Aprendizagem baseada em projetos atende a estudantes de todos os contextos - PORVIR
Crédito: Photo by Allison Shelley/The Verbatim Agency for EDUimages

Inovações em Educação

Aprendizagem baseada em projetos atende a estudantes de todos os contextos

William Bender, especialista no tema, explica por que os projetos promovem uma aprendizagem que os estudantes vão se lembrar para sempre

Parceria com Instituto iungo

por Luciana Alvarez ilustração relógio 17 de novembro de 2021

Como muitos professores, o americano William Bender começou sua carreira docente em uma escola pública e só mesmo na prática percebeu os desafios de ter crianças com conhecimentos e interesses muito diversos dentro de uma mesma sala de aula. Na busca por caminhos para conseguir dar conta de tanta diversidade, Bender encontrou a aprendizagem baseada em projetos, ou PBL (project-based learning). Há quase 30 anos, pesquisa sobre abordagens pedagógicas e considera o PBL um dos melhores.

“É uma das estratégias de educação de maior impacto que eu já vi, servindo para alunos de todos os espectros de habilidades: para quem tem dificuldade, para quem tem desempenho muito bom, e tudo que está no meio do caminho. Ela pode ser realmente revolucionária”, afirmou Bender durante o 1º Congresso Brasileiro de Metodologias Ativas, uma iniciativa do NAP/USP (Núcleo de Pesquisas em Novas Arquiteturas Pedagógicas da Universidade de São Paulo), da PANPBL (Association of Problem-Based Learning and Active Learning Methodologies), e do Instituto iungo. O PBL é, em linhas gerais, usar problemas da vida real para ensinar conteúdos acadêmicos, de uma forma colaborativa e dirigida pelos alunos, tendo como objetivo encontrar alguma solução para a questão inicial.

Uma das razões do sucesso dos projetos na educação é o aumento na motivação dos estudantes. “Quando os alunos enxergam que o trabalho deles está fazendo algo de bom pela comunidade, eles se motivam. É diferente de estar decorando tabuada ou regras gramaticais”, disse Bender.

O professor citou o caso de estudantes da Whitwell Middle School, localizada na pequena cidade Whitwell, no estado do Tennessee, que decidiram fazer um projeto para entender o Holocausto juntando um clip de papel para cada judeu assassinado. O projeto ganhou o noticiário nacional, atores famosos mandaram clips aos estudantes para ajudar a chegar à soma de 6 milhões, judeus sobreviventes foram até o local conversar com as crianças e a experiência acabou virando um documentário da HBO.

“Os estudantes vão se lembrar de certas atividades para sempre. Vão falar para seus filhos: eu e meus colegas fizemos isso quando estávamos na escola. Esse é o poder do PBL”, afirmou. Bender reconhece que nem todo conteúdo pode ser abordado pelo PBL, mas acredita que todo educador deveria usar projetos na educação.

Veja o trailer de Paper Clips (ative legendas em português no YouTube)

 

Estratégias para contextos variados

O PBL, defende o professor, é possível de ser aplicado até mesmo em contextos socioeconômicos difíceis, em escolas isoladas, locais com acesso precário a tecnologias digitais. “As pessoas me perguntam sobre isso no mundo inteiro. Já fui para uma reserva indígena em Montana e me questionaram como fazer PBL num lugar assim, sem conectividade. Mas o PBL foi criado na década de 1920, décadas antes da internet ser desenvolvida”, afirmou.

Livros físicos, observação da realidade e entrevistas com a comunidade podem suprir as lacunas da falta da internet. “Você tem que pensar na base do PBL: um problema, o brainstorm, as atividades e as ferramentas de pesquisa, que podem ser fora da web. A entrevista com a comunidade é uma delas. Também fiz projetos com alunos que andavam com seus cadernos e lápis observando um parque para pensar em possíveis melhorias. Talvez uma enciclopédia, livros numa biblioteca ajudem”, enumerou.

Mesmo estudantes com traumas podem se beneficiar com a abordagem, diz Bender, que ultimamente tem trabalhado com crianças de zonas de guerra, em situações familiares problemáticas, e com envolvimento com drogas.

“Esses alunos têm uma retração emocional, que é uma forma de defesa. O professor precisa encontrar algo para se conectar com esses alunos. Depende de cada caso, claro, mas o professor pode usar o trauma como uma ferramenta motivacional, convidar aquela criança a contribuir com o trabalho do grupo dando a sua perspectiva, algo que os outros alunos não têm”, explicou.

Avaliações padronizadas

Ao se trabalhar com PBL, os professores precisam rever as formas de avaliar o desempenho dos alunos, encontrar maneiras de dar nota além de questões com respostas certas ou erradas em uma prova escrita. Contudo, avaliações padronizadas não vão desaparecer dos sistemas de ensino. Portanto, é interessante combinar as diferentes formas.

“Parecem modelos em conflito. Porém, temos que reconhecer que esses exames (padronizados) são uma realidade – nos Estados Unidos há um movimento muito forte de educação baseada em padrões de controle. O que dá para ser feito é suplementar as avaliações contínuas do PBL com esse tipo de prova”, sugeriu Blender.

Se as provas escritas de múltipla escolha preparam os alunos para grandes exames padronizados, como é o caso do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e de vestibulares, a autoavaliação e avaliação por pares, tão comuns nas práticas de PBL, preparam para a vida. “Essas são as formas como as pessoas são avaliadas durante toda a carreira, em várias indústrias”, disse.

Ainda assim, nada deve ser uma camisa de força. Por questões práticas, Bender acredita que a avaliação pelos pares não é obrigatória em todos os projetos. “O mais importante é bem simples: o projeto funcionou? Uma vez que o professor entra nos projetos, a questão da avaliação vai se resolvendo por si só”, garante.

Sobre William Bender

É um dos mais dedicados educadores norte-americanos do final dos anos de 1990 até a atualidade. Doutor em educação pela Universidade da Carolina do Norte, lecionou na Universidade Rutgers e Universidade da Geórgia. É considerado um especialista em Resposta à Intervenção (RTI, na sigla em Inglês) e seu foco está em estratégias de ensino prático. Em seu livro publicado no Brasil, Aprendizagem baseada em projetos – ABP (Editora Penso), propõe que estudantes confrontem problemas do mundo real e significativos para eles, determinem a maneira de abordá-los e estabeleçam uma ação cooperativa em busca de soluções. 

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TAGS

aprendizagem baseada em projetos, avaliação, socioemocionais

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