“Aqui é tão bonito! Será que eu posso entrar?”

Ao visitar um museu pela primeira vez, uma estudante ficou admirada diante do MAR (Museu de Arte do Rio), na Praça Mauá, no Rio de Janeiro (RJ). Conectados por uma ponte, dois edifícios compõem o museu: o histórico Palacete Dom João VI, de estilo eclético, que abriga as salas de exposição, e o prédio modernista vizinho, onde funciona a Escola do Olhar.

Ouvida pela professora Angela Regina de Freitas, a pergunta mistura admiração e dúvida e revela uma barreira que o projeto Experimente Cultura busca superar: a sensação de que espaços como aquele não são para todos.

Criado em 2018, o projeto aproxima estudantes da rede pública do Rio de Janeiro de museus e outros espaços culturais por meio de visitas virtuais e presenciais, com mediação de educadores e transporte gratuito para as atividades presenciais.

Em outra visita ao MAR, durante uma exposição sobre funk, os estudantes se surpreenderam. “As pessoas dançando funk podem estar no museu?”, perguntaram.

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A professora, responsável pela Sala de Leitura do GET (Ginásio Educacional Tecnológico) Delfim Moreira, explicou que o funk é uma manifestação cultural tão importante para  a cultura da cidade que é reconhecida por lei. A conversa se ampliou para temas como memória e valorização de diferentes expressões artísticas. Além de conhecer um lugar que podiam frequentar, os estudantes discutiram como manifestações culturais próximas de seu cotidiano também podem ocupar um museu.

“Minha escola fica numa região com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) muito baixo. Se a escola não levar, são poucos os pais que conseguem proporcionar isso para os filhos”, diz Angela.

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Estudantes reunidos com mediadores observam esculturas clássicas e obras contemporâneas em espaço cultural.
Grupo de estudantes participa de atividade de mediação cultural em uma exposição com esculturas e instalações artísticas. Crédito: Divulgação/Experimente Cultura

Conexões nacionais e internacionais

As descobertas continuam depois dos passeios: os estudantes compartilham as experiências com os familiares e demonstram interesse em conhecer outros espaços culturais. Esse desejo de voltar também está na proposta do Experimente Cultura, que já atendeu mais de 45 mil crianças e jovens no Rio de Janeiro desde 2018.

Para Renata Prado, curadora e criadora do projeto, a mediação ajuda os visitantes a reconhecer sua própria história nesses espaços. “A gente tem que fazer de tudo para que eles se sintam bem nesse espaço, para que queiram voltar”, afirma.

Na Escola Municipal Thomas Mann, no Rio de Janeiro, o professor de geografia e coordenador pedagógico Giannis Petrakis acompanha o Experimente Cultura pelo segundo ano. Na primeira edição de que a escola participou, ele assumiu parte da organização das atividades, em parceria com outros professores. As visitas virtuais foram o primeiro contato das turmas com a proposta e ajudaram a preparar os estudantes para criar seus próprios museus nas oficinas literárias.

Ao imaginar esses espaços, os alunos precisaram pensar no acervo e conhecer as diferentes funções de quem trabalha em um museu. Depois, passaram a se colocar nas histórias como profissionais dessas instituições. Para Giannis, esse processo apresentou possibilidades que muitos ainda desconheciam, tanto de contato com a cultura quanto de atuação profissional.

As descobertas também alcançaram o professor. Em uma visita por videochamada ao Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ele ficou impressionado com o que conheceu. 


Onde acessar os livros e materiais do projeto?

O Experimente Cultura disponibiliza uma estante virtual com os livros produzidos pelos estudantes durante as oficinas literárias. As publicações ficam disponíveis para leitura e registro de leitura durante o período de votação. Cada pessoa pode registrar a leitura de um mesmo livro uma única vez, mas pode conhecer quantas obras quiser.

Para incentivar a participação, os alunos recebem cartões com QR Code, que podem compartilhar com amigos e familiares para divulgar suas produções. Os livros selecionados são impressos e passam a integrar acervos de bibliotecas vinculadas a museus e de bibliotecas públicas, como a Biblioteca Parque, ligada à Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro.

Os professores participantes também têm acesso a uma área exclusiva da plataforma, com materiais de apoio, planos de aula, vídeos educativos, apostilas e atividades para desenvolver com as turmas..


Uma viagem sem sair da escola

Em outra etapa, as turmas da escola de Giannis utilizaram óculos de realidade virtual para explorar ambientes como o Real Gabinete Português de Leitura, no centro do Rio, e o Louvre, na França. A atividade reuniu um espaço da própria cidade e uma instituição estrangeira cuja visita presencial seria pouco acessível aos estudantes.

Giannis também experimentou os equipamentos e acompanhou as reações das crianças. Uma delas ficou especialmente em sua memória: durante uma experiência virtual de safári, um estudante autista demonstrou entusiasmo com as imagens. “Ele ficou maravilhado”, recorda.

A escola de Angela participa do projeto desde a pandemia, quando as primeiras visitas virtuais reuniam professores e estudantes conectados pelos celulares dos familiares. Com a retomada das aulas, as turmas passaram a acompanhar as atividades também na Sala de Leitura, com projetor e notebook.

Angela recorda uma visita virtual ao Museu Afro Brasil que começou antes mesmo da apresentação do acervo: a mediação simulou o percurso de ônibus da escola até o aeroporto e, depois, uma viagem de avião até a capital paulista.

“Isso dá uma dimensão de que realmente a gente está se locomovendo, que a gente está saindo do nosso espaço”, conta.

Na chegada virtual ao museu, um representante da instituição acolhia a turma e conduzia a visita. A interação acontecia ao longo do encontro: os estudantes levantavam a mão, aproximavam-se do notebook e faziam perguntas, respondidas em tempo real. “As perguntas deles são valorizadas”, destaca Angela ao falar do acolhimento nas atividades do projeto.

Outros espaços, novas percepções

Giannis relaciona o envolvimento dos alunos a situações que já observou em outras saídas culturais. Em uma visita ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) com uma turma de 4º ano, uma exposição sobre povos pré-colombianos despertou especialmente a atenção de dois estudantes, de aproximadamente 9 e 10 anos. “Eles leram, mexiam, perguntavam tudo”, descreve.

Para o professor, a cena mostrou um interesse que precisa encontrar oportunidades para se desenvolver. Ele observa que as visitas também podem mudar o olhar dos educadores sobre os alunos. Estudantes que nem sempre se envolvem nas tarefas cotidianas demonstram curiosidade em outros ambientes e revelam características que a rotina da sala de aula nem sempre permite conhecer.

Essa participação, avalia, depende de apresentar os espaços culturais como parte das possibilidades de vida dos estudantes. Ao falar sobre o Rio de Janeiro, Giannis ressalta que a exclusão não se explica apenas pela distância: há comunidades em situação de vulnerabilidade próximas de instituições culturais, inclusive em regiões centrais. Ainda assim, mesmo quando a entrada é gratuita, crianças e jovens podem não se sentir convidados a frequentá-las.

“Eles acabam apartados por não se sentirem pertencentes, por não se verem tendo a possibilidade de ter acesso a esses espaços, por mais que sejam gratuitos”, afirma.

Grupo de estudantes e educadores posa com os braços levantados diante do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
Estudantes e acompanhantes se reúnem em frente ao Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro Crédito: Divulgação/Experimente Cultura

Apoio ao professor

O Experimente Cultura nasceu de uma dificuldade concreta: conectar escolas interessadas em visitar museus a instituições dispostas a recebê-las. Segundo Renata, a falta de transporte limitava esse encontro. “O Experimente nasceu como essa ponte”, resume.

Desde o início, a proposta também envolvia pensar como os conteúdos dos espaços culturais poderiam dialogar com o trabalho em sala de aula. A equipe conversa com os professores sobre os temas estudados pelas turmas e apresenta possibilidades de visita.

O apoio inclui materiais de boas-vindas, vídeos de preparação e uma área no site com planos de aula, atividades e outros recursos. Durante as experiências, os educadores contam com suporte para utilizar as ferramentas e acompanhar os estudantes. Depois, continuam com acesso aos materiais.

“A gente procura realmente facilitar a vida do professor, porque a gente sabe que é uma vida muito corrida”, explica Renata.

Na Thomas Mann, Giannis conta que o projeto chegou como uma atividade adicional ao planejamento. Ao longo do trabalho, identificou conexões entre as propostas e as habilidades previstas no currículo, tanto de forma direta quanto transversal.

Histórias que envolvem as famílias

As oficinas literárias ajudam a manter a relação com os museus entre uma visita e outra. Nas atividades voltadas aos anos finais do ensino fundamental, por exemplo, os estudantes escrevem sobre como seria trabalhar nos espaços que imaginaram. Para construir essas trajetórias, precisam conhecer profissões, descrever uma rotina e pensar nos estudos necessários para exercê-las.

Segundo a curadora, a proposta surgiu da curiosidade das crianças sobre o funcionamento dessas instituições. Muitas conheciam o educador que recebia a turma, mas não imaginavam a quantidade de profissionais envolvidos na pesquisa, na conservação e na apresentação dos acervos.

Na escola de Angela, três turmas criaram museus com temas diferentes: produções artísticas dos próprios estudantes, artes negras e livros assombrados. Além de escolher o que preservar, as crianças inventaram personagens, histórias e os elementos que compunham cada espaço.

Os textos são elaborados pelos alunos, enquanto ferramentas de inteligência artificial ajudam a criar imagens dos museus imaginados e dos estudantes nas profissões escolhidas. As produções são reunidas em livros e disponibilizadas em uma estante virtual. As turmas com os livros mais lidos recebem uma visita presencial, e as obras vencedoras são impressas e passam a integrar o acervo de uma biblioteca pública.

Esse processo também mobiliza os familiares, convidados a ler as histórias e conhecer os espaços criados pelas turmas. “Eles colocam a família na jogada”, diz Giannis. Assim, os estudantes passam a apresentar aos adultos um universo que também pode ser novo para eles.

Educador de camiseta azul conversa com estudantes reunidos em torno de uma mesa com materiais escolares.
Estudantes participam de atividade em grupo com acompanhamento de um educador em ambiente de aprendizagem do Experimente Cultura. Crédito: Divulgação/Experimente Cultura

Tecnologia para preparar novos encontros

As experiências digitais ganharam espaço no projeto durante a pandemia, quando escolas e museus estavam fechados. A equipe buscou instituições brasileiras e estrangeiras para organizar visitas virtuais com educadores. As perguntas das crianças sobre como eram os museus por dentro estimularam a procura por outros recursos, entre eles os vídeos em realidade virtual.

Com a retomada das atividades presenciais, essas ferramentas permaneceram na proposta. “Eu acho que elas se complementam”, afirma Renata. 

O contato digital pode despertar a curiosidade, apresentar conteúdos e ajudar o estudante a chegar ao museu com referências sobre o que encontrará. Ela recorda o caso de Nicolas, um dos estudantes escolhidos como embaixadores do projeto para compartilhar suas experiências com outras crianças.

Antes de conhecer o Museu do Amanhã presencialmente, ele explorou o espaço com óculos de realidade virtual. Ao entrar, reconheceu instalações e comentou conteúdos apresentados no vídeo. “Era como se ele já tivesse estado lá.”

Na avaliação da curadora, essa familiaridade ajuda a diminuir o receio de frequentar um lugar desconhecido. A mediação busca fazer com que os visitantes percebam relações entre o acervo e suas próprias histórias.

Mais do que despertar o interesse por uma visita, a intenção é ampliar as possibilidades que crianças e jovens enxergam para si: frequentar esses espaços, compreender suas narrativas e imaginar que também podem trabalhar neles. Como resume Renata, “esses conteúdos fazem parte da história delas, da minha, da sua e de todo mundo”.

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Estudante de Jornalismo e estagiária. Tem forte interesse em educação e cultura, atuando na produção de conteúdos para redes sociais e na cobertura dos temas educacionais.