No filme Matrix (1999) duas opções se apresentam ao personagem principal, Neo: tomar a bluepill (pílula azul), e permanecer em uma realidade ilusória, ou a redpill (pílula vermelha), que lhe daria a chance de viver fora da matrix, longe das amarras dessa falsa realidade. Ao optar pela pílula vermelha, Neo decide abandonar a ilusão e enfrentar o mundo como ele realmente é.
Distante da mensagem inicial pensada pelas irmãs Wachowski, diretoras do filme, o significado das bluepills e redpills se modificou com o avanço da internet. Agora, as “pílulas vermelhas” deram início a um movimento centrado na misoginia (ódio às mulheres e ao feminino) e na supremacia masculina.
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Assim como a escola não está apartada de questões que acontecem fora dela, os discursos que circulam online também podem se infiltrar por lá. “Quem ensina atualmente os nossos meninos sobre o que significa ser homem? E o que acontece quando a escola diz uma coisa, a família diz outra e o algoritmo oferece também uma terceira resposta?”, perguntou Vitória Régia da Silva, diretora-executiva da Gênero e Número, no 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), realizado nesta semana em São Paulo (SP)
No debate “Masculinidades e gênero: como a formação dos meninos hoje impacta a educação e as escolas”, a pesquisadora Isabella Venturosa destacou que a maneira como os meninos se veem é construída coletivamente, entre pares, mas também por adultos. “É uma produção comunitária”, disse.
O ódio às mulheres tem crescido, dentro e fora das redes sociais. De acordo com dados da SaferNet Brasil, houve um aumento de 28,4% de denúncias únicas em 2025 na Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, com aumento expressivo de queixas relacionadas à misoginia.
O impacto da violência de gênero sobre as meninas
No ambiente escolar, as meninas também enfrentam desigualdades de gênero. A pesquisa “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, desenvolvida pela Serenas, organização que atua para prevenir as violências baseadas em gênero no Brasil, apontou que 70% dos respondentes afirmaram já ter visto estudantes sexualizando meninas, e outros 15% relataram ter conhecimento de situações de assédio sexual de docentes contra estudantes do sexo feminino, desde “cantadas” a propostas inapropriadas.
Mesmo que esse aumento esteja ocorrendo agora, Isabella lembra que os discursos de supremacia masculina não são recentes. “O masculinismo não é uma invenção dos anos 2015, 2025 ou de agora. Se formos pesquisar na literatura, há registros mais antigos, só que se apresentam de outra forma. A internet dá outra amplitude para o fenômeno, que o atualiza de forma mais ramificada, alcançando sujeitos que talvez não alcançasse antes”, diz.
A pesquisadora destacou que os discursos masculinistas – termo usado para designar um conjunto de ideologias que afirma defender os direitos dos homens em contraponto ao feminismo – são permeados por uma reação a conquistas e avanços recentes para as mulheres e grupos minorizados.
Cristina Fibe, jornalista especializada na cobertura de gênero, concorda com Isabella. Durante o debate, ela reforçou que, nas últimas décadas, as mulheres conquistaram não só o direito ao voto, mas também maior liberdade financeira e, principalmente, voz para denunciar e lutar contra as violências.
“A gente está dando muitos passos para frente e o contra-ataque vai tentando fazer com que a gente retroceda, com que a gente volte ao silêncio, com que a gente seja revitimizada em praça pública. As mulheres que denunciam e dão a sua cara para as denúncias são atacadas publicamente e ainda há defesa dos abusadores, dos violadores de mulheres”, disse.
Por que tantos meninos se identificam com a redpill?
Sandro Justo, professor de sociologia no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro (RJ), afirma que os meninos são cooptados por algo que se assemelha a um “trabalho de base” para um projeto específico de poder.
“Nenhuma ideologia política se capilariza de tal forma na sociedade se ela, em algum momento, não der respostas concretas para problemas reais. O ponto de chegada da narrativa redpill é fantasioso, mas o ponto de partida não é. Em que medida? Além da questão do ressentimento de gênero, nada mais natural, entre aspas, do que um grupo social que tem seus privilégios sendo questionados se mobilizar num movimento de autodefesa”, pondera.
O educador reflete que questões econômicas também devem ser observadas. “A gente hoje está lidando com uma juventude que está inserida numa sociedade capitalista que não consegue mais cumprir a sua promessa histórica, que era a seguinte: a sua geração viverá melhor que a geração dos seus pais”.
Esse impacto ocorre pela visão reforçada ao longo do tempo de que os homens devem ser os provedores, e isso funciona como um pilar da masculinidade, explica Sandro.
“Quando esses meninos se deparam com o mundo, desemprego, trabalhos precários, baixos salários, instabilidade, perda de direitos sociais, esses meninos veem um círculo da sua masculinidade, que é a do homem provedor, ser algo impossível de ser realizado.
Então, uma porta de entrada que o movimento redpill utiliza muito para cooptar esses meninos é justamente se aproveitar não só do ressentimento de gênero, mas também dos problemas reais que a classe trabalhadora sofre hoje em dia”, destaca.
Homens, meninos e emoções
Ismael dos Anjos, jornalista e consultor, é autor do documentário “O silêncio dos homens”, que investiga masculinidades no Brasil e parte de uma pesquisa de mesmo nome realizada em parceria com o CIS (Consórcio de Informações Sociais), da USP (Universidade de São Paulo), que ouviu 47 mil pessoas de todo o país para saber como os homens aprendem a ser homens no Brasil.
O levantamento mostrou que 6 em cada 10 homens disseram ter sido ensinados na infância e adolescência a não expressar suas emoções. O mesmo índice se deu no caso de homens que afirmaram enfrentar algum distúrbio emocional. Somente 3 em cada 10 afirmaram ter o hábito de conversar com amigos sobre medos, dúvidas e obstáculos.
Quando perguntados sobre bons exemplos e conversas sobre as emoções, apenas 2 em cada 10 homens disseram ter tido essa possibilidade. Além disso, demonstrar fragilidade é uma questão séria: 7 em cada 10 concordaram que foram ensinados a não demonstrá-la.
Ao lado de Isabella, Ismael desenvolve atividades de grupos reflexivos sobre masculinidades em escolas de São Paulo. A abordagem, compartilhou ele, é centrada no diálogo com os meninos e começa com perguntas em que tentam entender quem são ou o que gostam de fazer. Ismael afirma que é comum entre muitos meninos já chegar com uma ideia pré-concebida de que eles são violentos por natureza, e começar com uma conversa mais leve é a estratégia essencial promovida por ele nos grupos.
Em seguida, partem para uma simples pergunta: “O que é ser homem para você?”. As respostas trazem referências como pais, jogadores de futebol, influenciadores digitais, entre outros atores, mas ele destaca que, em resumo, trata-se do ser homem como uma “performance”.
“As pessoas não passam por esse momento de dizer: ‘Eu sou homem’. Ele está tentando provar que é homem para o próximo, para a menina, para todo mundo, o tempo todo. Uma das coisas que a gente tenta perguntar é: será que esse é o único jeito que a gente prova que é homem? Será que existem outras maneiras? Por que a gente chegou a essa conversa?”, exemplifica Ismael.

Desta conversa, os grupos partem para uma troca a respeito de saúde mental e cuidado. “O cuidado geralmente é delegado para as mulheres como algo obrigatório, seja em relação a elas mesmas, no autocuidado, ou no de outros. O que acontece com esse menino que não se cuida? É um processo contínuo de reflexão.”
Como uma resposta para enfrentar o atual cenário, Ismael ponderou que é preciso a cooperação de toda a comunidade escolar. “Precisamos de educadores engajados, mas eles têm outros pratos para equilibrar.” Ele aponta que a atuação das famílias é fundamental, assim como a criação de políticas públicas estruturadas, que tragam unidade para todas as escolas em relação a este tema.
“Se a gente não entra na escola com essas conversas — e isso é uma crítica ao Estado —, fica a depender da vontade da escola progressista, que tem mais abertura para isso. E daí a gente não chega onde a gente tem que chegar”, pontuou.
A escola não pode fazer isso sozinha
Sandro também destacou que é necessário um trabalho que não fique apenas a cargo dos professores. “Quando olhamos para as escolas estaduais e municipais, a realidade é que não dá para educadores coordenarem grupos reflexivos e projetos quando eles têm que trabalhar em três escolas para se sustentar. Não tem como a gente pensar em atividades desse porte como políticas educacionais nacionais se o professor está numa sala com 45 alunos, com condições precárias.”
O Colégio Pedro II desenvolve ações de grupos reflexivos sobre o tema, mas Sandro pontua que nem todos os professores têm na formação inicial a preparação para tratar do assunto: “acabamos nos educando também coletivamente”.
Uma sugestão dada pelo professor seria a criação de materiais didáticos, paradidáticos e cartilhas pedagógicas pensadas dentro de uma política nacional que direcione bem o trabalho e que traga de maneira pragmática como construir esses grupos reflexivos sobre masculinidades, qual o passo a passo, que caminhos seguir ou que diretrizes acatar.

