Programa de férias faz crianças evoluírem 1,3 ano de escolaridade em matemática, indica estudo - PORVIR
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Inovações em Educação

Programa de férias faz crianças evoluírem 1,3 ano de escolaridade em matemática, indica estudo

Em 10 dias, alunos de escolas públicas tiveram contato com um jeito de aprender matemática mais colaborativo e criativo que aposta na autonomia para a resolução de problemas

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 18 de agosto de 2020

Ter contato com a matemática por meio de desafios, em grupos conversando com os amigos e de um jeito contextualizado sem dúvida é mais divertido. E também dá resultado. De acordo com um estudo recém-divulgado pelo Instituto Sidarta, alunos de 5º ano do ensino fundamental que participaram do curso de férias do programa Mentalidades Matemáticas em janeiro de 2020, portanto, antes da pandemia, conseguiram um ganho de 1,3 ano de escolaridade em conceitos matemáticos em apenas 10 dias.

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Ao todo, 70 estudantes de escolas públicas foram testados antes e depois do curso de férias. A evolução de 1,3 ano  é correspondente ao padrão americano, calculado a partir do desempenho em uma avaliação formativa que também é adotada pela Universidade de Stanford em contextos semelhantes nos Estados Unidos.

Chamado de MARS (Mathematics Assessment Resource Service), esse modelo avaliativo cobra do aluno a aplicação de um conceito aprendido dentro de um novo contexto. Além disso, é necessário explicar o raciocínio por escrito. Por outro lado, a correção inclui uma escala de pontuação que é realizada por um grupo externo, ou seja, não envolveu os professores que aplicaram o curso de férias.

Duas crianças jogam jogo de tabuleiro em uma mesaCrédito: Divulgação

Crianças durante atividades do curso de férias

Para além dos conceitos, alunos também aumentaram o gosto pela matemática e reduziram o nível de ansiedade com a disciplina. Quase todos os participantes (96%) compreenderam que errar faz parte do processo de aprendizagem, um dos principais focos do programa.

Esses dados foram obtidos de um questionário com os alunos, em escala likert (no qual alunos identificavam o nível de concordância com uma afirmação), para avaliar a relação com a matemática e os conceitos do programa. Outro ponto de destaque foi o fato que, em média, as meninas tiveram avanço 3,5 vezes maior do que o dos meninos.

Mas o que faz a abordagem do programa diferente da aula tradicional? A chave do Mentalidades Matemáticas, segundo Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, está em uma abordagem mais aberta, criativa e visual, que engaja cada aluno na construção do seu raciocínio matemático.  “Nesse processo de investigação, a heterogeneidade de olhares dos alunos frequentemente contribui para uma visão mais completa do problema e por consequência uma melhor solução.  Outro componente importante é apoiar os alunos a estabelecerem relações e conexões entre ideias matemáticas – um conceito fundamental para entender a matemática de forma mais profunda”, afirma.

📺 Assista à apresentação do estudo sobre o programa Mentalidades Matemáticas

“Ensinamos os alunos a interpretar diferentes métodos e a enxergar diferentes matemáticas”, disse ack Dieckmann, diretor de pesquisa da plataforma YouCubed da Universidade Stanford. “Os meninos não estão apenas recebendo, mas criando matemáticas”. Durante as atividades, todos eram encorajados a se movimentar e discutir com os colegas diferentes soluções, formular hipóteses e novas perguntas.

O curso de férias foi o primeiro contato de alunos de escolas municipais de Cotia (SP) com esse jeito diferente de aprender matemática. A abordagem de ensino foi criada pela professora Jo Boaler, da Universidade Stanford. Em 2016, o Instituto Sidarta passou a aplicá-la no Brasil, no Colégio Sidarta e na Escola Estadual Henrique Dumont Villares, na capital paulista.

Os resultados do estudo, segundo Ya Jen, mostra que a matemática pode ser aprendida por crianças de diferentes contextos, inclusive em escolas públicas. “Até o momento, nossas experiências em escolas públicas, têm mostrado que todas as crianças podem ter ganhos de desempenho com esta abordagem mais inclusiva, independentemente do histórico com a matemática.  As evidências também mostram ganhos significativos para todos os alunos, quando planejamos e ensinamos a matemática com a premissa de que é possível dar um acesso mais equitativo para a disciplina”.

Vídeo com crianças que participaram do curso

Matemática para o novo momento
Em um momento em que escolas discutem o que manter no currículo e como promover uma aprendizagem diferenciada neste ano atípico, Ya Jen reforça as qualidades do programa que seguem por um caminho diferente em relação à tradicional memorização de fórmulas. “A abordagem colaborativa do Mentalidades Matemáticas tem por objetivo fortalecer comunidades de aprendizagem. As propostas promovem trocas entre as diferentes perspectivas dos alunos para a resolução do problema. Alunos frequentemente trabalham em pequenos grupos e, muitas vezes, conseguem ajudar seus colegas a esclarecerem dúvidas com um alto grau de autonomia”.

Neste processo o professor também assume um outro papel, que vai além daquele que entrega a solução pronta para o problema. “O professor só é acionado quando não conseguirem resolver o problema, mesmo depois de discutirem entre membros do grupo. O exercício de argumentar e defender ideias matemáticas, traz ganhos no aprofundamento do raciocínio lógico tanto para o aluno que explica quanto aquele que questiona”.

Ao privilegiar a aprendizagem entre pares, diz Ya Jen, o Mentalidades Matemáticas procura transmitir uma mensagem importante de que os alunos são os principais atores de sua jornada como aprendizes. “Frente ao momento que estamos, o fortalecimento de uma comunidade de aprendizagem pode ser um mecanismo potente para inserir todos os alunos como protagonistas de seu percurso educacional”.

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Confira abaixo, no canal do Itaú Social no YouTube, uma palestra de Joe Boaler, professora da Universidade Stanford que criou a abordagem Mentalidades Matemáticas. Ela explica a relação da neurociência com a maneira que aprendemos os conceitos matemáticos. 


TAGS

aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, autonomia, ensino fundamental, neurociência

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