Definida como o ato de estar junto em um relacionamento contínuo e harmonioso, a convivência é uma das palavras mais precisas quando se pensa no espaço escolar. Mas como garantir que ela ocorra de forma prática e respeitosa, a partir de soluções pensadas na sala da direção? Essa é a questão central do livro “Relações Interpessoais e Convivência Escolar: 10 Práticas de Gestores Brasileiros”, o mais recente lançamento do Instituto Unibanco.
Com 320 páginas e disponível gratuitamente na versão digital, a publicação reúne 10 projetos escritos pelos próprios diretores de escolas do Ceará, Minas Gerais, Tocantins, Maranhão e Rio Grande do Norte. A parceria técnica é do Porvir, que coordenou a edição, e da Baobá Educação, que gerenciou a implementação do projeto.
Apesar das diferentes realidades, todos os profissionais enfrentam problemas cotidianos comuns entre seus estudantes, como bullying (intimidação sistemática e constante), violência e baixa autoestima, além do clima institucional negativo e distanciamento da comunidade escolar. Em cada capítulo, os diretores compartilham as soluções encontradas para restaurar o ambiente e cuidar das pessoas envolvidas no dia a dia. Os textos são acompanhados de infográficos e sugestões de oficinas, adaptáveis a diferentes contextos.
🚸 Tire suas dúvidas e converse com outros educadores nas Comunidades do Porvir no WhatsApp
A obra é, acima de tudo, um convite de educador para educador. Cada capítulo traz a voz de gestores que transformam suas escolas em espaços mais democráticos e acolhedores, provando ser possível aplicar essas práticas em outras instituições.
“Este material não é apenas um registro de práticas, mas um chamado à ação. Ele mostra que a escola é um espaço profundamente humano, onde a convivência e o cuidado precisam orientar cada decisão. Ele expressa o compromisso de construir uma educação que acolhe, transforma e coloca as pessoas no centro”, afirma Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco.
Espaço de transformação
A publicação resulta do Edital de Práticas Gestoras, projeto-piloto do Instituto Unibanco realizado entre 2024 e 2025. O objetivo foi selecionar práticas de escolas públicas de ensino médio focadas na gestão das relações interpessoais e na criação de ambientes seguros.
Um júri avaliou as experiências e os desafios enfrentados pelos gestores para compreender dificuldades, avanços e aprendizagens. As práticas selecionadas foram sistematizadas neste livro para compartilhar soluções com gestores de todo o Brasil. Valquíria Parlagreco, coordenadora-geral do projeto, explica a filosofia da iniciativa: “O objetivo foi valorizar a prática do gestor como agente de transformação e garantir que o conhecimento gerado a partir das experiências dos gestores fosse reconhecido e compartilhado com outros profissionais da educação”.
A inspiração metodológica vem de fontes como as comunidades de práticas de gestão do Instituto Unibanco e estudos sobre a aprendizagem colaborativa, baseados em autores que discutem a cooperação no desenvolvimento profissional dos educadores.

Mentoria qualificada
Responsável pela gestão técnica em comunicação e produção editorial do livro, o Porvir fez a mentoria especializada para apoiar os diretores a escrever e a sistematizar suas práticas. O trabalho foi conduzido pelos jornalistas Ana Luísa D’Maschio, Ruam Oliveira, Tatiana Klix e Vinícius de Oliveira.
“O papel da mentoria foi atuar como interlocutor, promovendo um espaço de escuta ativa e reflexão crítica. Queríamos garantir que a escrita dos gestores refletisse a estratégia por trás de suas práticas, sem perder a autenticidade e a individualidade de cada história”, diz Vinicius de Oliveira, diretor do Porvir. Ele também destaca a importância do retorno avaliativo contínuo, que resultou em múltiplas reescritas e ajustes até que os relatos estivessem prontos.
Enquanto o Porvir cuidou da técnica, a Baobá Educação fez a gestão geral do edital, acompanhando o processo formativo com suporte emocional e logístico.
Claudio Eduardo Lima dos Santos, um dos gestores participantes, comentou: “A equipe foi acolhedora. Quando enfrentei um problema pessoal grave, senti que todos estavam preocupados com o meu bem-estar, o que fez diferença para eu continuar o trabalho”.
O projeto também se destaca pela liberdade narrativa, permitindo que cada gestor contasse sua história à sua maneira. Isso resultou em um livro com diferentes perspectivas sobre a gestão, mas com o propósito comum de melhorar a convivência e apoiar o desenvolvimento dos estudantes.

Parceria e formação
Durante oito meses, os gestores selecionados foram acompanhados por meio de uma bolsa, mentoria e encontros regulares. O Instituto ofereceu oficinas online com especialistas para fortalecer as habilidades dos diretores.
Os encontros abordaram temas como a construção de um ambiente respeitoso e o impacto das decisões no desenvolvimento dos alunos. Além disso, os participantes aprenderam a contar suas histórias de forma estratégica, utilizando escrita criativa, infografia e produção audiovisual. O último encontro destacou o papel das lideranças transformadoras na escola.
Conheça as escolas participantes de cada estado
Ceará: escuta ativa e participação
Na Escola Maria Thomásia, em Fortaleza, Francisca Moreira utilizou a mediação de conflitos e a escuta ativa para reconstruir o clima escolar após uma crise por denúncias de assédio sexual e protestos estudantis. “Eu me inscrevi no edital no último dia, com medo, mas depois veio um mundo de conhecimento”, relatou Francisca. Ela reforça a importância da prevenção: “A gestão da convivência deve ser como vacina, e não como remédio”, afirmando a necessidade de intervir antes que os problemas se tornem insustentáveis.
Também em Fortaleza, na Escola Dragão do Mar, Breno Marques focou no redesenho da cultura escolar para combater a evasão e o baixo desempenho. “Convivência é uma estratégia pedagógica”, define o gestor. Para ele, o senso de pertencimento dos alunos e a qualidade da relação com os professores foram fundamentais para a melhoria do ambiente.
Em Morrinhos, a Escola Maria José Magalhães, sob a direção de Kiana Santos, implementou o Radar das Emoções para lidar com os efeitos da pós-pandemia em alunos e professores. “Equidade não pode ser só um discurso, tem que ser prática”, sublinhou Kiana, ao destacar a relevância do acolhimento.
Já na Escola José Correia Lima, em Várzea Alegre, Pedro Lima baseou o projeto na “revolução silenciosa” para fortalecer a segurança, o protagonismo estudantil e a comunicação. A iniciativa restaurou o senso de pertencimento na unidade. “Hoje, temos uma escola extremamente atuante, os estudantes têm vontade de participar das coisas”, destacou o gestor.
Minas Gerais: protagonismo e pertencimento
Em Minas Gerais, três escolas mostraram como a escuta ativa e a integração comunitária podem transformar o ambiente escolar.
O CESEC (Centro de Estadual de Educação Continuada) José Américo da Costa, em São João del-Rei, único estabelecimento de EJA (Educação de Jovens e Adultos) da rede, utilizou a escuta ativa e o mapeamento de parcerias para os alunos se apropriarem dos espaços públicos e culturais da cidade. João Vitor de Souza Lopes, gestor da escola, ressalta a importância de valorizar a EJA e destaca uma urgência entre os educadores: “cuidar de quem cuida da escola”. Ao refletir sobre os desafios emocionais da profissão e a necessidade de um cuidado integral, ele afirmou: “A escola é a cara do gestor, mas os gestores estão muito doentes”.
Em Caratinga, na Escola Estadual Sinfrônio Fernandes, o Projeto Escuta Viva foi criado para suprir a falta de informações sistematizadas sobre os estudantes. Emanuel Dias, gestor da unidade, relatou o impacto da iniciativa em sua visão profissional: “Eu me sentia ‘o único doido’ por parar para ouvir cada aluno, mas o edital me mostrou que esse tipo de sensibilidade é necessário”. Além da escuta, o projeto adotou um sistema digital de gestão de dados que respeita a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Na Escola Estadual Guilhermino de Oliveira, em Contagem, o projeto “Diga Não ao Bullying: Porque Amar é Possível” combateu a evasão escolar e os conflitos internos. Wellington José Campos, gestor da unidade, define a estratégia por meio do conceito de afeto rigoroso, que alia acolhimento à cobrança. “Você não vai somente beijar e abraçar, tem de cobrar também”, afirmou Wellington, ao enfatizar a importância de responsabilizar os pais e promover uma mudança cultural na instituição.
Tocantins: diálogo e empatia
No Tocantins, o Colégio Estadual Floresta, em Paranã (distrito com apenas mil habitantes), ccriou o projeto “Conciliar, Eu Posso!” para enfrentar o aumento do bullying e dos conflitos pós-pandemia. A gestora Edileuza Araújo de Souza ressaltou que o acolhimento é o primeiro passo da gestão democrática: “A gestão começa no portão, com o bom dia e o abraço, conhecendo todos pelo nome”. Para ela, essas ações iniciais são fundamentais para fortalecer a resolução de conflitos e criar vínculos de confiança.
Maranhão: protagonismo estudantil e diversidade
Em São Luís, o Centro de Ensino Santa Teresa superou a baixa participação dos alunos e os conflitos internos ao incentivar o protagonismo juvenil. Paula Regina Oliveira, gestora da unidade, defendeu a dedicação à rede pública: “A escola pública não precisa de egos, precisa de pessoas que acreditem nela”. Com a criação dos Comitês Estudantis, a escola consolidou-se como espaço de escuta, corresponsabilidade e ação coletiva, o que fortaleceu a gestão democrática e a valorização da diversidade.
Rio Grande do Norte: reconstrução de vínculos
Cláudio Eduardo Lima dos Santos, da Escola Estadual Djalma Aranha Marinho, destaca o valor de gestos cotidianos no ambiente de ensino. Ele definiu sua atuação com simplicidade: “A minha prática, desculpem essas expressões, é uma prática fuleira. É basicamente reconhecer o outro, dar um bom dia, saber como o outro está, perguntar pela vida do outro para construirmos juntos”. Essa abordagem reforça o reconhecimento e a atenção mútua como pilares de um ambiente colaborativo, onde cada indivíduo se sente valorizado e parte do coletivo.
Gestão escolar democrática
João Marcelo Borges, ex-gerente de Pesquisa e Inovação em Políticas no Instituto Unibanco e especialista em políticas educacionais na FGV DGPE, explicou que a equipe concebeu a iniciativa como estratégia de desenvolvimento e valorização dos profissionais da gestão, tanto em instâncias regionais quanto nas secretarias. Segundo ele, havia uma preocupação especial com os diretores: por ser uma organização privada sem fins lucrativos, o Instituto não poderia oferecer progressão de carreira ou aumentos salariais.
A alternativa foi oferecer reconhecimento com base nas práticas e na capacidade demonstrada no exercício do cargo. O edital permitiu que educadores se candidatassem voluntariamente ao apresentar experiências relevantes de melhoria nas relações interpessoais. Os selecionados receberam uma bolsa e apoio especializado para sistematizar as suas trajetórias.
João ressalta que o objetivo superava a premiação. Embora o reconhecimento fosse importante, buscava-se, sobretudo, desenvolver a capacidade de os gestores refletirem sobre o próprio fazer. A sistematização permitiu que os participantes aprofundassem as razões de suas decisões e aprimorassem seus métodos.
Ao sistematizar, diretores e professores tornam-se autores de capítulos reconhecidos pelos pares. Isso gera um produto útil para toda a rede. “Não é apenas o reconhecimento de uma prática singular, mas a transformação dessa experiência em conhecimento, o que ajuda no desenvolvimento profissional de outros gestores pelo país”, afirma Borges.
A escolha do tema também responde às demandas do pós-pandemia. O período evidenciou como a interrupção do convívio afetou a socialização dos estudantes, o que exige novas estratégias para reconstruir vínculos e fortalecer interações saudáveis no ambiente escolar.
Jane Reolo Silva, coordenadora do Instituto Unibanco, moderadora do evento e ex-diretora na rede municipal de São Paulo, analisou o papel das práticas de convivência escolar na construção de uma gestão democrática nas escolas. Ela destacou que, embora a gestão democrática tenha sido formalmente estabelecida pela Constituição de 1988, essa prática ainda é recente e desafiadora na realidade educacional brasileira.
“A gestão na escola democrática é de 1988”, lembrou Jane, destacando que, antes dessa mudança, as escolas eram estruturadas de maneira autoritária, com práticas como punições físicas e estratégias de mando e obediência. Ela recordou uma época em que métodos como o uso de “ajoelhar no milho” ou palmatórias eram comuns. “Quem já não ouviu ‘no meu tempo era assim’?”, perguntou, refletindo sobre o quanto essas práticas punitivas marcaram gerações.
Jane também abordou um ponto fundamental: “Sabemos que 70% do tempo de um diretor é dedicado à gestão das relações interpessoais e à convivência na escola.” No entanto, ela observou que o campo nem sempre reconhece essas ações como parte da gestão escolar, já que a raiz educacional brasileira ainda carrega marcas autoritárias. Para ela, a gestão democrática deve ser construída com base em práticas de escuta ativa, acolhimento e na criação de um ambiente de respeito e empatia.
A especialista defendeu que, para superar o autoritarismo nas escolas, é essencial que as práticas sistematizadas de convivência integrem a bibliografia dos cursos de pedagogia.
Sobre o período do edital, Jane revelou: “Essa formação foi desafiadora, mas extremamente relevante, pois os gestores encontraram sentido no processo de transformação da convivência escolar”. Ela também os incentiva a perseverar, já que, muitas vezes, os diretores são os únicos agentes de mudança nas instituições.
“A humanização das relações beneficia a todos e reduz o adoecimento dos profissionais. As práticas (reunidas no livro) não são apenas modelos a serem seguidos, elas são uma base teórica sólida que será fundamental para a formação de novos educadores e gestores”, concluiu.

