Na Bett Brasil, procura por educação maker se mostra mais qualificada - PORVIR
Crédito: SDI Productions/iStock

Inovações em Educação

Na Bett Brasil, procura por educação maker se mostra mais qualificada

Mesmo com menos estandes sobre o tema do que nas edições anteriores, expositores contam que escolas passaram a procurar por atividades mão na massa com mais objetividade

por Ana Luísa D'Maschio / Beatriz Cavallin / Mariana Rossi ilustração relógio 17 de maio de 2022

Em um estande, o clássico “Os Três Porquinhos” ganhou releitura com um quarto animal, cenários feitos de palito de sorvete, palha e pedaços de placas emborrachadas e coloridas. Em outro, uma maquete simulava um abalo sísmico para testar qual construção, a de madeira ou a de isopor, manteria-se em pé com os tremores ativados por uma placa Micro:bit. Em um terceiro espaço, a fila para uma oficina criativa com materiais recicláveis tinha espera de mais de uma hora. Nela, o participante poderia criar o que quisesse e levar o objeto como recordação. 

O que pode parecer a descrição de uma feira de ciências ou de uma aula STEAM (acrônimo em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), na verdade fez parte da exposição do Mundo Maker, da Zoom Education for Life e da Faber-Castell, respectivamente, durante a Bett Brasil, feira de inovação e tecnologia realizada em São Paulo entre os dias 10 e 13 de maio. 

O Porvir aproveitou o evento para conversar com as empresas e alguns visitantes, a fim de entender como tem sido a procura pela educação mão na massa na retomada às aulas presenciais. 

Mais entendimento sobre o conceito

Fabio Zsigmond, presidente do Mundo Maker, já participou de edições presenciais anteriores da Bett Brasil e fez os cálculos: em 2018, viu 27 estandes com nome “maker”; em 2019, eram 23. Neste ano, o número é menor, cerca de dez – o que não é motivo de preocupação, diz ele. “É algo positivo, porque vemos um trabalho mais consistente. Nos anos anteriores, muita gente achava que o maker era uma tendência e colocava o nome em qualquer coisa. Hoje, o público em geral está mais consciente do que é um programa maker dentro da escola”, conta.

Fabio também ressalta o interesse dos visitantes, em sua maioria gestores de escolas privadas (ao contrário das edições anteriores, com mais educadores), em entender o que se pode fazer usando a educação maker: um segundo passo, não mais na curiosidade inicial sobre o que é a metodologia. “Para mim, é um sinal de que o maker já está dentro do ecossistema de educação e as pessoas já sabem um pouco da potência e do quanto ele pode ser útil para a escola. Não é simplesmente montar uma coisa. Ouvimos perguntas sobre os motivos de uma atividade maker ser qualificada, por atuar muito além da parte técnica.”

Um aspecto da abordagem é ser um caminho para a interdisciplinaridade, e isso vale para as situações dentro e fora da escola. “Na vida real, as coisas não acontecem com divisão: um problema de matemática, uma questão de português. Quando você vai enfrentar algum tipo de problema, fora da escola, ele é multidisciplinar”, destaca. “Os desafios mão na massa também são interdisciplinares por aproximar muito mais a realidade da vida e do mundo”, complementa. 

Os projetos maker costumam ser alinhados às competências e habilidades da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), e muitos componentes curriculares podem ser facilmente trabalhados em uma atividade multidisciplinar, comenta Fabio. Um exemplo é a trilha de aprendizagem de “Os Três Porquinhos” exibida no espaço do Mundo Maker: ali, o trio virou quarteto para trabalhar língua portuguesa, história e até matemática com os anos iniciais do ensino fundamental.  

O enfoque na relação socioemocional, inclusive, é um dos diferenciais da educação mão na massa. “Nela, você trabalha com desenvolvimento humano em várias dimensões. Como vou me relacionar com as pessoas com quem trabalho e comigo mesmo? Como vou lidar com a frustração? Como vou colaborar com outras pessoas? O ponto de partida é que todos queremos trazer ideias para o mundo, de algum jeito, de diferentes tamanhos e em qualquer época da vida”, exemplifica o especialista.

Clique na imagem abaixo para ver a galeria de fotos:

Desenvolvimento integral

A busca por experiências com habilidades socioemocionais ganhou destaque nesta edição da Bett Brasil, concorda Carolina Luvizoto, gerente de educação da Faber-Castell. “Sentimos aqui na feira que, pós-pandemia, as escolas vieram com sede para o mão na massa, com uma procura mais objetiva por atividades maker ou de aprendizagem criativa, para ajudar a criança e o jovem a prototipar e, também, a se desenvolver integralmente”, afirma.

Quando se olha para a cultura maker, para o processo de aprendizagem criativa ou para abordagens que trabalham com resolução de problemas, a interdisciplinaridade ganha destaque, aponta Carolina. “Para um projeto de história, eu preciso ter habilidades de leitura, por exemplo. Nunca se trata de um só componente curricular, mas sim desse compartilhamento. A grande sacada (do mão na massa) é mostrar aos educadores que tratar de diferentes disciplinas, acessar habilidades de diferentes componentes curriculares, é algo benéfico, importante para a carreira, não algo a mais que tenham de fazer”, comenta.

Por isso, é preciso quebrar paredes, mostrando ao educador que ser interdisciplinar ou transdisciplinar pode transformar sua prática pedagógica, reforça a gerente da Faber. “Uma vez que o educador incorpora isso, fica muito mais fácil fazer com que as crianças se engajem e se envolvam mais. O processo de aprender se torna mais prazeroso”, diz Carolina. Tanto que a oficina maker oferecida pela marca foi uma das atividades mais procuradas pelos visitantes nos quatro dias de feira: estima-se que quase 4 mil pessoas tenham participado. 

Tecnologia e criatividade

Renata Violante, gerente de educação da Zoom Education for Life, tem a mesma impressão de Fabio e Carolina no sentido de que os dois anos de afastamento da escola aceleraram o desejo dos professores em levar práticas diferenciadas para a sala de aula. Tanto que a empresa, voltada a soluções digitais e metodologias ativas ligadas à BNCC para todas as etapas de ensino, apostou na apresentação das máquinas de fabricação digital, como corte a laser e impressoras 3D em seu estande. 

“Entendemos que há escolas que já tem uma certa cultura maker e precisam conhecer novos recursos. Saber como funciona uma impressora 3D e o que é possível desenvolver nela, por exemplo, apoia o aprendizado e o desenvolvimento das habilidades dos alunos”, conta Renata, reforçando que o conceito maker está mais perto do que se pensa. “Uma das  máquinas expostas em uma ilha aqui no estande teve problema e conseguimos resolvê-lo com os recursos que tínhamos em mãos, inclusive com a impressora à laser. Não foi uma gambiarra, foi uma resolução de problemas”, brinca.

Renata cita uma frase de Lino de Macedo, professor da USP (Universidade de São Paulo) e especialista em pedagogia do desenvolvimento: a ciência é lógica, mas o cientista é lúdico. 

“A educação maker vai nesse caminho, é quase um estado de espírito. Trata-se daquele cara que diz: ‘eu vou resolver esse problema aqui com os materiais que tenho em mãos’. É uma pessoa entusiasmada, otimista, que se permite errar. E é isso que o maker precisa despertar nos estudantes”, finaliza. 

O que dizem os visitantes

“Trabalhamos com educação infantil e levamos a educação maker aos alunos por meio de projetos lúdicos. Acreditamos na importância da aprendizagem significativa, na qual tudo o que os estudantes façam deve trazer sentido e o resultado tenha um objetivo final, de acordo com cada faixa etária. Viemos para a Bett Brasil atrás de ideias, para saber mais sobre as novidades na área na educação infantil.” 
Erika Witkowski, diretora pedagógica da Escola Probei, em Santo André (SP).

“Aqui na Bett Brasil, pesquiso para aprimorar as minhas atividades e fazer uso das tecnologias na sala de aula, para que a gente não desaprenda tudo o que precisou aprender na correria, à época da pandemia. A faixa etária dos meus alunos é a faixa etária digital e eles amam! Quero trazer o digital para que a gente possa caminhar juntos, fazendo a leitura de mundo que eles fazem, utilizando as ferramentas que eles utilizam.”
Geilza Nascimento, professora de língua portuguesa da Rede Adventista, em São Paulo (SP)

“Costumamos levar bastante a educação mão na massa para a sala de aula. Duas vezes por ano, no mínimo, temos eventos nos quais os alunos produzem conteúdo e o exibem para o público. O primeiro bimestre é voltado para a pesquisa. No segundo bimestre, os alunos já começam a desenhar mais ou menos o que eles vão colocar na mostra, que chamamos de ExpoPiaget. Dos cartazes aos podcasts, eles produzem tudo. Neste ano, vamos trabalhar os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e a Agenda 2030 da ONU (Organização das Nações Unidas). Viemos à Bett Brasil para saber mais sobre a inovação no ensino atual e no ensino do futuro também. Aqui, conseguimos ver inovações e tendências para levá-las à escola.”
Lailla Rosa, gestora do colégio Jean Piaget, em São Vicente (SP).

“Essa feira está incrível, com tecnologia muito presente em todos os estandes. É a primeira vez que viemos, estamos gostando muito. Tem muita coisa no mercado de educação que não conhecemos e é maravilhoso acompanhar a evolução da educação.”
Jaiçara Souza, professora de educação infantil da escola Mundo Kids, em Araraquara (SP).

“A educação maker faz parte de algumas aulas e atividades práticas que a escola desenvolve. No ensino médio, temos a disciplina ‘Jovem programador, jovem cientista’, que trabalha com programação e cultura maker. Também desenvolvemos projetos que envolvem a mão na massa, com professores de diversas áreas. Vamos levar algumas ideias vistas aqui na Bett Brasil para a escola, como a gamificação.”
Natalia Moterani, coordenadora na Escola Cooperada Nova Geração, em Birigui (SP). 

“Trabalhamos com bebês e crianças e no nosso cotidiano usamos muito a educação maker, justamente pelas atividades sensoriais. Inclusive na introdução alimentar: a fatia de laranja com água, para criança sentir a textura e o sabor, o macarrão e os grãos como recursos para sentir essa textura… As crianças estão o tempo todo em contato com materiais reutilizáveis também.”
Natalia Machado, coordenadora pedagógica da Creche Professora Luciene Glória de Andrade Nascimento, em Cruzeiro (SP).


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cultura maker, educação mão na massa, mão na massa, tecnologia

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