Por que vale a leitura:

Conheça o trabalho de Regis na transformação da Parque dos Sonhos.
Entenda como a gestão fortaleceu vínculos, projetos e a cultura de não violência.
Reflita sobre como manter avanços após a saída de uma liderança.

Regis Marques Ribeiro não é mais diretor da Escola Estadual Parque dos Sonhos, em Cubatão (SP), eleita em 2025 a melhor escola do mundo na categoria Superação de Adversidades do World’s Best School Prizes (Prêmio Melhores Escolas do Mundo). Em 12 de agosto de 2026, depois de quase dez anos à frente da unidade, a Seduc-SP (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo) determinou que ele deixasse a direção após um processo administrativo disciplinar instaurado em 2022 para apurar procedimentos relacionados à contratação e à execução de obras na escola. 

A reação da comunidade à notícia dá a dimensão do vínculo construído nesse período. Mães chegaram a fechar o portão da escola para pedir seu retorno. Estudantes fizeram uma passeata pelas ruas do bairro. “Se Regis não voltar, a escola vai parar”, conta o ex-diretor.

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As famílias organizaram ainda um abaixo-assinado. Duas representantes dos alunos pretendiam entregar o documento a Vinicius Mendonça Neiva, secretário-executivo da Seduc-SP, em uma reunião articulada pela Associação de Professores de História e por um deputado, inicialmente marcada para 25 de setembro e reagendada para 15 de outubro. (Confira, ao final do texto, o posicionamento da Seduc-SP)

Regis é concursado na rede estadual como professor e como diretor. Para comandar a Parque dos Sonhos, porém, havia sido designado especificamente para aquela unidade. A decisão da Seduc-SP o retirou da direção, mas não do quadro de servidores do estado.

Em conversa com o Porvir, contou que ficou sem receber salário durante os 45 dias em que ficou afastado da escola. Agora, com a mudança de função, calcula que sua remuneração mensal será cerca de R$ 3 mil a menos. Nesta segunda-feira (28), começou a trabalhar como diretor da Escola Estadual José da Costa, também em Cubatão.

Régis Ribeiro, de camiseta preta, posa ao lado de Renato Feder durante premiação da Escola Parque dos Sonhos
Régis Marques Ribeiro, diretor da Escola Estadual Parque dos Sonhos, ao lado do secretário da Educação de São Paulo, Renato Feder, durante a celebração World’s Best School Prize 2025. Crédito: Ruam Oliveira

O que Regis contesta no processo

Segundo Regis, o processo questionou procedimentos relacionados a duas intervenções na escola: a reforma do piso e uma obra de adequação às exigências do Corpo de Bombeiros. O ex-diretor da Parque dos Sonhos afirma que os serviços foram executados, não houve desvio de recursos e as estruturas continuam em uso.

O que ele diz não aceitar é ter deixado a direção por irregularidades relacionadas a obras que, segundo sua versão, foram concluídas. “Me tirar de lá por causa de uma obra que está pronta, bem feita…”

A Seduc-SP sustenta que as irregularidades foram comprovadas no processo. A secretaria afirma que Regis teve direito ao contraditório e à ampla defesa e que um recurso apresentado pelo servidor foi analisado e indeferido, mantendo-se a decisão administrativa.

Embora continue buscando reverter a decisão, Regis reconhece que um retorno à direção do Parque dos Sonhos é improvável. “Não estou com muita esperança, não.”

Sua defesa entende que o processo ainda não terminou na esfera administrativa e aguarda a análise de um recurso apresentado ao secretário estadual da Educação, Renato Feder, em agosto. Caso a decisão seja mantida, afirma que pretende recorrer ao governador de São Paulo Tarcísio de Freitas antes de avaliar uma eventual ação na Justiça.

Os conflitos que antecederam o processo

Regis relaciona o processo disciplinar a conflitos anteriores com a administração estadual. Em 2017, ele e gestores de outras escolas questionaram a Diretoria de Ensino por estarem recebendo apenas sardinha e atum para a merenda e participaram de uma mobilização. Segundo Regis, depois do episódio aumentou a fiscalização sobre sua gestão.

Em 2022, houve novos atritos após um relatório do núcleo de obras apontar problemas de limpeza, manutenção e gestão da estrutura física da escola. Regis admite ter perdido a calma em uma reunião com outros gestores. “Até se esse processo fosse por insubordinação, eu teria entendido”, afirma.

Segundo ele, prestações de contas já aprovadas passaram então por novas verificações. Foi nesse contexto que surgiram os questionamentos sobre a reforma do piso e a adequação às exigências do Corpo de Bombeiros que deram origem ao processo disciplinar.

Regis chama essa sequência de “perseguição administrativa”

Uma escola diferente daquela de 2016

Enquanto Regis tenta reverter a decisão, a Parque dos Sonhos se prepara para receber uma nova liderança. Ele conta que a Seduc-SP, por meio da URE (Unidade Regional de Ensino) de Santos, já iniciou entrevistas com candidatos à direção.

Quem assumir encontrará uma escola bem diferente daquela que Regis recebeu em 2016.

Saiba mais sobre o antes e depois da Escola Parque dos Sonhos

Hoje, a Parque dos Sonhos tem 1.205 estudantes. Segundo Regis, a ampliação da escola foi um dos desdobramentos do reconhecimento internacional conquistado em 2025. Depois do prêmio, ele pediu ao secretário estadual da Educação três novas salas para atender à demanda da unidade. “Pedi três salas e ganhei uma escola inteira”, resume. Em 2026, a Parque dos Sonhos se uniu a uma escola vizinha, passou a oferecer também o ensino médio e iniciou a integração de duas comunidades escolares. 

Parte dos estudantes já participava havia anos das práticas desenvolvidas na Parque; outros chegaram de uma experiência escolar diferente. Segundo Regis, os primeiros meses foram mais difíceis, com brigas, depredações e outros problemas de convivência. A equipe estimava que seriam necessários cerca de três anos para consolidar a integração.

“A Parque dos Sonhos melhor do mundo foi até 2025. Em 2026 era outra escola”, afirma.

Regis conta que, ao longo deste ano, os conflitos começaram a diminuir e mais situações passaram a ser resolvidas pelo diálogo. Esse processo, porém, ainda estava em curso quando ele deixou a direção.

A próxima gestão encontrará também uma escola com mais de 40 projetos curriculares e extracurriculares, muitos deles no contraturno. Entre as atividades estão patinação artística, ginástica acrobática, capoeira, karatê, atletismo, voleibol, handebol, teatro, fotografia, robótica, banda marcial e produção de jornal e podcast.

Algumas dessas iniciativas acumulam resultados fora da escola: estudantes conquistaram premiações estaduais, nacionais e internacionais na patinação artística; a unidade venceu o Campeonato Estadual Paulista de Vôlei Masculino e recebeu o Prêmio Amigo das Bandas. A escola também conquistou a certificação prata do Best School to Work, da T4 Education, reconhecimento voltado à cultura e ao ambiente de trabalho. 

A equipe também planejava ampliar a oferta de atividades em 2027. Estavam previstas canoagem no Rio Santana (a escola já havia conseguido 30 canoas), escalada, um coral em inglês e uma parceria com a Great People Mental Health voltada à saúde mental dos professores. O plano era voltar a disputar o World’s Best School Prizes em 2028.

No Festival Encontro com o Porvir 2026, a roda de conversa “Clima escolar: o que é uma escola que promove o bem estar de professores?” trouxe reflexões de Régis Marques Ribeiro sobre a importância da cultura de paz, do acolhimento e do fortalecimento do sentimento de pertencimento dentro da comunidade escolar. Relembre a participação.

Regis Ribeiro conversa com participantes durante debate no Encontro com o Porvir 2026
Regis participa de debate com o público durante o Festival Encontro com o Porvir 2026 Crédito: Tiago Queiroz

O que fica quando uma liderança deixa a escola?

A troca de direção recoloca uma questão que o Porvir já discutiu em 2025: o que acontece quando sai uma liderança que, por quase dez anos, esteve à frente de uma transformação escolar?

Regis assumiu a Parque dos Sonhos quando a escola havia perdido mais da metade dos estudantes e, ao lado da equipe, conduziu um processo que mudou a relação com alunos e famílias, ampliou projetos, buscou recursos e ajudou a construir uma cultura baseada em escuta, participação e não violência. Ao longo desse período, a escola cresceu e chegou ao reconhecimento internacional.

Foi um trabalho coletivo, mas Regis teve nele um papel central. Ajudou a estabelecer prioridades, mobilizar a equipe, aproximar a comunidade e sustentar uma determinada visão de escola durante quase uma década.

Ele afirma que já pensava em deixar a direção daqui alguns anos, mas não dessa forma. Pretendia preparar alguém da própria equipe, apresentar essa pessoa à comunidade e fazer uma transição gradual. A decisão da Seduc-SP interrompeu esse planejamento.

Depois de sua saída, a escola ficou sob a condução de Rosana dos Santos Santana, que trabalha na unidade desde 2014 e acompanhou boa parte dessa trajetória como coordenadora e vice-diretora. Ela já havia solicitado aposentadoria, mas permaneceu para ajudar a manter os projetos enquanto uma nova direção é escolhida.

O próprio ex-diretor procura separar sua figura daquilo que foi construído. Quando profissionais da equipe manifestaram intenção de deixar a escola depois de sua saída, conta que tentou convencê-los a permanecer.

“Não era um projeto do Regis”, afirma. “Era um projeto da Escola Parque dos Sonhos.”

Essa diferença importa. Uma escola pode ter uma liderança decisiva sem que tudo o que foi construído pertença a ela. A questão, agora, é descobrir até que ponto práticas, relações e modos de trabalhar que se consolidaram durante anos já fazem parte da instituição, e não apenas de quem a dirigia.

Regis acredita que sim. “Acho que plantamos uma semente tão forte lá que não volta mais a ser o Parque dos Pesadelos.”

Mesmo fora da direção, ele continuará ligado à Parque dos Sonhos. Suas duas filhas, de 12 e 14 anos, estudam ali, no 6º e no 9º ano, e ele quer que permaneçam na escola. “Eu não vou sair da escola, mesmo se for para ficar como integrante da Associação de Pais e Mestres”, diz.

Os estudantes também continuam encontrando o ex-diretor por ali. Ao contar sobre esses encontros, Regis se emociona: “As crianças me veem todo dia lá e perguntam se eu já voltei.”

Da Parque dos Sonhos para outras escolas

Há outro elemento nessa transição. Enquanto a Parque dos Sonhos precisa descobrir como seguirá sem Regis na direção, parte da experiência construída ali já começou a ganhar vida própria fora da escola.

Em janeiro de 2026, a Seduc-SP anunciou a criação da Rede Escola dos Sonhos, inspirada em práticas desenvolvidas na Parque. A iniciativa prevê levar a experiência a 100 escolas estaduais de regiões de maior vulnerabilidade.

A ideia surgiu após a conquista do World’s Best School Prize, em 2025. Segundo Regis, Vikas Pota, fundador da T4 Education, organização responsável pela premiação, reuniu-se com o secretário estadual da Educação, Renato Feder, e apresentou a experiência da Parque dos Sonhos. A partir desse encontro, de acordo com o ex-diretor, a Seduc-SP começou a estruturar uma forma de levar práticas desenvolvidas na escola para outras unidades da rede.

A metodologia é acompanhada pelo Conviva (Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar) e organizada em três pilares: formação continuada, acompanhamento territorial e implementação de práticas pedagógicas e de convivência.

A proposta é sistematizar práticas da Parque dos Sonhos e adaptá-las à realidade de cada comunidade escolar.

Regis participou das primeiras formações, apresentando a trajetória da Parque e experiências como o Escola Vai à Sua Casa. Segundo ele, a Rede Escola dos Sonhos passou depois a ser conduzida pelo Conviva, enquanto sua participação se tornou pontual.

Para a redação do Porvir, há uma tensão nesse movimento: uma experiência que se tornou referência para uma iniciativa da própria Seduc-SP circula por outras escolas justamente quando a unidade onde ela nasceu passa por uma mudança de liderança. 

Crianças reunidas seguram cartaz escrito “Parque dos Sonhos” com desenhos e mensagens coloridas
Crianças exibem cartaz produzido para o Parque dos Sonhos durante entrega do prêmio Melhores Escolas do Mundo, em 2025 Crédito: Ruam Oliveira

Da Parque dos Sonhos para além de São Paulo

Essa circulação não se limita à iniciativa da rede estadual. Regis também fundou o Instituto da Não Violência, por meio do qual busca levar princípios e práticas desenvolvidos na Parque dos Sonhos para outras redes de ensino, no Brasil e no exterior.

Fora do país, relata interesse de educadores de Guiné-Bissau e de Barcelona, na Espanha, além de uma conversa com um diretor do Uruguai. Segundo ele, materiais começaram a ser traduzidos para o espanhol.

A proposta, afirma Regis, não é criar cópias da Parque dos Sonhos, mas compartilhar princípios para que cada comunidade construa suas próprias respostas. Sua meta é chegar a 10 mil escolas até 2030.

A saída de Regis coloca a Parque dos Sonhos diante de uma prova importante. Uma transformação escolar pode começar com uma liderança forte, mas só se sustenta quando deixa de depender dela. O que foi construído ao longo de quase uma década precisa estar incorporado à equipe, aos estudantes, às famílias e à cultura da escola para continuar existindo depois da troca de direção. 

Na Parque dos Sonhos, esse momento chegou sem a transição que Regis queria planejar.


As perguntas do Porvir encaminhadas à Seduc-SP tinham o objetivo de entender por que Régis Marques Ribeiro deixou a direção da EE Parque dos Sonhos, quais fatos e irregularidades embasaram a decisão e como a pasta explica a saída de um gestor cuja atuação vinha sendo publicamente associada aos avanços e ao reconhecimento alcançados pela escola. Confira o posicionamento:

A Unidade Regional de Ensino (URE) de Santos esclarece que o processo administrativo disciplinar envolvendo o servidor foi instaurado em 2022 para apurar irregularidades relacionadas a procedimentos de contratação e execução de obras na EE Parque dos Sonhos.

Concluída a apuração, que comprovou as infrações, foi aplicada a penalidade de suspensão por 45 dias e determinada a cessação de sua designação como diretor da unidade. A decisão considerou a manifestação da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e o fato de o servidor não possuir antecedentes disciplinares.

O servidor teve assegurados o contraditório e a ampla defesa durante todo o processo e apresentou recurso, que foi analisado e indeferido, mantendo-se a decisão administrativa.

A cessação da designação encerra o exercício da função de diretor da EE Parque dos Sonhos, conforme as normas específicas do Programa Ensino Integral (PEI), mas não representa o desligamento do servidor da rede estadual de ensino. Após o cumprimento da suspensão, ele poderá permanecer na rede em outra unidade, conforme seu vínculo funcional e as normas vigentes.

A Secretaria da Educação ressalta que o servidor teve assegurados o direito de defesa e de recurso durante todo o processo administrativo.

*Mensagem enviada ao Porvir em 8 de setembro de 2026

Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....