Com crianças mais tempo online na pandemia, famílias e escolas precisam ficar atentas ao cyberbullying - PORVIR
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Coronavírus

Com crianças mais tempo online na pandemia, famílias e escolas precisam ficar atentas ao cyberbullying

Entenda a diferença entre casos presenciais e pela internet, saiba identificar e agir antes que a situação se agrave

Parceria com CLOE

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 7 de maio de 2021

Como se não bastassem todos os pontos de atenção que a educação remota demandou, mais um elemento soma-se a esse cenário: as maiores chances de crianças e jovens sofrerem cyberbullying pelo aumento do tempo na internet. É claro que não se trata de uma relação de causa e efeito, mas a maior permanência navegando entre aplicativos, mesmo que com propósito educacional, representa um alerta.

O tema tem sido debatido dentro e fora das escolas e ganhou até uma data de conscientização nacional. Em 7 de abril, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, SaferNet e UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) lançaram a campanha de conscientização Acabar com o Bullying #ÉDaMinhaConta, desenvolvida em parceria com o Instagram e Facebook, redes sociais onde esse tipo de prática acontece.

Modalidade virtual do bullying
Bullying e cyberbullying têm características em comum, como o fato de serem uma intimidação repetitiva. Por isso fala-se em perseguição. Apesar de o bullying presencial ser praticado “cara a cara”, o cyberbullying tem seus efeitos ampliados pela rápida disseminação de conteúdos na internet.

“No presencial, um ou dois alunos ou uma turma intimida uma criança. Na modalidade virtual, pessoas que nem conhecem essa criança podem provocar essa intimidação. Ou seja, o cyberbullying abre vaga para intimidadores”, explica Juliana Ferrari, psicóloga, mestre em psicologia escolar e do desenvolvimento humano e gerente pedagógica da Camino Education.

O grau de intimidação varia muito no online e, devido às ferramentas disponíveis, existe uma gama de possibilidades para reforçar a perseguição virtual. Elas vão desde comentários maldosos em um vídeo ou dança que a criança posta no TikTok, exemplifica Juliana, até mesmo a manipulação refinada de conteúdos, como o recorte do rosto da pessoa em uma careta, que é transformada em figurinha para o WhatsApp.

O cyberbullying também pode ser um comentário no chat da videoaula, uma hashtag ou um tipo de emoji feito em um comentário ou mesmo no bate papo da aula remota naquilo que os alunos chamam de piadas internas, mas que podem ser muito ofensivas. Pode ser uma imagem ou a figurinha de um animal representando um ataque a alguém, a algum tipo de discriminação, seja em relação a ao peso, a aparência física ou mesmo em relação a orientação sexual.

No virtual, como o indivíduo pode estar protegido por outra identidade, o tom da ameaça aparece mais rápido

Em graus mais avançados, estão as ameaças. “No virtual, como o indivíduo pode estar protegido por outra identidade, o tom da ameaça aparece mais rápido”, afirma Juliana. Além disso, outra diferença é a idade e a ameaça em questão. Enquanto no presencial normalmente há maior proximidade entre as idades dos praticantes e das vítimas, no online isso ganha outra proporção em termos de níveis de poder e idade. “Há uma sutileza e diferença importante. No presencial, a perseguição física tem uma tendência de humilhação e imposição da força daquele que está provocando, de autoafirmação. No virtual, a ameaça é de banimento, de cancelamento, com frases como ‘a sua existência não é relevante’.”

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Dados e aumento na pandemia
De acordo com a pesquisa TIC Kids Online 2019, realizada entre outubro de 2019 e março de 2020 com cerca de três mil crianças e adolescentes e seus pais ou responsáveis para entender como a faixa entre os 9 e 17 anos utiliza a internet, 61% dos entrevistados disse que veem discriminação na internet mais de uma vez por dia de acordo com o uso de redes sociais.

A pesquisa mostrou que as meninas são mais suscetíveis a sofrerem algum tipo de violência na internet. Uma em cada três (31%) relatou que foram tratadas de forma ofensiva, índice que cai para 24% entre os meninos. A maior ocorrência do cyberbullying e ofensas virtuais entre meninas também aparece em outros levantamentos. Segundo dados da SaferNet Brasil, dos 232 atendimentos realizados nesse tema em 2020, 161 foram para o público feminino, e apenas 71 para o masculino.

Na edição de 2019, a TIC Kids Online estreou uma nova pergunta, que é se e para quem as crianças ou jovens reportaram o ocorrido, ao que 10% afirmou que contou a um amigo da sua idade, 9% para pais ou responsáveis e apenas 1% respondeu que foi para o professor ou professora. “A escola e os educadores não aparecem como essa identificação direta para que as crianças possam compartilhar esse tipo de situação vivenciada online”, explica Luísa Adib, coordenadora da TIC Kids Online Brasil 2019.

Rodrigo Nejm, diretor de educação da SaferNet Brasil, concorda com Luísa no sentido de que, quanto mais presença online, maiores as chances de situações de violência e ofensa acontecerem. “Com maior intensidade da presença dos adolescentes e das crianças online seja para aulas, lazer, entretenimento, conversar com amigos ou jogar, é muito provável que também aumentem as ocorrências de conflitos, incluindo situações de cyberbullying.”

O diretor explica que apesar de bem-estar e saúde mental figurarem como os principais tópicos dos atendimentos realizados em 2020 pela SaferNet, o tema cyberbullying também teve um aumento expressivo. A demanda por apoio na temática não veio apenas pelo canal de atendimento da SaferNet, mas também por instituições parceiras, escolas públicas e privadas, secretarias de educação e universidades.

“Mesmo com a Lei 13.185/2015 que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) e estabelece esse dever de trabalhar o tema, ainda não temos consolidado um dado de violência escolar com o subtipo bullying e cyberbullying para termos um indicador nacional. Mesmo sem esse indicador, temos recebido muitas demandas, o que tem se refletido nos pedidos nos nossos canais de ajuda. Vemos que aumentaram muito as denúncias de racismo, violência contra mulheres, homofobia e outras formas de intolerância. Mas é importante mencionar que, na SaferNet, não gostamos de usar o termo cyberbullying para situações que envolvem discriminações que tem outros nomes. Então, por exemplo, racismo é racismo, homofobia é homofobia, intolerância religiosa, entre outros”, pontua Rodrigo.

Como perceber?
É inegável que é mais “fácil” – ou menos complicado – perceber alguma situação de bullying no âmbito presencial. Crianças que sofrem perseguições podem ser as últimas a serem escolhidas em dinâmicas e jogos, ter dificuldade em encontrar um grupo para trabalhar, e receber avaliações ruins dos colegas em situação de avaliação entre pares.

Mas, mais do que isso, Juliana defende que existe uma regra que, apesar de ser comum para todas as situações de bullying, vale ainda mais para virtual: a ruptura de padrões. Uma criança muito ativa nas redes, que postava bastante coisa, e de repente para de fazê-lo, deve acender um alerta entre os responsáveis e os professores. O contrário também é válido: crianças tímidas e mais retraídas, que pouco se expunham e começam a postar mais também precisam ser acompanhadas de perto.

Além disso, Juliana também pontua a parceria entre família e escola na observação dos comportamentos das crianças e jovens. “É importante que os pais contem aos professores como a criança se prepara para ir à escola. Se não vê a hora de ir e de repente não quer ir mais, é necessário atenção. Ou se uma criança que ficava tranquila na escola, e de uma hora para outra começa a querer ir embora são algumas pistas”, explica a psicóloga.

Em tempos de pandemia, esse movimento de evitação também se manifesta nas aulas online. Um aluno que já sabia o procedimento de ligar o computador, acessar o link de uma aula e participar normalmente passa a não fazê-lo, com alegações como ‘esqueceu como se faz’. “A criança evita participar e fazer login em lugares com muita gente. Ela não participa desses momentos e de atividades que todo mundo deve responder no mesmo formulário, por exemplo. E mesmo através do check-in dá para perceber. Pode ser que ela comente que tem ficado doente com mais frequência, dando indícios das somatizações. São sinais para ficarmos atentos.”

Por mais que a situação tenha acontecido uma vez só, é preciso considerar a capacidade de propagação da rede

Na pesquisa TIC Kids Online, a maioria daqueles que foram tratados de forma ofensiva na internet relatam à pesquisa que isso aconteceu apenas uma ou duas vezes. Luísa, entretanto, pontua que não é necessária uma alta frequência para produzir efeitos negativos nas crianças e jovens. “Por mais que a situação tenha acontecido uma vez só, é preciso considerar a capacidade de propagação da rede. Algo que foi publicado pode ser compartilhado muitas vezes e ter uma repercussão grande, atingindo um grande número de pessoas, além do fato de ficar gravado, ou seja, não poder ser apagado ou revertido. Esse potencial da rede é muito grande”, defende.

O problema também não seria resolvido mediante a restrição do tempo que crianças e jovens passam na internet – tarefa que, em meio a uma pandemia, seria praticamente impossível. Em lugar disso, Luísa ressalta a importância de ajudar que a criança identifique uma situação de ofensa online e que tenha ao seu lado uma rede de apoio. “Uma estratégia interessante é a mediação ativa, isto é, sentar do lado, conversar e acompanhar o que a criança tem feito online. Essa mediação pautada no diálogo é onde o educador ou pais e responsáveis terão condições de entender o que está acontecendo.”

Como enfrentar o cyberbullying na escola
Segundo Juliana, existem duas formas com que professores podem compreender mais a fundo potenciais perigos na internet para seus alunos: forma e conteúdo.

A forma consiste em entender quais são os tipos de aplicativo que os estudantes usam. Se os mais novos preferem navegar pelo YouTube e TikTok, crianças mais velhas e jovens preferem o Instagram, ao passo que o Facebook está praticamente ‘extinto’ na educação básica, informações descobertas a partir de uma expedição da CLOE sobre cyberbullying.

“Acredito que a primeira coisa que o professor precisa saber é quais as redes usadas e as possibilidades de interação, para que conheça exatamente que tipo de problema os alunos podem enfrentar. Aqueles que gostam de YouTube, por exemplo, podem sofrer com comentários em um vídeo que eles venham a postar. Os mais novinhos também se sentem feridos mesmo se o comentário não for direcionado a eles, mas sim na página de alguém que eles admiram”, afirma a psicóloga.

Cada estudante pode criar uma lista de interesses daquilo que ele usa na internet, e a partir disso, o professor vai criando linhas que conectam os pontos comuns entre as crianças

Outra saída inclui entender por quais conteúdos os alunos mais navegam. “Cada estudante pode criar uma lista de interesses daquilo que ele usa na internet, e a partir disso, o professor vai criando linhas que conectam os pontos comuns entre as crianças. Ou seja, quais personalidades, assuntos e lugares chamam atenção e em quais situações o bullying pode acontecer.”

Para Rodrigo, existem múltiplas estratégias que podem ser usadas no combate ao bullying, independente se virtual ou presencial. A primeira delas é a informação sobre o tema. É importante que professores, escolas, famílias e estudantes saibam o que é cada um deles e consigam diferenciar uma brincadeira de intimidações sistemáticas, humilhações, perseguições e condutas que causam sofrimento. No âmbito da campanha Acabar com o Bullying #ÉDaMinhaConta, foram produzidos materiais como este infográfico, que visa conscientizar adultos, jovens e crianças sobre o tema, a importância de não revidar eventuais ataques, formas de buscar ajuda, incentivar a empatia e maneiras de ajudar caso presencie alguma violência.

Além disso, o diretor da SaferNet Brasil pontua a importância de estratégias intencionais na criação de espaços e ambientes seguros e acolhedores nas aulas remotas, com regras de convivência claras para todos os envolvidos, seguindo os moldes dos combinados para as aulas presenciais. As opções incluem mensagens fixadas nos grupos de WhatsApp, maior controle de acesso às aulas remotas com senhas, restrição de quem pode compartilhar a tela, e outras medidas. “Isso envolve regras para que os alunos saibam para quem denunciar se sofrer algm tipo de discriminação durante uma atividade remota ou, mesmo que não seja a vítima, entender que tem o direito e dever de não ignorar se souber que alguém está sofrendo ou praticando cyberbullying. E deixar claro que, caso alguém fira o combinado, haverá consequências, da mesma forma que no presencial.”

Por fim, Rodrigo ressalta a potência de uma observação próxima para que professores possam reforçar, encorajar e incentivar comportamentos positivos, bem como a importância de mediar os eventuais conflitos, com estratégias de responsabilização coletiva, com debates sobre respeito. Essas conversas podem se apoiar em materiais já disponíveis sobre o tema, como o Guia Cidadão Digital, iniciativa da SaferNet em parceria com o Facebook.

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aprendizagem ativa, aprendizagem baseada em projetos, coronavírus, engajamento familiar, socioemocionais, tecnologia

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Nossa ás pessoas deveriam ter mais respeito !!!! não acham???

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