“Se tem sol, por que está frio?”. Essa pergunta, nascida da curiosidade de crianças de 4 anos da pré-escola I da Escola Municipal Professora Helena Reis, em Varginha (MG), foi o ponto de partida para uma jornada de descobertas e aprendizagens.

Com 15 anos de atuação na rede pública, reconheci ali a oportunidade de tornar concreto o que muitas vezes aparece como abstrato na educação infantil: os fenômenos climáticos e astronômicos. A partir dessa escuta, desenvolvi o projeto “Se tem sol, por que está frio?”, integrando os campos de experiência da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) da Educação Infantil e as áreas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática).

A proposta também se inspira na abordagem Reggio Emilia, na escuta ativa e na aprendizagem baseada em projetos, valorizando o protagonismo da turma e a construção coletiva do conhecimento.

Pergunta investigativa: o ponto de partida para a alfabetização científica

O percurso teve início pelas rodas de conversa, nas quais as crianças compartilharam saberes prévios e levantaram hipóteses sobre o clima. Em vez de oferecer respostas prontas, atuei como escriba, registrando as teorias iniciais em cartazes. Essa prática permitiu valorizar o pensamento coletivo e revisitar as ideias conforme o projeto avançava.

Entre as questões levantadas estavam: 

  • “Se o céu está azul e ensolarado, o sol está fraco?” 
  • “É o vento que não deixa o calor chegar?”
  • “As árvores ficam sem folhas porque o sol está fraco?”  
  • “O frio vem porque a Terra está mudando de lugar?”

As hipóteses deram origem à fase de pesquisa. Passei a tratá-las como perguntas investigativas e lancei o desafio: “Como podemos descobrir se isso é verdade?”

Crédito: Arquivo pessoal

Demos início a um processo guiado, que combinou a observação cotidiana do clima com a exploração do Google Earth. Para isso, utilizamos recursos lúdicos, como o calendário coletivo do tempo e o termômetro humano, que tornaram o registro das descobertas mais sensorial e participativo.

?Conheça quem já foi selecionado como finalista da 3ª edição do Prêmio Professor Porvir!

Mão na massa para prototipar e explorar o Sistema Solar

A leitura do livro “Minha Casa”, de Lorena Kaz, que apresenta a Terra como nossa morada, ampliou o interesse da turma pelo planeta e levou ao estudo do globo terrestre. O encantamento inicial rapidamente transformou-se em ação: a construção de uma maquete interativa do sistema solar.

A etapa de engenharia foi especialmente transformadora. Juntos, buscamos maneiras de compreender conceitos como rotação e translação por meio de desenhos e pequenas experimentações que respeitaram o tempo de elaboração de cada criança.

Crédito: Arquivo pessoal

A maquete tornou-se o eixo central das explorações. Ao manusear o protótipo, elas observavam, testavam e explicavam o que acontecia com a Terra ao longo do tempo, compreendendo de forma visual a origem das estações do ano.

Esse percurso foi ampliado com uma visita ao planetário da cidade, onde os conceitos estudados puderam ser vivenciados de forma sensorial. Como curiosidade local, o Planetário de Varginha faz parte do complexo do Memorial do ET, ponto turístico que celebra a famosa lenda urbana “ET de Varginha”, que acaba de completar 30 anos.

Passo a passo da maquete

A prototipagem do globo terrestre combinou materiais acessíveis, recicláveis e não estruturados, valorizando a experimentação e o trabalho coletivo.

Materiais do depósito e recicláveis: caixas de papelão para a base; bolinhas de isopor de diferentes tamanhos para os astros; arames, barbantes e varetas para os eixos de rotação.

Materiais de consumo e estética: tintas, pincéis, cola, tesouras sem ponta e massa de modelar, usados nas etapas iniciais de construção e acabamento.

Materiais não estruturados: folhas secas e galhos coletados no pátio, integrando a biodiversidade local ao projeto.

Recursos tecnológicos complementares: lanternas para simular a luz do sol e tablets ou projetores como apoio visual ao design.

Aprendizagem solidária: o estudo do clima aplicado à comunidade

A pesquisa sobre o clima levou as crianças a refletirem sobre como o frio afeta a vida das pessoas da comunidade. Surgiram conversas sobre quem sente mais os efeitos das baixas temperaturas e como a escola poderia ajudar. Sensibilizadas por essas reflexões, elas idealizaram o Varal Solidário, uma campanha de doação de roupas que mobilizou toda a escola.

Elas criaram slogans, produziram cartazes e participaram da organização da coleta e distribuição de roupas e cobertores. Durante quase uma semana, um varal atravessou o pátio de entrada da escola, com acesso livre para famílias e para a comunidade. A própria turma assumiu a organização diária das peças, contando com o apoio de colegas de outras salas.

A ação foi tão significativa que a escola planeja torná-la permanente, fortalecendo uma cultura de empatia, sustentabilidade e responsabilidade social.

Crédito: Arquivo pessoal

ODS: sustentabilidade e consumo responsável na infância

A ação comunitária possibilitou o alinhamento do projeto aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 e 12, relacionados a cidades sustentáveis e consumo responsável.

Para abordar esses temas, utilizei vídeos da Turma da Mônica, a exploração da página De Criança para Criança e a leitura da coleção “O Mundinho”, de Ingrid Biesemeyer Bellinghausen. Esses recursos ampliaram a compreensão das crianças sobre cuidado com o planeta e responsabilidade coletiva.

https://www.youtube.com/watch?v=tTvxhDRK0jI

O poder da escuta e da valorização dos saberes da zona rural

Além disso, o projeto valorizou o conhecimento local com o Caderno de Saberes, um recurso itinerante que circulou entre as casas. A turma entrevistou familiares sobre como o clima influencia o trabalho e as tradições locais.

Como muitas famílias vivem na zona rural, os registros trouxeram informações sobre o manejo da terra e as plantações ao longo das estações, além de lendas e tradições locais. De volta à escola, essas histórias eram compartilhadas em rodas de conversa, fortalecendo o diálogo entre o saber científico, a cultura local e as vivências comunitárias.

Crédito: Arquivo pessoal

Evidências de aprendizagem e legado para a escola

O projeto foi selecionado para a Feira de Tecnologias na Educação de Varginha, realizada junto à 1ª fase da Olimpíada Brasileira de Robótica. No evento, as crianças deveriam apresentar a maquete, explicar o funcionamento do sistema solar e compartilhar com o público os conhecimentos construídos ao longo do caminho.

Embora toda a turma tivesse participado do projeto, limitações logísticas das famílias no dia do evento permitiram que apenas um aluno representasse o grupo. Com autonomia, ele explicou o movimento de translação dizendo: “Quando a Terra gira ao redor do Sol, aqui fica frio, aqui fica quente…”, encantando o público. Mesmo sem premiação, a participação foi considerada vitoriosa por evidenciar o protagonismo das crianças e marcar a presença da escola como uma das poucas instituições de educação infantil no evento.

Desenvolvimento de competências e formação continuada

Houve avanços significativos na linguagem oral, na autonomia e na interação entre os pares, registrados na documentação pedagógica. Crianças inicialmente mais tímidas passaram a se engajar com mais segurança, especialmente nas atividades colaborativas. A necessidade de comunicar ideias e resolver desafios fortaleceu vínculos e ampliou o protagonismo de cada criança.

A realização simultânea de uma formação em metodologia STEAM impactou profundamente minha prática pedagógica, reafirmando que não se deve subestimar a capacidade intelectual e criativa dos pequenos. Partir de perguntas genuínas, como “Se tem sol, por que está frio?”, mostrou-se um caminho potente para desenvolver as competências previstas na BNCC.

Ao observar o clima, explorar os saberes da comunidade e promover ações solidárias, o grupo se tornou agente de mudança desde a infância. Se, no início, as crianças afirmavam que “o sol girava ao redor da Terra”, ao final já projetavam novos desafios: “A maquete poderia girar sozinha?”.

Este é um indício de que a curiosidade não se encerrou — ela apenas abriu novas possibilidades de estudos e de exploração.

Integração dos campos de experiência da BNCC da Educação Infantil

A pergunta “Se tem sol, por que está frio?” funcionou como fio condutor de todo o projeto, garantindo a integração entre os campos de experiência da educação infantil.

No calendário do tempo, as crianças mobilizaram Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação em diálogo com Espaços, Tempos, Quantidades, Relações e Transformações, ao registrar sequências, contagens e noções temporais.

Na construção da maquete, o planejamento e as noções espaciais e físicas articularam-se ao campo Traços, Sons, Cores e Formas, por meio da experimentação de materiais, tintas e modelagem.

Assim, a ciência foi vivenciada de forma integrada, unindo linguagem, matemática, estética e pesquisa como ferramentas indissociáveis para a compreensão do mundo.

É professora na Escola Municipal Professora Helena Reis, em Varginha (MG). Pedagoga e pós-graduanda em Educação Inclusiva, Inspeção e Orientação, fundamenta sua prática nas abordagens STEAM e Reggio Emilia. É Google Certified Educator, finalista...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *