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Diário de Inovações

Professora monta cápsula do tempo para crianças acompanharem seu crescimento

Em Campinas (SP), turma de educação infantil estudou metamorfose da borboleta para compreender a passagem do tempo

por Daniela Lazarini ilustração relógio 18 de dezembro de 2019

A questão do tempo sempre foi um assunto muito presente na educação infantil, nas falas, questionamentos, histórias e brincadeiras. Conhecendo a importância do tempo, a Escola 14 Bis, em Campinas (SP), desenvolveu a sua mostra de projetos do ano em torno do tema “Quanto tempo o tempo tem?”, que buscou compreender a importância do tempo como marcador em nossas vidas e como entra na rotina em sala de aula.

Empolgados com o tema, os estudantes da educação infantil começaram a ter muitos questionamentos sobre o passado e presente, horários do lanche, parque, quanto tempo faltava para o dia do brinquedo e principalmente “quando iriam ficar grandes”. Esse último questionamento foi o que me motivou a criar o projeto metamorfose.

Este projeto lida com o tempo de uma maneira mais ampla, compreendendo o fenômeno e o sentido figurativo da metamorfose da borboleta, descobrindo como o tempo transforma o mundo que nos cerca, nossas memórias, nossos dias, as estações, e amplia nossa história, tornando nossa vida uma evolução infindável, uma eterna metamorfose.

A proposta foi uma compreensão da evolução de cada criança, comparando com a evolução física da borboleta, realizando uma exposição contextualizada ao final do ano, procurando buscar o entendimento das crianças sobre a identidade, origem, evolução e os próprios sonhos, buscando sempre a reflexão sobre a diversidade e criatividade.

Quando vemos uma linda e maravilhosa borboleta voando quase nos esquecemos o quanto ela lutou para conseguir ser o que ela é. Antes de tudo, era uma pequena lagarta, muitos não tinham expectativas sobre ela, não achavam que ela era importante, mesmo assim, ela nunca desistiu e continuou se esforçando e aprendendo.

O mesmo acontece com as crianças, nascem indefesas em um mundo de adultos ocupados, tornam-se crianças sempre em busca de aprendizagem e se esforçando para crescer e quando crescem se transformam em adultos com personalidades distintas, sonhos e pensamentos que foram interiorizados durante toda a vida.
É com essa abordagem que começo meu projeto, no começo do semestre. Criamos uma cápsula do tempo, em que os alunos guardaram desenhos e fotos do primeiro mês de aula e barbante com a altura deles.

Guardamos essa cápsula dentro de um armário. Certamente, ao final do projeto estariam maiores e poderiam abrir e ver nas fotos o quanto cresceram e quanto tempo se passou desde que desenharam naquelas folhas.

Muito ansiosos sobre quanto tempo levaria para a cápsula novamente, começaram novos questionamentos sobre o tempo. Eles queriam saber, por exemplo, sobre os bebês, foi aí que pedi fotos de quando eram bebês.

Trabalhamos com o livro “Guilherme Augusto Araújo Fernandes”, que mostra a importância das memórias e como um menino, com esse nome, saiu perguntando para todos do asilo “o que era uma memória”.

Os alunos não se lembravam de nada do que aconteceu antes de nascerem ou quando eram bem pequenos, então confeccionamos uma cesta de memórias com papel, cola e bexiga, depois decoramos de forma bem criativa. Solicitei aos pais o envio de uma lembrança bem especial da infância dos alunos.

A lembrança da infância, junto com sua história e as fotos de bebês representou o ovo da lagarta. Para fechar esta etapa da vida, confeccionamos um ovinho dentro de uma caixa (individual).

A próxima etapa trabalhada foi a lagarta, representando o momento atual de cada um deles. Trabalhei sobre o gosto individual, identidade e história das suas famílias. Para isso, confeccionamos um vaso da família. Procuramos galhos pela escola e colamos a foto de cada membro da família ou o desenho de cada um deles.

Além de trabalhar a história de vida das crianças, no final do semestre abrimos a cápsula do tempo para mostrar o quanto elas evoluíram do começo do ano até o fim do semestre. Os desenhos estavam mais coloridos, tinham mais formas do que quando colocaram inicialmente, eles estavam maiores, muitos já não usavam mais chupetas e fraldas. As crianças ficaram muito impressionadas do quanto evoluíram.

Fechei essa etapa confeccionando uma lagarta com caixas de ovos, olhos móveis e eles a deixaram bem colorida. Pintaram a folha com giz de cera e colaram a foto deles atualmente.

Faltando um mês para a mostra cultural solicitei aos pais que confeccionassem com as crianças uma borboleta de material reciclável, poderiam usar a imaginação e deixá-la bem colorida. Quando as borboletas começaram a chegar, questionei as crianças sobre o fim da metamorfose da borboleta, a transformação da lagarta, o casulo, e o que eles achavam sobre isso. Muitos disseram que queriam crescer, poder dirigir e trabalhar depois que saíssem dos “casulos”.

Para encerrar o projeto da metamorfose fizemos uma brincadeira de “faz de conta”. Anteriormente, eu tinha perguntado o que cada um queria ser quando crescesse. Anotei e trouxe todos os acessórios (jalecos, estetoscópio, maleta de dentista, giz, cadernos e lupas) para eles entrarem na brincadeira do futuro, eles se transformaram em médicos, dentistas, professores, biólogos, médicos veterinários e até mamães. Tirei fotos deles fantasiados e anexei com a borboleta, confeccionadas pelos pais, representando assim a última etapa da metamorfose da borboleta.

Percebi que após esse projeto eles passaram a interpretar o tempo de uma maneira mais concreta, o ontem, hoje e amanhã passaram a fazer mais sentido comparando com o ciclo da borboleta, passaram a entender um pouco mais sobre a identidade, perceberam que existem muitas histórias diferentes na sala, que cada um é único e possui seu próprio tempo de transformação.


Daniela Lazarini

Professora de educação infantil na Escola 14 BIS. Neuropsicopedagoga, graduada em pedagogia pela Universidade Paulista- UNIP , pós graduada em psicopedagogia clínica e institucional e neurociência aplicada à educação pelo Instituto Brasileiro de Formação de Educadores - IBFE. 

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aprendizagem baseada em projetos, educação infantil