Aluno, professor e gestor: conheça a história de Ewerton Menezes na EJA - PORVIR
Crédito: Vinícius de Oliveira / São Paulo (SP)

Inovações em Educação

Aluno, professor e gestor: conheça a história de Ewerton Menezes na EJA

Atual gestor do premiado CIEJA Clovis Caitano Miquelazzo, Ewerton conta ao Porvir como a especialização na modalidade fez a diferença em sua carreira profissional

por Ana Luísa D'Maschio e Marina Lopes ilustração relógio 30 de novembro de 2022

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Este conteúdo faz parte da
Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

“Não estou no mundo para, simplesmente, a ele me adaptar, mas para transformá-lo”, escreve Paulo Freire (1921-1997) nas primeiras páginas do livro “Pedagogia da Indignação”. O depoimento bem descreve a trajetória do educador Ewerton Menezes Fernandes de Souza, paulistano de 39 anos que se empenha em ser um agente da mudança.    

O hábito de questionar e o desejo de transformar o mundo começaram cedo. Frequentador assíduo da biblioteca Amadeu Amaral, no bairro da Vila da Saúde, em São Paulo, já na adolescência escrevia poemas e letras para a banda de punk rock que formou com os amigos. Aos 13 anos, aproximou-se dos movimentos estudantis e dos debates políticos e sociais.

Mesmo gostando de estudar, contudo, não se conformava com a metodologia tradicional da escola, com carteiras enfileiradas e o professor ditando conteúdos em uma aula sem interatividade, tampouco espaço para a discussão. “Eu me sentia bastante inadaptado. No ensino médio, cheguei a mudar de escola três vezes. A proximidade dos grêmios estudantis me trouxe senso político: eu me tornei bastante crítico àquele sistema e decidi me afastar”. 

À época, Ewerton passou a contribuir com projetos sociais ligados à educação e entendeu que poderia, à sua maneira, fazer a diferença na vida de outros. Retornou às aulas aos 18 anos, quando concluiu o ensino médio na EJA (Educação de Jovens e Adultos). 

“O ano era 2003 e não havia tantos jovens na EJA quanto hoje. Convivi com gente mais velha, tomei contato com questões da vida adulta, dificuldades do trabalho, problemas que existiam também na minha casa, mas eram mais fáceis de serem abordados com os outros colegas”, relembra.

Gilberto, seu professor de biologia, inspirou Ewerton a investir em sua formação. “Ele tinha um compromisso muito grande com os estudantes, muita empatia com quem faz todo um sacrifício para estar ali.”

Ewerton cursou Letras e se tornou educador. De EJA. “Queria ser professor, mas não um somente um professor de português. O envolvimento com as políticas sociais, as monitorias que fiz durante a faculdade e o fato de ter sido aluno da EJA me levaram de volta à modalidade”, diz. 

De aluno a professor – e gestor 

Ao tomar contato com as obras de Paulo Freire na universidade, Ewerton se convenceu de que escolhera o caminho certo. Aprovado em um concurso público, iniciou em Guarulhos a carreira de professor de jovens e adultos. Tempos depois, fez prova para ingressar no quadro de docentes da prefeitura de São Paulo – também passou.

“Com Freire, aprendi que o professor é um agente transformador e a EJA significa esperança e transformação. Os alunos se sentem valorizados, ressignificam sua vida. Não é fácil, não pode ser romantizado, mas é fantástico quando vemos esse processo de transformação acontecer.” Outra conhecida frase freiriana acompanha Ewerton até hoje. Ele a estampa na lousa no primeiro dia de aula de cada turma, a fim de começar o acordo pedagógico do ano letivo: “Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”.

Ewerton prefere trabalhar com perspectivas mais amplas. “Nunca gostei de aulas formatadas, mas sim de uma roda de conversa, de uma aula pública.” Entre as práticas, ele cita as cirandas, interação entre canto e dança que costumava ministrar com suas turmas mesclando diferentes temáticas pedagógicas. “Criei um projeto interdisciplinar envolvendo cerca de sessenta pessoas e até hoje o levo para onde vou”, conta. 

Crédito: Vinícius de Oliveira / São Paulo (SP)

Ao perceber a inventividade e o compromisso de Ewerton, uma colega de escola perguntou se ele conhecia a proposta do CIEJA (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos) Clovis Caitano Miquelazzo, localizado na periferia do Parque Bristol, bairro próximo de onde mora.  O espaço, antes um sacolão, há 22 anos se converteu em uma escola que abriga estudantes de segmentos vulneráveis. “A professora Mirtes, que havia trabalhado no CIEJA, me disse que eu iria gostar muito. E acertou em cheio”, sorri.

Ewerton se submeteu a um novo processo seletivo e, em 2010, tornou-se professor do CIEJA Clovis Caitano. Em 2015, assumiu o cargo de coordenador pedagógico. Há seis anos, está à frente da direção, coordenando projetos interdisciplinares que dialogam com a comunidade e trazem o saber dos educandos para a metodologia de trabalho. “O aluno de EJA tem uma bagagem valiosa e é preciso trabalhar para que eles entendam isso”, comenta o diretor, que trocou as cadeiras enfileiradas das salas de aula pelas mesas redondas, a fim de facilitar o compartilhamento de experiências.

A proposta dos CIEJAs
Antigos Centros Municipais de Ensino Supletivo, os CIEJAs são ligados à Rede Municipal de Ensino de São Paulo e são voltados ao cumprimento das três funções da Educação de Jovens e Adultos previstas nas Diretrizes Curriculares Nacionais: reparar, qualificar e equalizar as aprendizagens.

Destinadas ao público acima de 15 anos até qualquer idade, as jornadas de estudo são de 2h15 por dia, nos períodos matutino, vespertino e noturno. Há flexibilidade de horários e oferta de refeições. Todos os professores, concursados, realizam formações continuadas, focadas nas especificidades dos estudantes da modalidade.

Conheça a história de Dona Eda e do Cieja Campo Limpo, nesta reportagem do Porvir.
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Saberes e aprendizados locais

A cada semestre, a equipe desenvolve, com a participação ativa dos estudantes, projetos curriculares integrados. Na primeira semana, há uma atividade de sensibilização, sem o uso de cadernos. Na segunda, os educandos debatem o chamado tema gerador, assunto que gostariam de se aprofundar durante o período. Os resultados culminam com propostas variadas: dinâmicas, visitas à comunidade, peças teatrais, livros, jogos, saraus e excursões a museus e outras cidades. 

Em uma sala de leitura, as atividades físicas dos anos anteriores ficam expostas em vitrines. Entre elas, estão jogos de tabuleiro sobre problemas do território e representatividade feminina, malas customizadas com recados sobre os sentimentos dos (i)migrantes e quadrinhos sobre violência prisional inspirados no livro “Carandiru”, de Drauzio Varella. Atividades de plantio e compostagem também fazem parte da rotina dos educandos em uma horta situada ao lado da recém-inaugurada quadra de esportes.

Durante a pandemia, foram impressas cartilhas para que os educandos seguissem estudando, apoiados pelos professores via WhatsApp e em plantões presenciais. Placas de prêmios e reconhecimentos pelas práticas pedagógicas estão penduradas na recepção da escola.

O mais recente projeto premiado da escola, pelo Instituto Tomie Othake, colocou a comunidade no centro da aprendizagem: durante a crise sanitária causada pela Covid-19, uma pesquisa interna mostrou que 48% dos 350 alunos matriculados estavam desempregados e, entre os que trabalhavam, muitos estavam em situações precarizadas. A gestão criou oficinas e palestras, de maneira remota e presencial, para apoiá-los a encontrar maneiras de gerar renda e se inserir no mercado de trabalho. 

Não foi a primeira vez que o CIEJA Caitano ganhou o Prêmio Tomie Ohtake. Em 2019, o projeto Planeja Sustentável foi um dos vencedores.

Leitura do Mundo

No último semestre de 2022, os alunos escolheram mazelas sociais para trabalhar em sala de aula. O tema “Fome, face (invisível) da pobreza: Quem sofre? Quem lucra?” foi levado a todas as turmas com criatividade. Os educandos colaram pratos de papelão nas paredes, convidando os alunos a escrever quais alimentos consomem diariamente. Pendurados no teto, outros pratos traziam o cardápio ideal e os que mais gostariam de comer. Picanha foi um dos alimentos mais lembrados. 

Reuniões, seminários com líderes comunitários, nutricionistas, especialistas em insegurança alimentar, bem como frases de pensadores espalhadas pela escola e pelas duas grandes lousas localizadas no muro externo, deram ainda maior dinamismo ao projeto. Tudo foi reunido nos dois dias de mostra de final de ano, aberta à comunidade no mês de novembro. 

Foi fundamental ter sido educando na EJA para atuar como professor, coordenador e agora na gestão. Posso entender os anseios de quem chega

“Foi fundamental ter sido educando na EJA para atuar como professor, coordenador e agora na gestão. Posso entender os anseios de quem chega”, diz Ewerton, que atualmente participa do grupo de trabalho que transformará o CIEJA Caitano em uma escola piloto do ensino médio, em 2024.  

Pai de Alice, 8 anos, Penélope, 5, e Isabel, de 1 ano e meio, Ewerton é um entusiasta da educação pública. “Sempre ouvi que a escola pública não tem qualidade e isso me incomoda bastante. Já ouvi de um aluno aqui no CIEJA que eu era muito exigente e escola pública não precisa exigir tanto. Minhas filhas estão matriculadas em escola pública. É preciso mudar o olhar”, conclui.

**A pauta foi selecionada pelo 4º Edital de Jornalismo de Educação, iniciativa da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação) em parceria com o Itaú Social. As matérias serão publicadas durante o mês de novembro de 2022.


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eja, ensino superior, Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

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