Entender aprendizado para mudar a universidade - PORVIR
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Inovações em Educação

Entender aprendizado para mudar a universidade

Gregory Light, diretor da Northwestern University, nos EUA, pede uma mudança de postura de professores

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 30 de março de 2015

Gregory Light, diretor do Searle Centre para Ensino e Aprendizado Avançados da Northwestern University, de Illinois, nos Estados Unidos, provocou professores a mudarem seu entendimento do que significa aprendizado no mundo atual como forma de transformar o ensino superior. O especialista participou do encontro internacional sobre inovação acadêmica e aprendizagem ativa do Consórcio STHEM Brasil (iniciais em inglês de ciências, tecnologia, humanidades, engenharia e matemática), que reúne 31 instituições brasileiras de ensino superior, realizado na última sexta-feira, em São Paulo.

Para ilustrar sua ideia, Light contou uma pequena história de uma recente viagem à Palestina para realizar oficinas com professores e gestores universitários. Um taxista que não falava uma palavra de inglês o levaria até o aeroporto de Tel Aviv em uma viagem de 200 km, mas um posto de controle do exército israelense fez com que o carro tivesse que dar meia volta. A todo o momento, o taxista fazia ligações perguntando por orientações sobre qual direção tomar até que, em um determinado momento, estacionou à beira da estrada e pediu para que Light descesse e esperasse um outro táxi.

“Eu estava no meio do nada na Palestina e percebi que era um homem de sorte. E só notei isso porque o taxista tinha pensamento crítico para resolver os problemas e achar soluções quando viu que não conseguiria passar pelo primeiro posto de controle”, disse. O professor descreve que foi somente graças aos contatos com moradores locais e à mentoria na “vida real” recebida ao telefone que conseguiu chegar à estrada certa e pegar o voo a tempo.

Ao comparar essa experiência na estrada com o que acontece nas salas de aula de universidades mundo afora, Light lembrou das queixas de colegas. “Em 50 anos, não houve muita mudança. Há mais tecnologia, mais estudantes chegando ao ensino superior, mais diversidade de gênero e pessoas vestindo roupas coloridas. Mas a pedagogia não muda”, analisa.

Light lançou então algumas hipóteses levantadas em suas pesquisas sobre o que acontece na mente do professor para barrar mudanças ou ajudar na transformação do modo de dar aula. Uma delas mostrava que professores entendem que ensinar significa dar aos estudantes uma enorme quantidade de informação, ou seja, repassar fatos. Uma outra abordagem apontava que, na visão de professores, alunos julgam importante que alguém experiente transmita conhecimento do jeito que dizem os livros. Uma terceira veio de professores que julgam importante participar como mentor e permitir aos alunos criar e reconstruir o conteúdo por si mesmo.

“Eles podem não saber, mas seguem as palavras de Paulo Freire”, disse Light, citando em inglês a frase: “Uma educação que estimule a alegria de criar e o prazer do risco, sem o qual não há criação”. Foi a deixa para o diretor da Northwestern University ressaltar que, para professores, é importante arriscar. “Não são apenas os métodos, mas o entendimento do que é ensinar que também precisa mudar. Quando professores entenderem que a função do aprendizado é criar pensamento crítico em alunos, tudo muda”, explica.

Para reforçar sua ideia, lembrou ainda de uma outra pesquisa, desta vez envolvendo 50 professores, que foram questionados sobre seus projetos de pesquisa. “Perguntamos se viam essa atividade como um processo de aprendizagem”, disse Light. “Eles disseram que sim e usaram essas palavras para descrever: aprendizado profundo, pensamento crítico, método analítico, poder de entender, desafiador, possibilidade de conectar com outras pessoas, etc”.

Em seguida, a pergunta foi repetida para que avaliassem o curso que davam a seus alunos. As respostas incluíram “acho que sim”, “não sei” e “não quero saber”. Um dos pesquisados, segundo Light, disse que estudantes precisam aprendem o básico, seja dos professores ou dos livros. Outros disseram que apenas reproduziam a própria experiência de aprendizado que tiveram.

Light terminou sua exposição dizendo que a percepção é que problema não é o jeito que o professor ensina, mas o que significa aprendizado. “Existe um aprendizado para alunos e outro para professores, e juntar esses dois tipos é o maior desafio que vivemos atualmente”, diz. E conclui: “Se quisermos fazer das universidades um lugar de aprendizado real, precisamos do pensamento de Paulo Freire, que empodera a todos, sejam alunos ou professores”.


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competências para o século 21, ensino superior

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