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Inovações em Educação

A escola do campo também é de verdade

Especialista aborda, em artigo, as condições das instituições de ensino das zonas rurais e sua importância para a cultura local

por Walquíria Castelo Branco Lins ilustração relógio 18 de maio de 2015

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Série Tecnologia no Campo

Entregamos lápis e papel para aquelas crianças, entre sete e 12 anos de idade, com a seguinte provocação: “O que vocês querem desta Escola?”. Olhei para o que um aluno rascunhava sem compreender e perguntei o que ele estava desenhando. “Uma Escola de verdade”, foi sua resposta. Saí olhando para os vários desenhos espalhados e vi que aquela imagem se repetia pelas mãos das outras crianças.

Eram estudantes do 1º ano ao 5º ano, reunidos numa única classe improvisada num terraço de uma das casas de engenho, aguardando o fim da reforma de sua escola, que está localizada em um prédio que já pertenceu ao engenho. A prefeitura custeou a obra, colocou cerâmica no piso da sala, trocou as instalações elétricas, pintou as paredes e azulejou a cozinha. A escola do campo fora selecionada para um projeto que levaria conexão, formação para os docentes e 12 notebooks para os alunos.

Por que uma escola de verdade?

O Censo Escolar de 2013 constatou 41.060 escolas com menos de 50 alunos na área rural. Muitos gestores usam esses dados para dois movimentos: mantê-las abertas, contratando um docente para turmas com estudantes de anos diferenciados, reunidos numa única classe (unidocente); e fechá-las, alocando-os nas escolas urbanas seriadas (nucleação).

Muitas dessas escolas funcionam em prédios inadequados, cedidos por donos de engenhos, sem saneamento básico, biblioteca, mobílias e sem material didático para a rotina do ensino e da aprendizagem. Ambientes improvisados e precários com alto índice de evasão e repetência, chamados por alguns pesquisadores de “Escolas Esquecidas”.

Nos discursos que “justificam” esse “esquecimento” há duas afirmações: o urbano como o lugar do desenvolvimento social, econômico e tecnológico e o modelo da classe seriada como escola de verdade, organizada em “séries”. O campo é negado como lugar de oportunidade, emancipação e autonomia. Não é visto como lugar vivo com valor em si mesmo e que integra a cidade. É um lugar de atraso e, portanto, não vale a pena investir e empoderar sua comunidade.

Por outro lado, as escolas seriadas como modelo disciplinar, homogêneo e hierárquico condenam milhões de jovens ao fracasso. Elas são exatamente um modelo de sucesso a ser comparado. As práticas pedagógicas que desconsideram a diversidade e a diferença, as vivências e saberes dos grupos têm sido questionados há algum tempo, independente do espaço geográfico onde se encontram.

A escola do campo é assim definida por receber quilombolas, índios, pescadores, extrativistas, agrícolas, assentados, dentre outros, e não por localização espacial. Esta diversidade, constituída por 30 milhões de pessoas, extrapola os limites do “rural” ou do “urbano”. Muitas vezes, essa escola, é o único acesso à cultura, as atualizações do trabalho, as inovações tecnológicas e a sistematização do conhecimento para esses cidadãos.

Por conta disso, essa trajetória não é traçada apenas por negações. Há uma história de resistência, uma luta para inseri-las na dinâmica social, política e econômica do campo como escolas públicas de qualidade abertas às demandas por tecnologias, cultura e trabalho dessa população. A luta por assentá-las com qualidade na comunidade, fortalecendo a identidade cultural.

A escola de verdade, desejo das nossas crianças, pode estar no campo e ser multisseriada com uma cultura de saberes e fazeres docentes voltados para a diversidade e aberta para a vida da comunidade. Essa pedagogia vem sendo construída há séculos por docentes que se acordam às 4 horas da manhã, viajam muitos quilômetros em estradas de barros, retornam para um segundo expediente e prosseguem nas pós-graduações noturnas das faculdades do interior do país. Está sendo reinventada por docentes forjados no desafio de construírem conhecimentos em espaços e tempos pedagógicos bem mais complexos que o paradigma curricular seriado, fragmentário, hierárquico e disciplinar.

Essa reinvenção não depende apenas de “medidas” no interior da escola, como informatização da sala de aula, mas de iniciativas que deem sustentabilidade ao campo, sustentabilidade à comunidade, sustentabilidade ao docente. A escola é desenhada por fora, também. O esquecimento da escola relaciona-se com a negação da vida no campo.

Os docentes do campo de Vitória de Santo Antão (PE) sabem disso, participam dessa construção, apropriando-se das tecnologias da comunicação e informação para amplificar o diálogo para além dos seus territórios, ampliar os meios e as formas de se expressarem, ampliar os espaços de aprendizagem e abrir as portas da escola para a comunidade. Deste modo, encontraram colaboradores para cocriarem essa escola de “verdade”, tão desejada pelas crianças. Essa cocriação passa por medidas do poder público local, laboratório de didática inovadora para classes multisseriadas e parcerias como o projeto Escolas Rurais Conectadas, da Fundação Telefônica.

* Este artigo integra a série de reportagens Tecnologia no Campo, uma parceria do Porvir com a Fundação Telefônica Vivo, que realiza o Programa Escolas Rurais Conectadas.


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