A foto destaca mãe e filha do povo Tupi-Guarani, em Manaus.
Crédito: filipefrazao/iStock

Abril é um mês de celebração das culturas e dos povos originários. Em 19 de abril, o Brasil celebra o Dia dos Povos Indígenas, nome instituído pela Lei 14.402, de 8 de julho de 2022, em substituição ao antigo Dia do Índio. A mudança revogou o decreto-lei de 1943 que havia criado a data.

A alteração também ajuda a entender por que se deve usar “indígena”, e não “índio”, para se referir aos povos originários. Ao longo da história, o termo “índio” foi usado de forma generalizante, como se diferentes povos, culturas, línguas e modos de vida pudessem ser reunidos sob uma única identidade.

▶️ Assista: Daniel Munduruku explica por que usar “indígena” em vez de “índio”

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Os dados mais recentes do Censo 2022 ajudam a dimensionar essa diversidade. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tem 1.694.836 pessoas indígenas, o equivalente a 0,83% da população do país. O levantamento identificou 391 etnias, povos ou grupos indígenas e 295 línguas indígenas.

O escritor Daniel Munduruku também chama atenção para o significado das palavras usadas para nomear esses povos. “A palavra ‘indígena’ diz muito mais a nosso respeito do que a palavra ‘índio’. Indígena quer dizer originário, aquele que está ali antes dos outros”, explica Daniel. Em entrevista ao UOL, o pesquisador André Figueiredo Rodrigues também destaca que a palavra “índio” carrega uma história marcada por preconceito e discriminação.

Outro marco recente foi a criação, em 2023, do Ministério dos Povos Indígenas, primeiro ministério do governo federal dedicado especificamente às políticas para os povos indígenas. Desde abril de 2026, a pasta é comandada por Eloy Terena, que sucedeu Sonia Guajajara, primeira ministra dos Povos Indígenas.

Para o dia 19 de abril, além de lembrar a Lei 11.645, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos públicos e privados de ensino fundamental e médio, o Porvir reuniu autores, livros, vídeos, podcasts, espaços de formação e planos de aula que podem apoiar educadores no trabalho com a história e as culturas indígenas ao longo de todo o ano.

Mitologia indígena

Esse plano de aula aborda histórias e contos das tradições indígenas e é voltado para o desenvolvimento crítico e a ampliação de repertório de alunos do 2º ano do ensino médio. Dentro da dimensão social, o plano busca desenvolver competências como empatia, diálogo, valorização cultural e compreensões interculturais. Acesse o plano de aula.

Indígenas e afrodescendentes no Brasil

Com este plano de aula, a proposta é desenvolver nos estudantes, por meio de músicas, uma visão sobre a contribuição dos povos indígenas e afro-brasileiros para o país, além de proporcionar momentos de discussão sobre racismo, reconhecimento e igualdade. Acesse o plano de aula.

Brincadeiras e jogos populares e regionais do Brasil

Abordando temas da cultura corporal, esse plano de aula busca apresentar aos estudantes, nas aulas de educação física, jogos, esportes, danças, lutas e brincadeiras de origem africana e indígena. A proposta inclui uma ação interdisciplinar com outras áreas, como literatura e tecnologia. Acesse o plano de aula.

A brincadeira do boi de mamão e suas múltiplas linguagens artísticas

Uma proposta de valorização e criação de consciência sobre o meio ambiente, reutilização de materiais e reciclagem por meio da apresentação de uma história comum e presente em culturas indígenas, africanas e ibéricas: a do boi de mamão. O plano de aula é voltado para estudantes dos anos finais do ensino fundamental. Acesse o plano de aula.

Os lugares de aprendizagem não se resumem aos muros da escola. É possível aprender em diferentes espaços, e incentivar esse tipo de experiência é uma forma de ampliar os horizontes no planejamento das aulas. Conheça alguns locais para levar a turma e aprender mais sobre os povos originários:

Museu das Culturas Indígenas

Localizado em São Paulo (SP), o espaço é uma conquista dos povos indígenas. Além de apresentar diversas exposições que mostram as vivências dos povos originários, suas percepções sobre o mundo e a vida, o museu também oferece oficinas, rodas de conversa e apresentações culturais. Para visitar, é preciso realizar agendamento. Planeje a visita.

Museu de Arte Indígena

Localizado em Curitiba (PR), o museu é dedicado à produção de artistas indígenas brasileiros e reúne em seu acervo diferentes tipos de arte, de cerâmicas e instrumentos musicais a adornos e objetos utilitários. Também é possível conhecer o espaço sem ir até lá fisicamente. Conheça o museu. Ou faça o tour virtual.

Memorial dos Povos Indígenas

Localizado em Brasília, o espaço guarda o acervo da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e tem projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer. Além das exposições, o museu oferece oficinas, momentos de contação de histórias, debates, feiras de artesanato e outras atividades. Conheça o Memorial dos Povos Indígenas. Veja também a programação no Instagram.

Como está a sua biblioteca de autores indígenas? Listamos alguns autores e autoras que apresentam trabalhos a partir de perspectivas indígenas:

Telma Tãmba Tremembé

É uma escritora indígena brasileira da etnia tremembé, de Almofala-Itarema (CE). Além de escritora, ela também é artesã, militante indígena e da natureza e mediadora de leitura pela Universidade Aberta Demócrito Rocha. Telma é autora de “O livro sem letras”, publicação feita em duas partes contendo pinturas e textos assinados por ela. Conheça a obra de Telma Tãmba Tremembé.

Cristino Wapichana

Além de escritor e contador de histórias, Wapichana também é produtor cultural, compositor e músico. Seus trabalhos se dedicam a valorizar e disseminar saberes e heranças dos povos originários. O livro de ficção “A boca da noite” conquistou, em 2017, o Prêmio Jabuti na categoria literatura infantil. A obra apresenta a história de Kupai, um garoto Wapichana que tenta investigar o mistério do anoitecer e as relações entre seu povo, o dia, a noite e os seres da floresta. Conheça a trajetória de Cristino Wapichana.

Lucia Tucuju

De origem do povo Kamarumã, Lucia é professora, atriz, psicopedagoga e escritora. É integrante da Academia Internacional de Letras do Brasil e especialista em literatura infantil e juvenil. Autora de “Tucumã”, livro que faz uma apresentação poética da Amazônia com lembranças costuradas a botos, sabores de ancestralidade, sons de maracás e mais. “Neste singelo livro, as palavras cumprem sua função de nos lembrar que o que parece insignificante é, na verdade, a parte mais sensível e digna que nos habita”, apontou Ailton Krenak em texto de abertura da publicação. Conheça o trabalho de Lucia Tucuju.

Ailton Krenak

Ailton Krenak é um dos escritores indígenas mais conhecidos do Brasil. Líder indígena e filósofo, seus escritos ganharam projeção internacional e apresentam uma visão de mundo centrada na sabedoria dos povos indígenas, abordando ancestralidade, presente e futuro. Um de seus livros mais conhecidos é “Ideias para adiar o fim do mundo”. Conheça os livros de Ailton Krenak.

Daniel Munduruku

Outro nome bastante referenciado, Daniel é um escritor paraense pertencente ao povo Munduruku. Possui mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior, a grande maioria voltada para o público infantojuvenil. Já atuou como professor universitário e é uma das vozes de disseminação e defesa das culturas e dos valores indígenas. Conheça o trabalho de Daniel Munduruku.

Os livros são boas ferramentas tanto para trabalhar diretamente com a turma quanto para aprender sobre diferentes temáticas. Há títulos que tratam das questões indígenas para diferentes idades, e o Porvir separou alguns para você:

Kunumi Guarani

Como é a vida e a rotina de uma criança indígena? Este livro infantil, escrito por Werá Jeguaka Mirim, nascido na aldeia Krukutu, em São Paulo, mostra um pouco das vivências do garoto, onde fica a aldeia, quais são suas brincadeiras preferidas e como funciona seu dia a dia. Além de escritor, Werá Jeguaka Mirim também já participou de produções musicais, como “Terra Ar Mar”, gravada em parceria com o rapper Criolo. Conheça o livro.

O lugar do saber ancestral

Livro de poesias de Marcia Wayna Kambeba, a obra faz um convite ao conhecimento do universo amazônico e das relações na comunidade que influenciam diretamente as aprendizagens, a educação e a vida dos Kambeba. Conheça o livro.

Guayarê: o menino da aldeia do rio

Usando a língua portuguesa e a língua de seu povo, Guayarê conta um pouco sobre o lugar onde vive. A aldeia Yaguawajar, que fica às margens de um rio, é apresentada pela criança em uma mescla de descrição de atividades, brincadeiras e relações com amigos e familiares. O brincar exerce um papel importante nesta obra e não está restrito apenas às crianças, mas também faz parte da vida adulta. O livro traz ainda um glossário de palavras na língua Maraguá e notas que explicam aspectos dos povos indígenas habitantes do Brasil. Conheça o livro.

O pássaro encantado

O livro de Eliane Potiguara toca em um dos assuntos importantes para os povos indígenas: as figuras dos avós, que transmitem ensinamentos sobre a vida e compartilham memórias e costumes com a comunidade. Conheça o livro.

Descolonizando metodologias

Neste livro, a pesquisadora de origem maori Linda Tuhiwai Smith analisa criticamente o conhecimento científico ocidental e suas referências históricas e filosóficas, passando por temas como imperialismo, conhecimento e pesquisa e abordando ainda o sofrimento dos povos indígenas. A autora também trabalha com problemas atuais vividos e debatidos pelos povos indígenas. É uma obra voltada para o público adulto. Conheça a obra.

Coração na aldeia, pés no mundo

Este é o primeiro livro de cordel da escritora Auritha Tabajara, que parte de uma perspectiva feminina, nordestina e indígena para contar uma história. A obra aborda questões de gênero, sexualidade e violência. Em sua experiência na escola, Auritha — personagem do livro — relata situações de preconceito, assédio e bullying, além de sua trajetória em um grande centro urbano. Conheça a obra.

O audiovisual é outro recurso que pode contribuir para o trabalho em sala de aula. A exibição de vídeos e filmes pode ajudar a iniciar conversas ou aprofundar discussões com os estudantes.

A Febre

O longa-metragem acompanha a história de Justino, um indígena urbano que tem uma febre repentina no trabalho. Quando a filha decide se mudar para poder cursar Medicina na UnB (Universidade de Brasília), a febre de Justino piora. O filme propõe uma reflexão sobre as vivências e sensações das culturas indígenas e do mundo ocidental. Assista ao filme.

Pachamama

Esta animação é um convite para que as crianças tenham contato desde cedo com as culturas originárias e mostra os impactos da colonização na vida das pessoas. Assista à animação.

A última floresta

O documentário, que encerrou o festival “É Tudo Verdade”, de 2021, mostra o dia a dia dos Yanomami e seu trabalho para preservar a comunidade. O filme pode gerar debates em sala de aula e tem David Kopenawa entre os produtores. Assista ao documentário.

Canal Catalendas

O conteúdo traz uma série de contos e histórias dos povos indígenas, além de narrativas do universo do folclore brasileiro. As histórias são contadas pela personagem Dona Preguiça a um macaco chamado Preguinho. Originalmente, a série era transmitida na TV Cultura. Assista no YouTube.

Piripkura

A indígena Rita auxilia a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) em expedições para provar que parentes seus ainda estão vivos em terras no Mato Grosso e fazer com que a instituição os proteja das invasões de madeireiros e garimpeiros. Assista ao documentário no YouTube.

Os podcasts também podem ser usados para apresentar temas e iniciar conversas com a turma. Confira alguns episódios e programas:

Papo de Parente

Apresentado pela educadora e liderança indígena Célia Xakriabá e pelo estudante de gastronomia Tukumã Pataxó, o podcast passeia por temas como culinária, literatura, medicina, política e esportes tradicionais a partir das culturas indígenas. É um convite a conhecer melhor as tradições e vivências dos povos originários. Ouça o podcast.

Nós – uma antologia de histórias indígenas

Baseado no livro de contos de Maurício Negro, este podcast é voltado para o público infantojuvenil. O programa traz histórias dos povos originários que vão desde o domínio do fogo até contos sobre a criação, a origem do açaí, o peixe-boi e outros temas. O podcast é apresentado pelo escritor Daniel Munduruku e pela roteirista Renata Tupinambá. Ouça o podcast.

Ideias para uma educação indígena

Este é um episódio do podcast “O Futuro se Equilibra”, produzido pelo Porvir e pelo Instituto Unibanco. Dentro da discussão sobre equidade na educação, o programa aborda diferenças e especificidades da educação indígena e caminhos possíveis para uma inclusão efetiva. Ouça o episódio.

Pelos mundos indígenas

O podcast está relacionado a uma exposição temporária promovida pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Por meio de uma curadoria feita por indígenas, o programa apresenta cinco povos originários: Yanomami, Ye’kwana, Maxakali, Pataxó e Xakriabá. Ouça no Spotify.

Boletim de áudio do povo Mebêngôkré

Plano básico ambiental, gestão sustentável de territórios, agenda legislativa e gestão feminina estão entre os temas abordados pelo podcast, produzido inteiramente por indígenas. Uma realização da Associação Floresta Protegida, o programa traz discussões rápidas e objetivas sobre como os povos indígenas lidam com diversas questões do dia a dia. Ouça no Spotify.

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Repórter. Entre os principais temas da educação, acompanha de perto assuntos relacionados à educação antirracista, literatura, inclusão e primeira infância.

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