Destaques
O professor atuou como mediador, lançando perguntas e provocações para ajudar os estudantes a transformar inquietações em narrativas.
Acompanhou a criação dos roteiros e das cenas, garantindo orientação sem retirar dos jovens a autonomia sobre suas produções.
Organizou uma experiência de aprendizagem baseada na experimentação, na colaboração e na tomada de decisões pelos estudantes.
Você sabe o que é uma fotonovela? Quando faço essa pergunta aos meus estudantes, a maioria não conhece a resposta. Para uma geração acostumada a produzir vídeos, compartilhar imagens e acompanhar histórias pelas redes sociais, a fotonovela parece uma linguagem distante, quase de outra época.
Popular no Brasil principalmente nas décadas de 1960 e 1970, a fotonovela apresentava histórias fictícias com estética semelhante à das histórias em quadrinhos. A principal diferença era que, em vez de desenhos, usava fotografias para construir personagens, cenários e narrativas.
Ao apresentar essa linguagem às minhas sete turmas do 2º ano do ensino médio do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, campus Januária, percebi uma conexão imediata. Apesar de não conhecerem a fotonovela, os 219 alunos dominavam um de seus principais elementos: a imagem. Fotografar, criar narrativas visuais e compartilhar conteúdos já fazia parte da rotina deles.
Dessa aproximação entre uma mídia do passado e os desafios do presente digital nasceu o projeto “Falando sobre bem-estar e saúde emocional on-line por meio de fotonovelas”.
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Como tudo começou
Como professor de arte, percebo que os estudantes estão muito inseridos em um universo de telas, redes sociais e produção constante de conteúdos digitais. Eles fotografam, gravam vídeos, acompanham influenciadores e interagem diariamente com diferentes linguagens.
Ao mesmo tempo, esse cenário traz desafios como o uso excessivo de telas, a falta de atenção, o cyberbullying (uso da tecnologia para intimidar, humilhar ou agredir alguém online), o acesso a conteúdos inadequados à idade e a exposição indevida de dados pessoais.
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Minha proposta era transformar uma prática tão comum – tirar fotos e compartilhar imagens pelo celular – em oportunidade de aprendizagem. Eu queria que eles não apenas consumissem conteúdos na internet, mas compreendessem como as imagens são construídas, quais mensagens transmitem e quais impactos podem ter em suas vidas.
A ideia era deslocar o aluno da condição de simples consumidor de conteúdo digital para a de produtor. Ao fazer essa transição, ele passa a compreender melhor a linguagem e as ferramentas que utiliza. O celular deixa de servir apenas ao consumo, e o jovem ganha mais condições de ler criticamente o que as mídias sociais entregam a ele.
Esse contexto ganhou ainda mais relevância em 2025, com a implementação da Lei 15.100, que restringiu o uso de celulares nas escolas, e com a aprovação do ECA Digital (Lei 15.211). Mais do que discutir a presença ou a ausência dos dispositivos no ambiente escolar, eu queria criar uma oportunidade para que os próprios estudantes refletissem sobre a maneira como se relacionam com a tecnologia.

Cultura local encontra o mundo digital
Nosso trabalho foi desenvolvido em Januária, no Norte de Minas Gerais, município que reúne cerca de 15 mil quilombolas em uma população de aproximadamente 65 mil habitantes, a quarta maior população quilombola do Brasil.
À margem esquerda do Rio São Francisco, Januária está inserida no sertão que atravessa as histórias do escritor João Guimarães Rosa e preserva uma forte cultura ribeirinha. Mesmo distante dos grandes centros urbanos, o município também convive com as transformações e os desafios trazidos pela tecnologia.
A partir desse contexto, os alunos foram convidados a refletir sobre a cultura de Januária, do Norte de Minas e sobre sua relação com o mundo digital.
Um dos resultados foi a fotonovela “Não deixe morrer”, que conta a história de uma jovem destinada a herdar o posto de rainha da Cavalhada, festa tradicional marcada por cortejos, cavaleiros e encenações que atravessam gerações na comunidade. Devido ao uso excessivo das telas, ela começa a se afastar da comunidade e das tradições de sua família.
Exemplos
Ao todo, os alunos criaram 26 fotonovelas. Leia abaixo duas delas:
Em “O preço da fama digital”, Maria é vítima de uma notícia falsa depois que uma foto borrada circula nas redes sociais e é atribuída a ela. Com a ajuda dos amigos, tenta provar a verdade e enfrentar os efeitos da mentira sobre sua reputação.
Já em “Desligando a tela”, Junão deixa os estudos de lado para passar muito tempo jogando. Depois de não ser aprovado no vestibular, começa a rever seus hábitos e a equilibrar melhor o tempo entre jogos e estudos.
Etapas do projeto
A atividade foi organizada a partir de cinco princípios: integrar ferramentas digitais que os alunos já utilizam; incentivar o protagonismo estudantil; trabalhar com recursos acessíveis e de baixo custo; estimular a busca de soluções para os problemas debatidos; e criar uma mídia educacional que pudesse ser replicada em outros contextos.
Escolhi a fotonovela porque ela combina duas linguagens que favorecem a participação dos estudantes: a fotografia, já presente no cotidiano e nas redes sociais, e a construção de um roteiro ficcional, que amplia as possibilidades de criação e expressão. Ao elaborar personagens, situações e diálogos, os alunos podem expressar suas ideias e pontos de vista com mais liberdade.
Por que escolhi as fotonovelas
A fotonovela já faz parte das minhas aulas de fotografia e, a cada dois anos, utilizo esse formato nas atividades. Em 2023, por exemplo, os estudantes adaptaram músicas da MPB para o contexto da cultura local. Depois de estudar as canções, transformaram suas histórias em narrativas ambientadas na própria realidade. Em 2025, retomamos essa experiência com uma nova proposta.
Uma das vantagens da fotonovela é justamente a facilidade de produção. Com recursos simples, os estudantes podem experimentar diferentes funções ao longo do processo: criação do roteiro, fotografia, atuação, produção e diagramação. Assim, a atividade não se limita ao aprendizado de técnicas fotográficas, mas envolve diferentes formas de colaboração.
Em vez de receberem uma mensagem pronta sobre os riscos da tecnologia, convidei os alunos a investigar situações do próprio cotidiano, criar personagens, identificar conflitos e pensar em possíveis soluções.
Meu papel foi mediar esse processo: acompanhar as escolhas dos grupos, fazer perguntas e ajudá-los a aprimorar as histórias, garantindo espaço para que tomassem as próprias decisões.
Eles se organizaram em grupos de até sete integrantes e participaram de aulas sobre técnicas fotográficas e sobre a linguagem da fotonovela. Para apresentar o gênero, levei produções antigas e revistas impressas do meu acervo pessoal. Também compartilhei trabalhos de turmas anteriores, para que observassem diferentes possibilidades de criação, e preparei um guia com o passo a passo da atividade.
Esse processo favoreceu a autoria, a colaboração e o engajamento dos estudantes, que participaram das diferentes etapas de criação e tomaram decisões sobre suas próprias narrativas.
Planejamento coletivo
Os objetivos de aprendizagem do projeto eram desenvolver competências de letramento digital e promover a reflexão crítica sobre práticas on-line. O trabalho durou nove semanas, com aulas expositivas, atividades de orientação, mentoria e práticas.
Na área de arte, esperava que os estudantes aprendessem fundamentos da linguagem fotográfica, como enquadramento, composição, planos e narrativa visual. Para isso, trabalhamos conteúdos como História da Fotografia, Planos e Enquadramentos e Técnicas de Fotografia.
Também abordamos conceitos relacionados à estrutura narrativa, especialmente a construção de roteiros em três atos — o mundo comum do personagem, os desafios a enfrentar e a solução —, para que os estudantes compreendessem como as histórias são construídas.
De forma associada, exploramos a cidadania digital, especialmente o tema “Bem-estar on-line e saúde emocional nas redes”, articulando competências estéticas, técnicas e críticas. Utilizamos como referência o caderno da SaferNet Brasil, que aborda assuntos como a veracidade das informações, a exposição de dados pessoais, as práticas de cyberbullying e os impactos do uso excessivo de telas na saúde emocional.
Ao longo do trabalho, comecei a observar mudanças na postura dos alunos. Essa nova forma de perceber a mídia aparecia na maneira como discutiam temas da cultura digital. A linguagem dos jovens se tornava mais especializada, e a leitura dos conteúdos digitais ganhava um viés mais crítico.

Do roteiro à fotonovela
A construção dos roteiros permitiu que os estudantes refletissem sobre a presença da tecnologia no cotidiano, os problemas que podem surgir nesse ambiente e as formas de enfrentá-los. A abordagem também ajudou a evitar que a discussão fosse conduzida por um discurso moralista contrário à tecnologia.
Os próprios estudantes, já inseridos no mundo digital, foram convidados a analisar suas experiências, pensar criticamente sobre elas e encontrar soluções para as situações debatidas.
A partir daí, os jovens assumiram a produção. Eu acompanhei os processos, fiz a mentoria dos trabalhos e apoiei as escolhas dos grupos, em uma abordagem centrada no estudante e orientada pela aprendizagem ativa.
Para auxiliar na realização das fotografias, criei um material instrucional que explicava o que é a fotonovela, apresentava formatos de fotos e trazia um guia de enquadramentos. Também elaboramos um briefing com as temáticas que poderiam ser exploradas nos roteiros e uma folha de diretrizes gerais, com orientações sobre edição, diagramação e formato de entrega, entre outros aspectos.
As produções dos estudantes foram avaliadas segundo critérios de adequação ao tema, originalidade, criatividade e respeito aos direitos humanos.
O trabalho articula o conteúdo da disciplina de arte, especialmente a produção fotográfica, com o conceito de educação midiática apresentado pela Unesco na obra “Alfabetização Midiática e Informacional: diretrizes para a formulação de políticas e estratégias”.
Segundo a Unesco, diante da saturação de imagens e informações, é necessário desenvolver competências para o uso ativo das mídias. As novas tecnologias criam oportunidades, mas também apresentam desafios relacionados à segurança, à integridade e à privacidade. A escola não pode ficar alheia à discussão. É justamente nesse ponto que este trabalho se situa.
Os obstáculos da produção
O desenvolvimento do projeto enfrentou alguns obstáculos. Um deles foi a falta de equipamentos fotográficos adequados, o que levou à adoção do celular como principal ferramenta de produção.
Embora isso tenha limitado, em certa medida, o uso de recursos técnicos mais avançados, também revelou uma oportunidade pedagógica: trabalhar com dispositivos já presentes no cotidiano dos alunos e tornar o projeto mais acessível e viável.
Outra dificuldade foi o desconhecimento dos estudantes sobre o formato da fotonovela. Por se tratar de um gênero pouco familiar às novas gerações, foi necessário dedicar mais tempo à apresentação de referências, como produções de turmas anteriores e fotonovelas antigas impressas, além de explicar a estrutura narrativa e orientar a construção das histórias.
Esse processo exigiu adaptações metodológicas e acompanhamento mais próximo nas etapas iniciais.
O que os estudantes relataram depois do projeto
As fotonovelas foram compartilhadas entre os estudantes da escola e publicadas em um blog da instituição para download.
A autoavaliação realizada após o projeto registrou mudanças na percepção dos estudantes participantes sobre o ambiente virtual. Após a conclusão das fotonovelas, 92% dos alunos afirmaram ter maior capacidade de reconhecer conteúdos falsos ou enganosos na rede.
Os dados também apontam que 57% dos participantes disseram fazer um uso mais consciente e controlado do celular no dia a dia. Além disso, 87% declararam ter adotado critérios mais rigorosos de privacidade antes de compartilhar dados pessoais ou imagens de terceiros.
Como reproduzir a experiência
O projeto pode ser replicado em diferentes contextos, sobretudo por sua acessibilidade técnica. Ao contrário de produções audiovisuais que demandam boas condições de gravação de áudio e edição de vídeo, a fotonovela permite trabalhar com recursos simples, como celulares básicos. Isso torna a proposta viável em diferentes realidades escolares.
Neste trabalho, organizamos a produção em um fluxo que incluiu roteiro, produção, edição e finalização. Os estudantes contaram com materiais de apoio, como guia de enquadramentos fotográficos, instruções sobre o gênero fotonovela e diretrizes de produção. Esses materiais também podem ser usados por outros professores.
Ferramentas de design gráfico baseadas em nuvem, como o Canva, também podem facilitar a edição e a continuidade da proposta, por oferecerem recursos acessíveis e de uso relativamente simples.
Do reconhecimento aos próximos projetos
Em fevereiro de 2026, as fotonovelas receberam o Prêmio Cidadania Digital em Ação, organizado pela SaferNet Brasil e pela Embaixada do Reino Unido no Brasil. Nosso trabalho ficou em primeiro lugar. O reconhecimento deu visibilidade ao projeto, e muitos professores demonstraram interesse pela proposta, principalmente pela possibilidade de replicá-la em outras localidades.
Como docente, essa experiência me levou a pensar em outras situações e contextos nos quais a metodologia pode ser utilizada. Minha intenção agora é compartilhar o que aprendemos e explorar como a fotonovela pode ajudar outros professores a abordar não apenas questões ligadas à tecnologia, mas também outros temas de suas aulas.

