Formar estudantes para usar tecnologias já não é suficiente. A tarefa agora é ajudá-los a compreender como o ambiente digital funciona, avaliar conteúdos com senso crítico, participar com responsabilidade e de maneira cidadã no ambiente virtual. 

Foi com esse propósito que o governo federal lançou a Coleção Brasileira de Educação Digital e Midiática, plataforma que reúne mais de 90 cursos, guias, recursos pedagógicos e webinários voltados a profissionais da educação. A iniciativa, desenvolvida pela Secom/PR (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República), em colaboração com o MEC (Ministério da Educação), conta com apoio técnico do Porvir e do Governo do Reino Unido.

A proposta é reunir, em um único ambiente digital, materiais que já estavam disponíveis em diferentes canais, como o AVAMEC, Ambiente Virtual de Aprendizagem do Ministério da Educação voltado à formação continuada a distância, e o MEC RED, plataforma de Recursos Educacionais Digitais que reúne vídeos, infográficos, planos de aula e outros materiais para uso pedagógico.

https://www.youtube.com/watch?v=RNPnyEQy6CM

Trilhas e saberes

Um dos diferenciais da Coleção é a possibilidade de construir trilhas formativas personalizadas. Na plataforma, professores e profissionais das redes de ensino podem filtrar cursos e materiais de acordo com diferentes objetivos, como fundamentos para tomada de decisão, ferramentas práticas, novas metodologias, recursos didáticos ou conteúdos voltados à gestão.

Os materiais também estão organizados a partir dos Saberes Digitais Docentes, conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que orientam o uso pedagógico das tecnologias digitais.

Regiany Silva, diretora de operações do Porvir, explica que o trabalho de organização da plataforma nasceu da necessidade de tornar mais acessível um conjunto amplo de materiais que já existia, mas estava disperso em diferentes ambientes.

“O primeiro passo foi organizar o conjunto de cursos e ferramentas relacionadas à educação digital e midiática que já foram produzidas pelo governo ou por parceiros do governo e que se encontravam em diferentes canais”, disse. “A ideia foi concentrar esse conjunto em um único espaço, atribuir categorias e classificações e mostrar tudo isso de uma maneira acessível, com uma navegação fácil, para que o uso dos professores e das redes de ensino fosse facilitado.”

Na prática, a plataforma permite que o usuário selecione cursos de interesse e baixe um PDF com sua própria trilha formativa. O recurso pode ser usado tanto por professores, de forma autônoma, quanto por secretarias de educação que desejam organizar percursos formativos para suas redes.

“A possibilidade de baixar essa trilha personalizada facilita tanto o trabalho dos professores que querem construir a sua formação quanto o das redes de ensino que precisam elaborar e divulgar trilhas para seus educadores”, destacou Regiany.

Por onde começar?
Para orientar a escolha entre os mais de 90 cursos, o professor pode iniciar sua jornada pelo Autodiagnóstico de Saberes Digitais Docentes. A ferramenta funciona como um mapeamento de competências: ao responder questões sobre sua rotina, o educador visualiza com clareza quais habilidades já domina e quais precisa desenvolver.

Em vez de um resultado genérico, a plataforma entrega uma curadoria personalizada, indicando as formações da Coleção que melhor atendem às necessidades.

Cidadania digital

Para David Almansa, diretor do Departamento de Direitos na Rede e Educação Midiática da Secom/PR, a educação midiática precisa ser compreendida como parte da formação cidadã.

“A educação midiática hoje é compreendida por nós como um direito fundamental, porque garante à população a possibilidade de adquirir conhecimento para fazer uso crítico e análise crítica das diferentes mídias, dispositivos e tecnologias digitais”, afirmou. Segundo ele, o objetivo não é apenas ensinar a usar dispositivos ou plataformas, mas formar pessoas capazes de compreender o funcionamento das mídias e avaliar o sentido daquilo que circula no ambiente informacional.

“Não se trata de ser apenas um usuário desses dispositivos e dessas diferentes mídias, mas de conseguir fazer uma análise crítica, entendendo seu funcionamento, sua concepção e também fazendo uma avaliação de valor daquilo que é dito, escrito, publicado e falado”, completou.

Professora e aluna sentadas lado a lado utilizam um tablet em sala de aula
Crédito: monkeybusinessimages/iStockPhoto

Formação além da conectividade

Para Larissa Santa Rosa, especialista em Educação e Tecnologias e representante do MEC, a Coleção se conecta diretamente à ENEC (Estratégia Nacional de Escolas Conectadas). Ela lembra que o país tem avançado na conexão das escolas, mas reforça que o acesso à internet, por si só, não garante aprendizagem.

Conectividade por si só não gera aprendizagem. Por isso, trabalhamos com outros eixos que se complementam, e um deles é justamente a formação continuada dos profissionais da educação”, disse.

Segundo Larissa, falar em educação digital e midiática significa preparar crianças e jovens para usar tecnologias de forma crítica, ética e responsável, mas também para conviver, produzir e participar em ambientes digitais.

“Isso envolve não apenas saber utilizar ferramentas, mas compreender os impactos dessas tecnologias na sociedade, lidar com as informações que chegam a todo momento, produzir conteúdos e exercer plenamente sua cidadania no ambiente digital”, disse.

Nesse contexto, a Coleção ajuda redes e escolas a organizar a oferta formativa de acordo com suas necessidades, aproximando os cursos dos diagnósticos e das prioridades de cada território.

“Mais do que um repositório de cursos e materiais já existentes, a Coleção se apresenta como uma ferramenta para apoiar a implementação da educação digital e midiática nas escolas brasileiras. Ela contribui para dar concretude a esse tema no currículo, apoiando gestores e professores na tomada de decisões e no planejamento de suas ações formativas”, complementou a representante do MEC.

Em resumo
O que é a Coleção Brasileira de Educação Digital e Midiática?
É uma plataforma que reúne cursos on-line, guias estratégicos, recursos didáticos e webinários para apoiar a implementação da educação digital e midiática nas escolas.

O que ela oferece?
Acesso a mais de 90 cursos, incluindo formações disponíveis no AVAMEC, recursos abertos do MEC RED e ferramentas para a criação de trilhas formativas personalizadas.

Quem pode acessar?
Professores, gestores escolares e equipes de secretarias de educação.

É preciso cadastro?
O acesso aos recursos didáticos é livre. Para fazer cursos com certificação no AVAMEC, é necessário cadastro ou acesso via conta GOV.BR.

Por onde começar?
Professores podem iniciar pelo Autodiagnóstico de Saberes Digitais Docentes. Gestores têm como ponto de partida os guias estratégicos sobre currículo e adoção pedagógica de tecnologias.

Inclusão digital

A iniciativa também faz parte de uma agenda de cooperação entre Brasil e Reino Unido na área de desenvolvimento digital. Paul Carter, conselheiro econômico e de prosperidade da Embaixada Britânica no Brasil, destacou que a Coleção é um resultado concreto dessa parceria.

“A Coleção Brasileira representa um avanço importante ao reunir, organizar e tornar acessíveis conteúdos e informações já existentes, facilitando o trabalho de professores e gestores escolares em todo o país”, afirmou.

Para Paul Carter, inclusão digital não se resume ao acesso a equipamentos ou conexão. Ela também envolve formação, participação e uso responsável das tecnologias.

Jovem utilizando dispositivo assistivo para escrever em um computador.
Jovem utilizando dispositivo assistivo para escrever em um computador / Divulgação EducaRecife – Mapa da Educação Midiática Crédito: Divulgação


Educação digital

Além dos cursos governamentais, a plataforma inclui formações de organizações parceiras, como SaferNet e Instituto Palavra Aberta. Guilherme Alves, gerente de projetos da SaferNet, destacou que uma das principais necessidades é transformar diretrizes, como a BNCC (Base Nacional Curricular), a BNCC Computação e a educação digital e midiática, em práticas possíveis para o cotidiano dos professores.

“Nosso desafio é conseguir traduzir as diretrizes de educação em práticas pedagógicas acessíveis. Ou seja, mostrar ao professor e à professora maneiras de tirar esses vários códigos, leis e diretrizes e colocar isso na sala de aula”, afirmou.

Segundo ele, as formações também buscam considerar a diversidade das escolas brasileiras.

“O Brasil é um país gigantesco e os contextos escolares são muito distintos. Não dá para pensar que uma abordagem que funciona em uma cidade grande vai funcionar da mesma forma em uma comunidade quilombola ou rural”, disse.

Outro ponto defendido por Guilherme é que a educação sobre tecnologia não depende, necessariamente, do uso de dispositivos em sala de aula.

“A gente consegue falar e educar sobre tecnologias, trazer educação digital e midiática sem tela, sem necessariamente precisar do dispositivo para discutir esses temas”, explicou. “Isso permite pensar em metodologias ativas, que engajem, coloquem a mão na massa e aproximem professores e estudantes.”

Leitura crítica da mídia e inteligência artificial

A leitura crítica da mídia e a inteligência artificial também aparecem entre os temas contemplados pela Coleção, especialmente nos cursos do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta.

Bruno Ferreira, coordenador pedagógico do programa, explica que a educação midiática envolve formar pessoas para acessar, analisar, criar e participar de maneira crítica do ambiente informacional.

“O EducaMídia tem como objetivo formar a sociedade e seus múltiplos atores para a importância da educação midiática e fomentar práticas de educação midiática, tanto no âmbito da educação básica quanto na educação não formal e informal”, afirmou.

Nos cursos disponíveis na Coleção, o programa aborda temas como leitura crítica de informações, produção responsável de conteúdos e inteligência artificial generativa. Segundo Bruno, esse repertório é essencial em um momento em que redes e escolas buscam incorporar o tema ao currículo.

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