem aluno que fica de saco cheio de ficar sentado e deita no meio do corredor. Se eu vejo que eu estou fazendo uma investigação e ele está respondendo, não mando ele sentar. Trata-se de transformar o corpo em sujeito de si mesmo: eu escolho como eu quero aprender, eu escolho qual é a minha melhor posição, eu escolho do jeito que eu quero me manifestar. E não vejo isso dentro de sala de aula.
Para mim, o melhor resultado disso tudo foi a autoestima. Os alunos passaram a acreditar mais neles mesmos, além de acreditar que sua mente e inteligência estavam melhor. Nós vimos que, acima de qualquer coisa, eles estavam se valorizando. A gente falava muito isso, que tal exercício era para “abrir os canais de inteligência do cérebro” e eles ficavam admirados. Foi muito contagiante.
Nós também recebemos retorno dos próprios alunos. Alguns falavam assim “professora, sabe que quando eu tô achando uma atividade muito difícil e que eu vejo que não tô mais com tanta atenção, eu faço aquela respiração e já começo a entender?”. A Elisama e o professor de educação física também vieram falar sobre a melhora do comportamento, dizendo o quanto as crianças estavam mais calmas. Os pais comentaram a mesma coisa. Os exercícios foram importantes. Claro, não foram só eles. Foi feita toda uma ação com os alunos, mas isso colaborou muito.


Fiquei muito interessada. Estou trabalhando este ano com uma turma de Educação Infantil 5 anos que não ouvem, falam ao mesmo tempo e já fiz de tudo e mesmo assim eles continuam agitados. Quais são estes movimentos de respiração e corporais que foram feitos com esta turma?
Qual é esse exercício ? Ficou faltando dizer … ☹️