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Crédito: Dante Nolasco

Inovações em Educação

Uma experiência no ensino descentralizado

Brasileiro relata em artigo como é aprender engenharia de software na escola 42 do Vale do Silício (EUA), uma filial da instituição francesa que coloca o aluno como protagonista

por Dante Nolasco 12 de fevereiro de 2018

Durante o mês de novembro, tive a oportunidade de estudar engenharia de software no Vale do Silício (região da Califórnia, nos Estados Unidos), em uma escola chamada 42. Sim, apenas 42. A princípio o nome é estranho, mas é uma referência a famosa obra “Guia do mochileiro das galáxias”, de Douglas Adam, como uma resposta sobre a vida, universo, entre outros assuntos. A referência nerd que é feita desde o título já levanta suspeitas de que não se trata de uma escola normal. E de fato não é.

A escola teve origem em Paris (França), em 2013, e foi fundada por Xavier Niel, um grande empresário francês na área de telecomunicação. Segundo ele “o sistema não funciona, pois a universidade não atende as demandas do mundo do trabalho, além de não encorajar diferentes talentos”. Um pensamento já debatido e conhecido, mas até então pouco colocado em prática. A 42 é uma instituição privada sem fins lucrativos, que oferece ensino gratuito a todos os alunos. Todo o projeto é financiado pessoalmente pelo bilionário francês Xavier Niel. Hoje, a 42 oferece apenas um curso, o de engenharia de software.

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Por se tratar de ensino gratuito em uma das áreas que mais cresce no mercado, é de se esperar que a procura pela instituição seja alta. São cerca de 70 mil candidatos por ano, em que apenas 3 mil passam para a última fase da seleção, a chamada piscine. Outro aspecto que se destaca é a metodologia descentralizada, que é diferente de tudo que conhecemos.

Tudo acontece em um grande laboratório sem paredes, que funciona 24 horas por dia, em todos os dias do ano, permitindo que os alunos escolham quando irão estudar

Alguns já devem ter ouvido falar no termo peer-to-peer (entre pares), ou P2P. É o conceito de descentralização, que hoje é aplicado por exemplo na moeda virtual Bitcoin ou em downloads de torrent (em que usuários compartilham entre si pedaços de arquivos). Isso quer dizer que cada um dos indivíduos detém parte da informação, estes se juntam para que todos tenham acesso a essas informações. Dessa forma, quanto mais pessoas participando da rede mais sólida e confiável ela é. Aplicado este conceito à educação, a 42 é uma instituição sem professores, horário de aula ou divisão de turma, em que os alunos deixam de ser apenas observadores e tornam-se criadores do próprio conhecimento. Tudo acontece em um grande laboratório sem paredes, que funciona 24 horas por dia, em todos os dias do ano, permitindo que os alunos escolham quando irão estudar. A base curricular é extensa e os alunos participam da sua criação. Ela permite a atuação em três áreas da computação: programas e sistemas, algoritmos e IA ou gráficos e imagem. Os alunos têm total liberdade para escolher qual (ou quais) área deseja se aprofundar, e então, o estudante recebe projetos cada vez mais complexos para completar seu currículo. A duração do curso também depende unicamente do aluno, porém tem um tempo médio de três a cinco anos.

Não existem trabalhos, atividades de casa ou provas na grade curricular da 42. Os alunos desenvolvem projetos predefinidos pela escola e à medida que entregam, avançam no currículo gamificado, que vai do nível zero a 21. Existe um conteúdo comum nos primeiros níveis, mas em pouco tempo o aluno vai aprofundando na(s) área (s) que escolheu.

Minha experiência começou antes de ingressar no curso, na última fase do processo seletivo. Eram cerca de 200 alunos em um curso intensivo de programação, estudando dez horas por dia durante quatro semanas ininterruptas. Todos os dias recebíamos um conjunto de dez a 20 exercícios na linguagem de programação C, para serem entregues no dia seguinte com 36 horas de prazo. A entrega dos trabalhos era individual, mas era permitido discutir e realizar os exercícios em grupo – o que aconteceu naturalmente.

Junto aos vários quadros brancos disponíveis pelo laboratório, sempre era possível encontrar um grupo de alunos explicando exercícios uns aos outros enquanto desenhavam o raciocínio e desenvolviam os trabalhos. Era uma espécie de sala de aula espontânea, com alguns explicando conceitos e outros discutindo a aplicação e maneiras de otimizar.

Escola 42 no Vale do Silício, EUACrédito: Dante Nolasco

Nenhum conteúdo ou referência é fornecido pelo material do exercício, tão pouco pelos funcionários da escola. A opção era recorrer a conteúdos online ou aos colegas. Não ter um professor/orientador no começo é difícil, mas sua ausência acabou deixando de ter tanta importância e levou ao desenvolvimento de uma outra grande habilidade: aprender a aprender. Parece confuso, mas a 42 utiliza uma metodologia diferenciada e possui prazos apertados, os alunos têm que se acostumar a adquirir um grande volume de conhecimento em pouco tempo. Não se trata apenas de conseguir fazer os exercícios, mas também entender o que foi feito, seus conceitos e aplicações.

Ao finalizar as atividades, é definido pelo sistema um horário para correção, tarefa também realizada pelos alunos. Isso faz com que praticamente todos se conheçam e interajam entre si pelo menos uma vez. São duas ou três correções para cada lista de atividades, e a nota final é a média delas. Na correção, os alunos discutem o que foi feito, esclarecem dúvidas e testam o resultado, o que torna esse momento também muito prazeroso.

Além de promover uma maior interação, esse modelo de correção também permite que cópias ou trapaças sejam identificadas, pois a lógica da resposta deve ser explicada e, caso ache a explicação seja insuficiente, o aluno corretor zera a nota da atividade. Ao finalizar a tarefa, o corretor também é avaliado e recebe um feedback (retorno avaliativo). Com isso, todos se esforçam para fazer uma correção aprofundada e ter bom relacionamento com os demais.

O método de correção varia de acordo com a dificuldade, ou seja, você deve acertar o exercício mais fácil para ser pontuado naquele com maior dificuldade. Isso é justificado pela distribuição das atividades, pois começa com uma tarefa simples, que aumenta gradualmente em complexidade. Um exemplo: criar uma lista, permitir que mais elementos sejam adicionados a ela, classificar em ordem alfabética e mostrar o resultado. Cada passo deste é um exercício que depende  do anterior para ser feito. Caso o aluno falhe em um exercício, teoricamente não possui conhecimento suficiente para realizar os outros. Para reforçar o aprendizado, as atividades e conceitos se repetem ao longo do curso.

O ensino descentralizado exige muito mais do aluno, pois além de ter a dificuldade de conteúdo do tradicional, o estudante deve ter maior autocontrole, pois não existe horário ou matéria certa para estudar. Já dizia o Tio Ben (de Homem-Aranha), “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. E muitos têm dificuldade em lidar com as responsabilidades, principalmente porque não são cobradas diretamente.

A necessidade de se adaptar a diferentes situações e interagir com os demais desenvolve habilidades importantes para o mercado de trabalho

Muitos dizem que isso é o futuro, e eu concordo. Comparado com o ensino tradicional, o peer-to-peer empodera o aluno, faz com que ele se esforce para aprender e constrói um conhecimento mais sólido e fundamentado. Além disso, a necessidade de se adaptar a diferentes situações e interagir com os demais desenvolve habilidades importantes para o mercado de trabalho. Isso tudo sem comprometer aqueles que gostam da figura do professor, alguém que esclarece dúvidas e possui conhecimento sobre o assunto. Esse papel é exercido por algum outro aluno ou até mentor, que auxilia os demais sem o status de autoridade detentora de conhecimento.

Existem ainda alguns empecilhos para aplicação em larga escala dessa metodologia. Acredito que a área de computação e engenharia seja a mais propícia para esse tipo de abordagem, que ainda tem que ser adaptada para cursos teóricos. Outro ponto é a maturidade do aluno, que migra de um sistema completamente fechado e cheio de regras para um sem praticamente nenhuma restrição. Muitos não conseguem se controlar e não se dedicam o suficiente, ou acabam se frustrando e têm dificuldade de readaptar.

Ao longo da minha experiência na 42, vi parte dos estudantes desistirem por não se identificarem com a área de computação ou por não se adequarem à metodologia. Pessoalmente, foi uma experiência muito enriquecedora e que me trouxe um conhecimento prático valioso, que vou levar para a vida toda.

Decidi compartilhar isso para incentivar escolas, startups e outras iniciativas de educação que acreditam em outras maneiras de ensinar. A 42 mostra que é possível mudar o sistema, enquanto reduz os custos e se torna referência mundial em educação.

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