O que falta para articular prática e teoria nos cursos de licenciatura - PORVIR
Crédito: Anna Usova/iStockPhoto

Inovações em Educação

O que falta para articular prática e teoria nos cursos de licenciatura

Estudo mapeia o que há de mais atual nos currículos e nas metodologias dos cursos de formação inicial pelo mundo; conheça o exemplo de uma instituição brasileira que se aproxima da Base de Formação

Parceria com Instituto Península

por Maria Picarelli ilustração relógio 9 de março de 2021

A experiência internacional aponta para uma tendência de articulação entre teoria e prática como um dos eixos da formação inicial de professores. Em países como o Chile, Estados Unidos e em várias partes do mundo, cursos de pedagogia e licenciatura se ancoram em estágios, muitas vezes, ao longo de toda a formação.

Além disso, nesses locais, a base teórica dialoga com a experiência que os professores em formação têm nas escolas. Esses são alguns dos aspectos da apresentados na nota técnica “Formação Inicial de professores: Uma visão para a construção de propostas pedagógicas orientadas para a prática”, lançada pelo Instituto Península.

O estudo reúne evidências para fomentar o debate sobre um novo olhar para os cursos de pedagogia e licenciatura, alinhado com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores, aprovadas em 2019 e que devem funcionar como base para a reestruturação dos cursos de pedagogia e licenciatura no país. Antes das Diretrizes, em 2018, foi aprovada a BNC (Base Nacional Comum para a Formação de Professores). Ambas estão alinhadas com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), modo que a formação de professores se articule com o que se espera da formação dos estudantes.

➡️ Conheça a série do Porvir sobre Formação de Professores

Nesse sentido, as Diretrizes estabelecem, entre outros pontos, uma carga horária de 3.200 horas, um perfil de egresso baseado em competências e enfatiza currículos baseados na prática e no conhecimento pedagógico do conteúdo (ou seja, como ensinar o conteúdo).

Em contrapartida, no Brasil, os cursos de pedagogia e licenciatura estão distantes desse modelo, pois tendem a enfatizar o conhecimento teórico, muitas vezes desarticulado da prática, como mostram pesquisas coordenadas por Bernadete Gatti. Com base na análise dos currículos de 71 cursos de pedagogia, a pesquisadora mostrou que, em 2010, os fundamentos da educação correspondiam a 27% dos currículos. Em 2015, subiram para 36%.

Para Alice Carraturi, doutora em educação pela USP (Universidade de São Paulo) e organizadora da BNC, as Diretrizes e a Base da Formação caminham na direção de experiências internacionais bem-sucedidas, especialmente no que diz respeito a uma visão mais profissional do trabalho do professor – diferentemente da percepção de que ser professor é uma vocação, defendida por muitos.

Em outros países, a prática não se resume ao estágio nos moldes dos cursos de pedagogia e licenciatura brasileiros: ela acontece ao longo de todo o curso, a partir do momento em que o estudante ingressa na faculdade, num modelo que se aproxima da residência, praticada nos cursos de medicina.

Em instituições como a Pontifícia Universidade Católica do Chile, destaca Alice, o currículo é voltado para a prática. “O professor precisa aprender o que vai ensinar, como vai ensinar e como o aluno pensa e aprende”, afirma. Nesse sentido, na universidade, as disciplinas teóricas não passam de 15% do currículo, enquanto no Brasil chegam a 75%, comenta a pesquisadora, que participou da elaboração da nota técnica. “Existe um preconceito que a prática não ensina a pensar, como se pensar e fazer fossem atividades apartadas uma da outra”.

Existe um preconceito que a prática não ensina a pensar, como se pensar e fazer fossem atividades apartadas uma da outra

Na visão de André Raabe, professor e pesquisador da Univali, em Itajaí (SC), a necessidade de mais prática nos cursos de licenciatura é grande e é um avanço que a base tenha incluído a ênfase na prática. “Tradicionalmente, temos uma formação muito teórica e também temos muita dificuldade na obtenção de estágios, de que os estudantes tenham uma prática transformadora”.
Ele lembra que é um desafio proporcionar estágios de docência a todos, especialmente nos cursos a distância, em que é necessário atender a um grande número de estudantes. “Também é um desafio que a prática não seja desassistida, que tenha intenção pedagógica. Essa relação entre universidades e as redes, especialmente as públicas, precisa ser mais bem regulamentada”, analisa Raabe.

No Chile
Na experiência chilena, a ênfase na prática consiste em permitir que os estudantes tenham vivência da sala de aula e da escola desde o primeiro semestre. “O professor que está em formação precisa ter contato com a atividade real para ser capaz de responder a um problema prático”.

O professor orienta, o aluno aplica na escola onde faz o estágio e dá a devolutiva do que deu certo ou errado

Outro ponto importante é que o estágio é bem orientado, afirma organizadora da BNC. “O professor orienta, o aluno aplica na escola onde faz o estágio e dá a devolutiva do que deu certo ou errado”. Outra característica é a articulação entre o professor que orienta o estágio e o professor da escola onde o estudante faz o estágio. “Os dois são corresponsáveis pela formação”.

Além do Chile, a “experiência da escola real” está presente na formação de professores em países como Israel, Finlândia, Austrália e Estados Unidos. Nos Estados Unidos, o chamado modelo Step, sigla de Stanford Teachers Education Program (Programa de Formação de Professores da Universidade de Stanford), que busca o equilíbrio entre teoria e prática, aplicando a primeira para resolver desafios que surgem no dia a dia, é uma fonte de inspiração para instituições de ensino em várias partes do mundo.

Um caso brasileiro
Trazer abordagem para a realidade brasileira envolve uma série de desafios, como revela a experiência da Faculdade Wlademir dos Santos, em Sorocaba (SP). Desde 2016, a instituição mantém um curso de pedagogia organizado em módulos numa proposta que se alinha com os princípios que nortearam a Base da Formação.

O curso prevê atividades de estágio desde o primeiro semestre, realizadas em escolas privadas e públicas do município e integradas às aulas, no período noturno. Os estagiários recebem uma bolsa.

“Durante quatro anos, nossos estudantes passam de 4 a 6 horas por dia numa escola, vivenciando a realidade como ela é”, conta Maura Maria Moraes de Oliveira Bolfer, coordenadora da faculdade.

Por isso, o curso exige dedicação integral dos alunos. Em contrapartida, a formação articula a teoria e a prática, permitindo que os estudantes compreendam e analisem suas experiências à luz do conhecimento teórico. Maura dá um exemplo: ao analisar um planejamento de aulas do professor da escola onde fazem estágio, os estudantes são instigados a perceber as metodologias de ensino embutidas no planejamento, as concepções de ensino e aprendizagem.

Cada módulo é composto por cinco disciplinas e cada uma delas é ministrada em um dia da semana. Assim, as aulas são mais longas do que o usual, o que favorece a utilização de metodologias ativas e, mais uma vez, a articulação entre teoria e prática.

Os docentes da faculdade são professores ou passaram pela educação básica e têm pós-graduação, ou seja, também eles articulam teoria, pesquisa e prática. “Isso é importante porque os alunos têm nos professores um modelo de como atuar quando estiverem formados”, analisa Maura.

A proposta, porém, esbarra em alguns obstáculos, como por exemplo, o fato de ser período integral, o que destoa da maior parte dos cursos de pedagogia e licenciatura.
Nesse sentido, Raabe destaca que um dos problemas centrais é a cultura estabelecida. Para isso, os professores que atuam nas licenciaturas precisam receber o apoio necessário para oferecer atividades práticas mais conectadas com o sistema educacional.

“Toda mudança precisa ser feita com critério e cuidado, portanto essa incorporação não deve ser de modo radical. Ela deve ser gradativa e de modo que os cursos tenham condições para incorporar as mudanças”, aprofunda Raabe. Tão importante quanto incorporar a prática aos cursos, são os mecanismos de gerenciamento e acompanhamento factíveis e realistas no curto, médio e longo prazo. Em educação as mudanças não acontecem de uma hora para a outra”, conclui.

Leia mais:
Pesquisa identifica as preocupações dos professores para a volta às aulas presenciais
Manual orienta escolas para retomada e reforça potência de aulas ao ar livre
Guia de acolhimento traz questionário para apoiar escuta de professores
Mesmo sobrecarregado com aulas remotas, professor acha tempo para desenvolvimento profissional

Quer saber mais sobre desenvolvimento integral do professor?
Clique e acesse

Instituto Península

TAGS

desenvolvimento integral do professor, ensino superior, formação inicial, personalização

1
Deixe um comentário

avatar
500
1 Comentários ao conteúdo
0 Respostas a comentários
0 Seguidores
 
Comentário com mais reações
Comentário em alta
1 Autores
Napoleão Araujo Quem acabou de comentar
  Acompanhar a discussão  
Mais recentes Mais antigos Mais votados
Tipo de notificação
Napoleão Araujo
Visitante
Napoleão Araujo

Um absurdo escancarado, querer transferir para os alunos a incapacidade dos docentes em preparar condignamente seus alunos. Aí, começam a inventar estratégias miraculosas para justificarem o injustificável. Com raras exceções os professores estão despreparados, desqualificados para a função do magistério.