Por que vale a leitura:

Traz caminhos práticos para conversar sobre masculinidades
Mostra como a escola pode prevenir a violência de gênero
Ajuda professores a mediar um tema sensível

O que significa ser homem para você? Essa é a pergunta que abre o diálogo entre professores e alunos do Colégio Pedro II, tradicional escola federal que fica no Rio de Janeiro (RJ). Em rodas de conversa, os educadores criam um espaço livre de expressão e compartilhamento que, ao mesmo tempo, também ensina. As atividades servem para debater modelos de masculinidades e também combate a violência de gênero por meio da prevenção e da educação.

“Essas rodas não têm como objetivo estabelecer algum tipo de patrulhamento moral sobre os alunos, são uma maneira de ensinar diferente da sala de aula”, conta Sandro Justo, professor de sociologia na escola.

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Em entrevista ao Porvir durante o 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, promovido pela Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), Sandro compartilhou algumas práticas que desenvolve com suas turmas. 

O tema, para o colégio onde leciona, é caro. Recentemente, dois jovens suspeitos de ter participado de um estupro coletivo contra uma menina de 17 anos eram estudantes de lá. Sandro ganhou notoriedade nacional ao usar seu perfil no Instagram para abordar o tema da violência de gênero, convidando outros educadores e a comunidade escolar para se engajar na causa. 

No bate-papo com os estudantes, ele conta que não se trata de repassar normas, mas de seguir uma “pedagogia da escuta”. “Uma diretriz muito importante nas conversas com os alunos meninos é ser uma porta de entrada para uma reflexão sobre a masculinidade hegemônica. Performá-la traz um ônus também aos homens”, explica.

Seguir esse padrão de masculinidade pode trazer consequências negativas também para os meninos e homens, porque eles passam a sentir que precisam provar o tempo todo que correspondem ao que se espera de um “homem de verdade”.

O educador reforça que a conversa franca acaba sendo uma estratégia muito eficaz para conectar os estudantes ao tema. Como parte do processo, sua escola cria dois grupos, um de meninos e outro de meninas, para que possam compartilhar com os docentes seus sentimentos sem receio. Alunos não binários são geralmente convidados a participar de um dos grupos ou mesmo a pedir para conversar diretamente com os professores.

“Essa divisão por gênero, como uma primeira metodologia de roda, sempre dá muito certo. Nas rodas com os meninos, por exemplo, quando estão apenas os estudantes e professores homens, eles se abrem de uma forma que talvez não acontecesse em rodas mistas. As rodas mistas podem ser uma segunda etapa do processo.”

Estudar para melhorar 

Nem todos os professores têm em sua formação inicial a oportunidade de estudar e debater questões de gênero. No caso da sociologia, área do professor Sandro, a discussão está presente, mas o tema ainda não faz parte de outras licenciaturas.

Sandro avalia ser fundamental que as escolas montem grupos de estudos de gênero, visto que a recente onda de crescimento de grupos redpill – que apresentam discursos misóginos (de ódio às mulheres e ao feminino) e de supremacia masculina – tem alcançado um número crescente de meninos e os atraído para uma radicalização, que por sua vez pode desaguar na escola.

“O ideal é que a participação dos professores nesses núcleos seja contabilizada em sua carga horária, para não se transformar em sobrecarga de trabalho”, ressalta. Fazer esse processo dentro da escola é também um meio de fortalecer ações no ambiente escolar de maneira mais sistemática, tornando-o uma referência para outros professores e alunos.

Aprofundando a questão

Após perguntar o que significa ser homem, o professor Sandro traz um novo questionamento para seus alunos: quais são os maiores desafios de ser homem na sociedade atual? “Quando eu faço essa pergunta, eles geralmente se desarmam”, conta o educador.

Afirmações como “o homem não pode ser frágil”, “o homem não pode ter insegurança”, “o homem precisa ser o provedor do lar” ou “o homem precisa ser performático na cama” também cobram um preço de todos os homens, reflete o docente.

“Todas essas exigências sociais são extremamente exaustivas para o homem, que se vê obrigado a performar essa masculinidade heterossexual a todo instante”, diz. 

A pesquisa “O silêncio dos homens”, desenvolvida pelo Papo de Homem em parceria com o CIS (Consórcio de Informações Sociais) da USP (Universidade de São Paulo), e que deu origem ao documentário de mesmo nome, ouviu mais de 47 mil pessoas no Brasil para traçar um retrato do lugar das emoções na masculinidade.

Entre os achados, o levantamento mostrou que seis em cada dez homens disseram ter sido ensinados, na infância e na adolescência, a não expressar suas emoções. O mesmo índice aparece no caso de homens que afirmaram enfrentar algum distúrbio emocional. Somente três em cada dez afirmaram ter o hábito de conversar com amigos sobre medos, dúvidas e obstáculos.

Experiências como as rodas de conversa conduzidas pelo professor Sandro Justo mostram como a escola pode ajudar a questionar padrões de gênero e enfrentar situações como as reveladas pela pesquisa.

Como fazer a diferença?

O educador destaca ser um equívoco tentar convencer os meninos de que devem “jogar na lata do lixo tudo o que aprenderam sobre o que significa ser homem”.

“Eu acho horrível essa diferenciação entre masculinidade tóxica de um lado e masculinidade saudável do outro, porque ela não ajuda em nada. Quando eles me respondem que ser homem é ser forte, eu problematizo: o que é essa força? Ser forte, ser responsável, ser provedor e protetor da família, tudo isso, em si, não é negativo nem positivo”, destaca.

O que faz diferença, segundo Sandro, é a maneira como essa força aparece no cotidiano. Quando se expressa por meio de violência ou reforça desigualdades de gênero, ela se torna negativa. Quando se traduz em solidariedade, cuidado e apoio, pode assumir outro sentido.

“Se a gente chegar dizendo para eles descartarem tudo o que aprenderam, eles vão ficar perdidos.”

Professores e comunidade escolar

Pode acontecer que, ao tentar trabalhar assuntos relacionados a gênero na escola, muitos educadores sofram represálias ou tenham receio de começar. Sandro aponta que esse tipo de debate se tornou uma espécie de “fantasma pedagógico” ou “símbolo de doutrinação” para determinados setores da sociedade.

Uma maneira de conseguir avançar é estudar e se letrar sobre o tema. “Geralmente, quem tem mais resistência a esses conteúdos são as famílias, mas, quando a escola consegue construir uma ponte de diálogo e mostrar como o trabalho é feito, nós saímos com mais aliados do que inimigos”, afirma.

Segundo Sandro, quando a escola explica com clareza e em detalhes os projetos que estão sendo desenvolvidos, as famílias tendem a ficar mais tranquilas e até a reconhecer a importância do trabalho.

Tarefa para a escola inteira 

Para o professor do Pedro II, trabalhar com gênero nas escolas não deve ser missão de uma única pessoa. “Isso tem que ser um projeto institucional. E, para isso, precisa existir uma política nacional de educação. Hoje, a gente ainda tem uma lacuna nesse sentido. Temos alguns regramentos federais de combate à discriminação e ao assédio nas instituições públicas, mas ainda não temos uma política nacional sobre o tema”, destaca.

É preciso, também, não problematizar as questões de gênero somente quando “a bomba estoura”: trazer o assunto para o fazer pedagógico precisa estar no radar dos educadores.

“É óbvio que a escola vai atuar nas duas frentes: no enfrentamento, porque alunos e servidores precisam entender que determinados comportamentos são inaceitáveis e podem configurar crime, mas, ao mesmo tempo, a escola também tem um papel pedagógico de reeducação, tanto de estudantes quanto de professores.”

Gênero dentro e fora da sala de aula 

Ao buscar instrumentos que auxiliem os educadores a tratar das questões de gênero, Sandro faz uma distinção que considera importante: o que se passa dentro e fora da sala de aula.

Na sala de aula, há um currículo que precisa ser cumprido, no qual alguns componentes curriculares se destacam mais, como sociologia, língua portuguesa e literatura. Já existem bons materiais didáticos que ajudam os educadores a pensar o gênero como uma pauta transversal em todas as disciplinas, da biologia à matemática.

Homem sentado segura um microfone durante evento em auditório
O professor Sandro Justo em palestra no 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação. Crédito: Guga Scatena/Jeduca

No caso dos projetos extramuros, Sandro afirma que a construção de uma metodologia para a criação de grupos reflexivos seria uma excelente ferramenta para os professores.

“Trabalhar em sala de aula, tudo bem, fomos formados para isso, mas mediar grupos reflexivos sobre gênero e masculinidades com alunos e alunas, especificamente, não fomos”, diz.

“Temos a habilidade pedagógica e didática de como inserir esses conteúdos, mas a mediação lembra muito mais o trabalho de um psicólogo do que o de um professor”, complementa.

Uma metodologia desse tipo poderia ajudar a responder perguntas básicas como: quais são as possíveis perguntas norteadoras desses grupos? Quais são as possíveis respostas dos alunos? Como desenvolver essa reflexão?

O educador também participou da mesa “Masculinidades e gênero: como a formação dos meninos hoje impacta a educação e as escolas”, durante o congresso de jornalismo, ao lado dos pesquisadores Isabella Venturoza e Ismael dos Anjos. A mesa debateu formas de ensinar meninos a não reproduzir violências de gênero, mas a atuar no combate a práticas violentas contra as mulheres. Leia como foi o debate aqui.

Repórter. Entre os principais temas da educação, acompanha de perto assuntos relacionados à educação antirracista, literatura, inclusão e primeira infância.