Trabalho no Colégio Estadual do Campo Professor Eugênio de Almeida, uma escola da rede estadual do Paraná que fica às margens da BR-476, no distrito de Fluviópolis, em São Mateus do Sul. Estamos em uma região rural onde a erva-mate não é apenas parte da paisagem: ela organiza a economia local, integra as histórias das famílias e a cultura da região.

Aqui, meus alunos crescem ouvindo relatos dos avós sobre o tempo em que o transporte era feito a cavalo, aprendendo receitas guardadas em cadernos antigos e participando das festas religiosas da comunidade. Convivem com a diversidade cultural de povos originários, descendentes de escravizados e colonizadores poloneses e ucranianos. Ao mesmo tempo, transitam pelas redes sociais e pelas tecnologias digitais, conectando o campo ao mundo.

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Foi nesse cenário que comecei a me questionar sobre minha prática como professora de língua inglesa. Sempre me incomodou ensinar o idioma como algo distante da realidade dos estudantes, restrito ao livro didático e a exemplos que pouco dialogavam com o território onde vivemos. Eu queria que o inglês deixasse de ser apenas um conteúdo curricular e se tornasse uma ferramenta viva de valorização da identidade rural, capaz de traduzir nossas próprias histórias.

Hoje sou diretora da escola, mas, em 2024, com a turma do 9º ano, desenvolvi o projeto “Saberes e Sabores do Campo”. A proposta nasceu dessa inquietação: aproximar a língua estrangeira da realidade dos estudantes e mostrar a eles que o inglês também pode servir para narrar o que somos e o que construímos coletivamente. Clique aqui para conferir a sequência didática.

Inglês na escola do campo: conectando culturas e saberes

Eu também tinha o desejo de aproximar a escola da comunidade. Desejava que os estudantes percebessem que o inglês pode servir para contar quem somos, de onde viemos e o que valorizamos. Planejei a proposta alinhada à BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e às Diretrizes da Educação do Campo, pensando no desenvolvimento linguístico, mas também no fortalecimento da identidade, da cidadania e do pertencimento.

Desde o início, eu sabia que o projeto não poderia ficar restrito às aulas de inglês. Para que fizesse sentido, precisava envolver outras áreas e ampliar o olhar sobre o território.

Por isso, articulei o trabalho de inglês na escola do campo com os professores de história e geografia, que contribuíram para aprofundar o estudo sobre a formação cultural da região, os fluxos migratórios, o cultivo da erva-mate e as transformações sociais ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, o grêmio estudantil assumiu um papel ativo na organização das visitas às comunidades e na produção dos registros fotográficos.

Essa construção coletiva deu ao projeto um caráter interdisciplinar e ampliou o tempo dedicado à investigação. Com isso, conseguimos olhar com mais atenção para o município de Fluviópolis e para as 14 comunidades rurais do entorno, compreendendo suas histórias, espaços simbólicos e potencialidades de maneira mais aprofundada e significativa.

Clique na foto abaixo para ver a galeria de imagens:

Olhar histórico

Comecei com rodas de conversa sobre o que significa viver no campo. Falamos sobre a importância da erva-mate para a economia local, sobre as festas religiosas, as mudanças no transporte e na tecnologia. A partir dessas conversas, construímos um repertório em inglês ligado à vida rural, com palavras como community, ancestors, tradition, mate tea, crops, rural life, landscape e recipes. 

A gramática entrou como ferramenta para organizar essas narrativas. Trabalhamos o Simple Past e a estrutura used to para registrar memórias, comparativos para discutir transformações e o Present Simple para descrever costumes. Quando os alunos escreviam frases como In the past, people used to travel by horse, percebiam que estavam traduzindo a história da própria comunidade.

Conteúdo de InglêsExemplo de uso no projetoObjetivo cultural
Vocabulário temáticoCartões postais bilínguesValorizar espaços rurais e divulgar a riqueza cultural
Simple Past / Used toTradução de relatos dos avósRegistrar memórias e mostrar a evolução da vida no campo
Comparatives / SuperlativesComparação de receitas e práticasEvidenciar tradição e inovação no cotidiano rural
Present SimpleDescrição de rotinas e festasReforçar a identidade cultural e os costumes comunitários
Future with willReflexão final dos alunosMostrar que o campo dialoga com o mundo
Produção escritaTextos bilíngues expostos no seminárioTransformar saberes locais em registros valorizados
Produção oralApresentação dos cartões postaisDar voz aos estudantes como representantes da cultura rural
LeituraAnálise de textos turísticosRelacionar práticas locais a diferentes contextos culturais

Memórias que ganham outra língua

Um dos momentos mais marcantes foi o Seminário “Saberes e Sabores do Campo”. Convidamos avós e familiares para uma roda de conversa. Eles falaram sobre educação, saúde, transporte, tecnologia e sobre o cultivo tradicional da erva-mate. Os estudantes ouviram, registraram e, depois, transformaram essas memórias em textos bilíngues.

Também visitamos pontos turísticos, culturais e religiosos da região. Fotografamos paisagens e espaços significativos e, com esse material, os alunos criaram cartões postais bilíngues. Trabalhamos descrição em inglês e reflexão sobre como apresentar nossa comunidade para alguém de fora. Traduzimos receitas tradicionais, comparando cadernos antigos com versões digitais, mostrando como tradição e inovação convivem no campo.

O projeto culminou em uma exposição aberta à comunidade. Organizamos os cartões postais, as receitas traduzidas, as fotografias e objetos antigos trazidos pelas famílias. Os alunos fizeram apresentações orais em inglês, explicando os lugares visitados e as histórias registradas. 

Encerramos com um café comunitário preparado pelos próprios estudantes, com receitas ensinadas pelos avós. Foi um momento simples, mas cheio de significado. Ali, o inglês não era estrangeiro. Era ponte.

O que ficou dessa experiência

Ao longo do projeto, observei avanços na escrita, na oralidade e na confiança dos estudantes. Eles desenvolveram habilidades de pesquisa, registro fotográfico e produção bilíngue. Mais do que isso, passaram a enxergar o inglês como instrumento para valorizar a própria cultura.

Para a escola, o impacto também foi importante. Fortalecemos o vínculo entre gerações, ampliamos o diálogo entre disciplinas e deixamos como legado materiais culturais bilíngues que continuam sendo referência. Para mim, ficou a certeza de que ensinar inglês no campo não é trazer algo de fora, mas construir pontes entre o território e o mundo. Quando a língua dialoga com a identidade, o aprendizado ganha sentido e a escola se consolida como espaço de memória, cultura e futuro.

Relação com a BNCC

O projeto “Saberes e Sabores do Campo” está alinhado à BNCC ao promover o uso da língua inglesa como prática social significativa, conectada à realidade dos estudantes. A proposta mobiliza competências gerais como o conhecimento (1), ao articular saberes locais e globais; o pensamento crítico e criativo (2), ao refletir sobre transformações no campo; a comunicação (4), por meio da produção oral e escrita em língua inglesa; e a responsabilidade e cidadania (10), ao valorizar a cultura e a identidade local.

No componente curricular de língua inglesa, o projeto dialoga com habilidades como a produção de textos em diferentes gêneros (EM13LGG403), a utilização da língua em contextos reais de comunicação (EM13LGG401) e a análise de práticas culturais em diferentes contextos (EM13LGG402).

Além disso, a proposta se articula com história e geografia ao abordar processos de formação cultural, memória e território, promovendo uma aprendizagem interdisciplinar e contextualizada.

Professora de Inglês da Rede Estadual de Ensino desde 2004, atua no Colégio Estadual do Campo Professor Eugênio de Almeida, onde foi eleita diretora escolar em 2025. Desde 2009, desenvolve e coordena projetos sociais e educacionais, entre eles o Cine...

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