Algumas descobertas na matemática foram feitas com base na necessidade. Foi porque precisava representar determinados objetos (como ovelhas ou pessoas) por meio de outros objetos (como pedras e pedaços de madeira), que a humanidade descobriu que havia algo em comum entre “duas pedras” e “duas pessoas”; Assim surgiu o conceito de número.
Outras, por sua vez, surgiram devido às circunstâncias. Em 1637, quando um tipógrafo foi compor a impressão do livro “A geometria”, de René Descartes, notou que alguns tipos (letras) estavam acabando. Como o filósofo e matemático francês disse não se importar se ele usaria x, y ou z para representar as incógnitas, o tipógrafo resolveu priorizar o x nas equações, pois as letras y e z eram mais usadas em palavras em francês. Assim surgiu “o x da questão”.
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Quem conta essas histórias é Marcelo Viana, professor do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) em seu livro “Histórias da Matemática – da contagem nos dedos à inteligência artificial”, publicado pela editora Tinta da China Brasil.

Nesta coluna de estreia de “Na Estante do Porvir”, espaço que se dedicará a apresentar livros que tanto podem ser usados para ampliar o repertório de educadores, quanto para auxiliar na elaboração de ideias aplicáveis na sala de aula, o livro de Marcelo aparece como um bom exemplo para ambos os casos.
Com uma proposta de alcançar tanto quem já está inserido no universo matemático, quanto os não iniciados, o livro é uma organização de crônicas publicadas pelo diretor-geral do Impa no jornal Folha de S. Paulo. E são muitas as histórias reunidas.
Para começo de conversa
Há ainda no senso comum uma certa ideia de que matemática não é para todas as pessoas. No entanto, as histórias aqui narradas por Viana trazem uma nova perspectiva. Para os educadores que sentem dificuldade em engajar os estudantes, iniciar a aula contando um fato histórico pode fisgar a atenção primária dos alunos, fazendo-os ver a matemática como algo para além dos problemas insolúveis ou difíceis demais de resolver.
Começar uma aula contando aos alunos o quanto a observação do corpo humano foi fundamental para o desenvolvimento da matemática pode ser um caminho. A contagem nos dedos tem uma forte contribuição no que passou a ser entendido como número. Outro exemplo é a palavra “dígito”, que significa “dedo” em latim e é usada para representar algarismos.
Esse despertar para fatos curiosos pode atingir tanto estudantes, quanto professores que ensinam matemática e que querem conhecer mais sobre seu campo de atuação.
O que interessa a seus alunos ?
Uma das estratégias de engajamento mais bem-sucedidas para quem está na sala de aula é partir de algo que seja do interesse da turma antes de ingressar em temas mais densos ou complexos.
Apesar de ser um livro com muitas questões matemáticas, as crônicas também fazem uma ponte com outros saberes científicos. Nesse contexto, ao invés de começar a aula destrinchando o modelo quântico do átomo de hidrogênio proposto pelo dinamarquês Niels Bohr, que tal apresentar à turma seu irmão mais novo, Harald, que não só tem trabalhos importantes no campo da teoria dos números, como também foi artilheiro da seleção de futebol dinamarquesa?
Nomes conhecidos como Pitágoras, Newton e Fibonacci aparecem em muitas histórias apresentadas por Viana. Assim como outros bem menos conhecidos da grande maioria das pessoas, sobretudo mulheres como Hipátia de Alexandria, celebrada como a primeira matemática da história; a astrônoma, paisagista e historiadora Sophia Brahe, irmã mais nova de Tycho Brahe, último grande astrônomo antes da invenção do telescópio; Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, cientista, marquesa e primeira mulher a ter um ensaio científico publicado pela Academia de Ciências da França. E tantas outras que tiveram seus trabalhos ofuscados devido a preconceitos de gênero.
(Este apagamento de mulheres matemáticas também aparece na crônica “Para acabar com o efeito Matilda”, p. 163)
Passado e presente matemáticos
Enquanto fatos históricos podem servir de base para iniciar assuntos, as crônicas também trazem subsídios para contextualizar acontecimentos do presente. Viana volta ao século 12 para resgatar a origem da palavra algoritmo, tão comum nos dias de hoje. “Inicialmente, ‘algoritmo’ se referia ao estudo do sistema decimal de numeração criado pelos hindus, mas seu sentido evoluiu muito ao longo dos séculos (…)”, escreve o autor.
Daí ele parte para acontecimentos do século 20 e 21 e como hoje eles se aplicam a conceitos da computação e tecnologia, como as redes neurais, por exemplo, e a inteligência artificial.
É possível usar o livro em sala de aula?
Este é um exemplo de interdisciplinaridade entre literatura, ciências e tecnologia. As histórias da matemática apresentadas neste livro podem ser lidas e debatidas, em conjunto ou individualmente, com a turma. Seja em um clube de leitura ou em uma aula expositiva, se amparar em conteúdos históricos pode dar mais espaço para que novas perguntas apareçam.
Não se trata de tornar a matemática apenas lúdica e divertida (algo que nem sempre é possível), mas de garantir que essas histórias aparentemente anedóticas sirvam como método de fixação para determinados conceitos.
Para quem tem a missão de ensinar matemática, as crônicas podem ampliar o espectro de temáticas a serem abordadas em sala de aula, possibilitando que novas ideias de como apresentar conceitos complexos de forma diferenciada surjam a partir das leituras.
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