O coronavírus também vai contaminar a educação? - PORVIR
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Coronavírus

O coronavírus também vai contaminar a educação? Os riscos de uma mudança radical para o ensino online depois que a crise passar

A incorporação onipresente de tecnologia representa uma enorme mudança no dia a dia de professores e estudantes e é acompanhada de desafios significativos

por Nicholas Wasserman, Nathan Holbert e Paulo Blikstein ilustração relógio 4 de maio de 2020

Com a pandemia do coronavírus (COVID-19), todas as instituições de ensino estão rapidamente adotando educação online. Essa incorporação onipresente de tecnologia representa uma enorme mudança em relação às operações normais do dia a dia – e é acompanhada de desafios significativos. Claro que podemos criticar a preparação das instituições de ensino para a aprendizagem digital, mas hoje outro tipo de retórica começou a surgir, dizendo que  a mudança para a educação online é uma prova cabal de que mais educação pode e deve ser feita remotamente.

Alguns já começaram a vender essas ideias na mídia. A essência do argumento é que a mudança emergencial para a instrução online mostra que as instituições educacionais sempre foram capazes de operar online, mas optaram por não fazê-lo em função de uma “agenda financeira” secreta.

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Tal resposta ao esforço hercúleo que educadores (alunos e famílias) em todas os níveis estão realizando para mudar para a aprendizagem remota nos deixa preocupados sobre  como algumas pessoas e/ou empresas podem estar tentando usar essa pandemia como arma para determinar os rumos do futuro da educação. E mesmo nós, que somos defensores do uso da tecnologia na educação, acreditamos que o uso dessa pandemia global como justificativa para traçar uma direção online para os sistemas educacionais pode ser prejudicial.

Para contestar esses argumentos, começamos com um mal-entendido sobre a aprendizagem que está implícito em muitas propostas de digitalização completa. Educação não é só sobre a “transmissão” de conhecimento de um especialista para um iniciante. Essa ideia é problemática por várias razões e ainda mais proeminente nas abordagens educacionais online.

Primeiro, o aprendizado não é puramente uma atividade cognitiva. Fazemos um grande desserviço à educação quando a descrevemos apenas como memorização ou uso de fatos  – data da Declaração de Independência ou aplicação do Teorema de Pitágoras. Aprender certamente envolve a mente, mas também interações entre alunos, professor e aluno, além de espaços e ferramentas de aprendizado. Embora os modelos online possam apoiar algumas dessas interações, eles são superficiais quando se trata de oferecer experiências educacionais diversas, ricas e multimodais.

Segundo, os modelos de “transmissão” da educação não produzem a aprendizagem mais significativa. Infelizmente, a maioria das pessoas definiria “ensino” como um professor “passando a matéria” a um grupo de estudantes. Esse é um equívoco recorrente. O conhecimento não é transmitido, é construído quando colocamos nosso entendimento prévio em contato com novas ideias, experiências e ambientes. Ambientes online que proporcionam esse tipo de experiência de aprendizado são complexos e caros de serem desenvolvidos, e a educação a distância baseada em abordagens “orientadas à transmissão” demonstrou ter terríveis taxas de conclusão.

Terceiro, aula online não é mais barata nem mais fácil de ser realizada do que a presencial. Muitas pessoas acham que ao criar videoaulas uma única vez significa que que é possível usar o mesmo material eternamente sem custos adicionais em tempo ou recursos. No entanto, há uma extensa pesquisa que mostra que a produção e manutenção de um curso online pode ser ainda mais cara do que a sua versão off-line. Embora o aprendizado online possa oferecer experiências significativas de aprendizado, isso continuará sendo um esforço intensivo em tempo e recursos, tanto para o educador quanto para o aluno. O aprendizado online de alta qualidade não é mais barato.

Quarto, o uso inicial da tecnologia tende a replicar as abordagens existentes, mas o potencial da nova tecnologia não está em manter o status quo, mas elevá-lo. Podemos ver essa regressão ao status quo na história da famosa “lousa inteligente” (usada principalmente como um quadro branco caro e muitas vezes menos confiável), tablets que são apenas um meio para exibir livros tradicionais, e no ensino online dependente de aulas convencionais gravadas em vídeo. E não precisa ser assim. Novas tecnologias e emergentes podem, em vez disso, ser usadas para ajustar ou aprimorar estruturas e sistemas já existentes de maneira a alavancar as possibilidades educacionais.

Quinto, o uso da tecnologia não diminui tensões relacionadas à equidade na educação; Na realidade, pode piorá-la à medida que terceiriza muitos dos custos da educação para as famílias. O aprendizado online é fundamentalmente mediado pelos alunos e dispositivos usados ​​para acessar esse aprendizado. Os ricos têm acesso a melhores sistemas tecnológicos e a maiores e mais numerosos espaços privados para participar. Da mesma forma, estudantes neurotípicos se saem melhor nesses ambientes do que aqueles com necessidades especiais. O aprendizado online não oferece acesso mais equitativo à educação.

Ao final desta pandemia histórica do coronavírus, as instituições educacionais terão se envolvido no aprendizado remoto em uma escala sem precedentes. No entanto, temos uma escolha sobre como podemos olhar para essa experiência. Podemos optar por concluir que os estudos sobre aprendizado online estavam errados e que a educação pode e deve ser digital e feita online, mesmo que educadores, pais e responsáveis tenham tido que revirar suas vidas para apoiar os filhos durante uma calamidade global. Ou podemos ver isso como uma oportunidade para aplaudir o enorme esforço de adaptação flexível a novos modos educacionais em circunstâncias nunca antes vistas – e, quando a poeira baixar, convidar esses professores e educadores, em vez de corporações ou fundos de investimento, para traçar o caminho a ser seguido.


Wasserman, Holbert e Blikstein são professores do Departamento de Matemática, Ciências e Tecnologia do Teachers College, na Universidade de Columbia (EUA).

* Artigo publicado originalmente no NY Daily News e reproduzido mediante autorização


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aprendizagem baseada em projetos, conectividade, coronavírus, dispositivos móveis, educação infantil, educação online, ensino fundamental, ensino médio

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Sandra Regina Carvalho
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Sandra Regina Carvalho

Educação para ensino propicia oportunidade com esforço de todos na adaptação flexível a novos modos educacionais em circunstâncias de pandemia em 2020. Assim, professores e educadores partilhem e participem para traçar o caminho a ser seguido, pós coronavírus. As instituições educacionais se envolveram no aprendizado remoto e muitos vivenciaram o olhar e participaram desta experiência no espaço vivido em território nacional e mundial.

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Sandra Regina Carvalho
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