Dispositivo portátil aproxima neurociência da sala de aula - PORVIR
Crédito: Divulgação

Inovações em Educação

Dispositivo portátil aproxima neurociência da sala de aula

Aparelho da empresa Emotiv promete ajudar educador entender melhor como uma criança aprende

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 6 de abril de 2018

Ao mesmo tempo em que a neurociência é cobrada para dar respostas aos problemas de ensino e aprendizagem, para especialistas da área ainda é difícil entender como um grande número de crianças de diferentes contextos reagem a uma nova metodologia ou conteúdo. No trabalho tradicional de pesquisa, o ambiente de sala de aula é recriado em laboratórios. Agora, com o avanço da tecnologia vestível, é a ciência que vai até a escola, livre dos fios e equipamentos pesados.

Em palestra realizada no Global Education & Skills Forum, evento realizado em Dubai (Emirados Árabes Unidos), no último mês de março, o neurocientista francês Olivier Oullier, professor de psicologia e neurociências na Universidade Aix-Marseille (França), ofereceu propostas para tentar resolver esse impasse entre ciência e educação. Oullier defendeu que cientistas precisam se aproximar da escola para entender melhor como uma criança aprende. “Não é porque um experimento em laboratório com um grupo de estudantes memoriza melhor uma certa lição dentro de um determinado contexto que você consegue transferir isso automaticamente para uma situação real em sala de aula”, disse Oullier.

Leia mais:
– Neurociência é aliada na preparação do professor para a sala de aula
– Neurocientista dá 7 dicas de estudo para o Enem
Período mágico para aprender língua vai até os 7 anos
Neurocientistas criam método para ensinar 2ª língua a bebês

O professor também argumenta que levar estudantes ao laboratório para gerar imagem de suas atividades cerebrais incorre em uma desvantagem óbvia, o custo. “Você não consegue levar muitas pessoas para um equipamento de imagem porque eles custam milhões de dólares, demandam expertise e o deslocamento de pessoas até centros especializados”, explica. Neste ponto, Oullier conectou o argumento com a atividade da Emotiv, empresa na qual ocupa o cargo de presidente-executivo.

Foi por meio da Emotiv que o brasileiro Rodrigo Mendes, que perdeu movimentos de braços e pernas aos 18 anos, após ser baleado durante um assalto, conseguiu pilotar um carro de Fórmula 1 com o auxílio estímulos cerebrais. Agora, a empresa pretende levar a tecnologia portátil para o ambiente de aprendizagem e monitorar em tempo real momentos de atenção, desinteresse ou fadiga mental de estudantes.

“Ao medir as atividades a partir de tudo o que o aluno olha, você consegue variar a aula contando uma piada, criando um intervalo, pedindo que eles desenhem ao invés de só escutar”, disse. Em sua apresentação, Oullier disse ter deixado intencionalmente de lado as descobertas e resultados de estudos para convencer a todos da importância de olhar para a maneira com que as informações são coletadas.

 

A tecnologia

Com uma estrutura que lembra o arco de fone de ouvido que dá a volta em torno da cabeça, o dispositivo da Emotiv pertence à categoria de tecnologias vestíveis. Além de interagir com outros objetos, como drones ou o carro de F1, ele gera visualizações em tempo real de regiões do cérebro ativadas em uma determinada atividade.

“Por exemplo, quando você vê uma atividade se manifestando na parte de trás do cérebro, você pode interpretar como seu aluno pode estar usando uma estratégia visual, o que faz sentido se um aluno está lendo. Mas você pode perceber isso quando as pessoas estão imaginando coisas ou uma solução para um problema de matemática”, diz Oullier. Assim, seria possível entender quais alunos aprendem de maneira mais visual, ou então de maneira mais abstrata, quando estiver relacionada com a parte frontal do cérebro.

Em nível mais complexo, o que o processo tenta fazer é aliar o que já se descobriu em laboratório com questões como interações sociais que levem à solução de problemas e o que acontece com um aluno que resolve um problema matemático em poucos minutos e outro que fica queimando neurônios atrás de uma resposta. “O importante é tornar isso acessível para professores usarem”, explica.

Políticas públicas

Atualmente, 80 mil pessoas em 120 países já usam um dispositivo parecido e aceitaram compartilhar dados de uso com a Emotiv, que promete manter os dados sob sigilo. Como objetivo final, está influenciar políticas públicas tendo como base informações científicas dentro de um contexto real das escolas, algo que na França, segundo Oullier, tem sido uma tendência no governo do presidente Emmanuel Macron.

Para dar conta desta tarefa, foi criado um conselho científico para educação nacional com 21 especialistas e liderado pelo neurocientista Stanislas Dehaene, professor do Collège de France. Um terço das cadeiras é ocupado por neurocientistas, enquanto o restante das vagas é preenchido por especialistas em áreas como educação, filosofia e sociologia.

“O objetivo é entender como é possível trazer o conhecimento produzido em laboratório e aplicá-lo em sala de aula, mas também receber sugestões de sala de aula para inspirar experimentos científicos. Não estamos falando em deixar que a ciência dite como a educação vai ser em alguns anos. Em lugar disso, a ciência pode ajudar a melhorar o que já funciona bem e a corrigir o que não funciona”.

* Jornalista viajou a Dubai a convite da Varkey Foundation


TAGS

neurociência, tecnologia, tecnologia vestível

1
Deixe um comentário

avatar
500
1 Comentários ao conteúdo
0 Respostas a comentários
0 Seguidores
 
Comentário com mais reações
Comentário em alta
1 Autores
Elen Pereira Quem acabou de comentar
  Acompanhar a discussão  
Mais recentes Mais antigos Mais votados
Tipo de notificação
Elen Pereira
Visitante
Elen Pereira

Adorei o conteúdo :)