A educação midiática como vacina contra a infodemia - PORVIR
por Marina Lopes

Coronavírus

A educação midiática como vacina contra a infodemia

Com o excesso de informações sobre o coronavírus, especialistas afirmam que o momento exige responsabilidade ao consumir, produzir e compartilhar conteúdos

Parceria com EducaMídia

por Marina Lopes ilustração relógio 1 de abril de 2020

Em tempos de pandemia, outro fenômeno tem caminhado na contramão do combate ao coronavírus (COVID-19): a epidemia da desinformação – ou melhor, a infodemia, como definiu a própria OMS (Organização Mundial de Saúde). Publicações xenófobas envolvendo os chineses, teorias da conspiração e até mesmo a “descoberta milagrosa” de medicamentos são algumas das mensagens que circulam exaustivamente em grupos de WhatsApp e redes sociais. Mais do que nunca, o momento exige responsabilidade ao consumir, produzir e compartilhar informação.

Para discutir os efeitos da infodemia e como a educação midiática pode ser um antídoto para combater esse cenário, o Porvir conversou com especialistas em mídia e educação. A reportagem dá início a uma série de conteúdos que serão produzidos ao longo do ano em parceria com o EducaMídia, programa do Instituto Palavra Aberta criado para capacitar professores e engajar a sociedade no processo de educação midiática.

Diante da superabundância de informação,  o acesso a fontes e orientações confiáveis fica mais difícil, segundo Patricia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta. “Isso é preocupante na medida em que temos uma sociedade que não está preparada para ler criticamente a informação que recebe”, diz.

Ela também defende que o momento reafirma a importância de formar cidadãos para lidar com a informação de maneira responsável. “A educação midiática é um conjunto de habilidades que ajudam você a acessar informação, criar conteúdos e sobreviver nesse ambiente informacional”.

Apesar de chamar atenção para o fato de que a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) traz muitas oportunidades para trabalhar a educação midiática de forma transversal, ela ressalta que o desenvolvimento dessa habilidade não deve estar restrito ao ambiente escolar. “A educação midiática é um aprendizado para a vida.”

Os riscos da desinformação
No meio de uma pandemia, essa habilidade também ajuda a salvar vidas, já que boatos podem ser tão prejudiciais quanto o próprio vírus. No Irã, dezenas de pessoas morreram após ingerir álcool adulterado, acreditando que essa substância poderia curar o COVID-19.

“Saúde é um tema muito arriscado para a desinformação. Se alguém segue uma informação falsa, isso coloca em risco a vida”, destaca o jornalista Sérgio Lüdtke, editor do Projeto Comprova, uma iniciativa de checagem que reúne profissionais de 24 diferentes veículos de comunicação brasileiros.

Além do excesso de informação, Sérgio lembra de outro fator que atrapalha a busca por fontes e orientações confiáveis: a polarização da sociedade. “A política é potencializadora do efeito da desinformação”, afirma, ao citar que as pessoas podem ser levadas a compartilhar uma desinformação que reforce o seu posicionamento.

Como agir diante do excesso de informação
Para a psicanalista Vera Iaconelli, o excesso de informação é sempre prejudicial. Além de existir uma disputa de narrativas, ela chama atenção para o fato de que as pessoas estão mais suscetíveis em um período de quarentena. “Existe um momento generalizado de incerteza, e a tendência é que as pessoas consumam ainda mais informações para prever, planejar e tentar saber o que vai acontecer”, explica.

No entanto, a psicanalista destaca que o consumo de informação em excesso pode causar angústia, ansiedade e o sentimento de impotência. “As pessoas acreditam que se elas consumirem muitas informações, elas vão dominar os acontecimentos. Na verdade, não é isso que acontece. A dose certa da informação nunca foi tão necessária como agora”, defende.

Mas como encontrar a dose certa? No livro “A Dieta da Informação”, o americano Clay A. Johnson diz que, assim como os médicos e nutricionistas recomendam uma dieta nutricional equilibrada, o nosso prato informacional também precisa ser colorido e nutritivo.

“Criar uma dieta informacional saudável é fundamental neste momento. Você não deve consumir informação sobre o coronavírus o dia inteiro porque isso causa uma ansiedade brutal”, orienta Alexandre Le Voci Sayad, fundador da ZeitGeist – Education, Culture and Media e copresidente da GAPMIL (The Global Alliance for Partnerships on Media and Information Literacy), uma iniciativa da Unesco (braço da Organização das Nações Unidas para educação e cultura) que promove a cooperação internacional para garantir que todos cidadãos tenham acesso às competências em mídia e informação.

De acordo com Sayad, mais do que nunca o momento reforça a importância da educação midiática como um antídoto para combater a desinformação. “Um olhar sistêmico para a educação midiática é fundamental. Ela tem que estar presente na escola, da educação infantil ao ensino médio, e não enquanto disciplina, mas como uma prática”, conclui Alexandre.

Apesar de não ser possível desenvolver essa habilidade do dia para noite, ele diz que é importante dar o primeiro passo. “Para o ambiente informacional ser mais saudável, todos têm o seu dever. A educação midiática como parte da escola é fundamental, mas seria muito romântico achar que ela sozinha daria conta de resolver essa questão.”

Recursos para educadores
O que a pandemia pode nos ensinar sobre educação midiática? Para apoiar os educadores que estão lidando com os desafios gerados pela infodemia, o EducaMídia tem produzido dicas, conteúdos especiais e organizado transmissões ao vivo nas suas redes sociais. Além disso, o site do programa também reúne conteúdos para formação, recursos e planos de aula para apoiar o trabalho e o desenvolvimento da educação midiática. Em breve, novas dicas e experiências sobre este tema também serão publicados e compartilhados no Porvir e em seus canais.

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base nacional comum curricular, competências para o século 21, coronavírus, educação midiática, ensino fundamental, ensino médio, redes sociais, tecnologia

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Ter consciência que este vírus ou bactéria não é brincadeira … para uns pode ser uma simples gripe para outros uma gripe fatal