Quando uma enchente, uma tempestade ou uma onda de calor impede uma escola de funcionar, o impacto vai além dos dias sem aula. A interrupção pode afetar a frequência dos estudantes, reduzir o tempo de aprendizagem e, em situações mais graves, dificultar o retorno à escola.
Em 2025, esse problema atingiu mais de 171 milhões de estudantes da educação infantil ao ensino médio em todo o mundo — cerca de um em cada dez alunos dessa faixa educacional. O dado faz parte de uma análise do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), lançada na quinta-feira (10), sobre interrupções escolares relacionadas ao clima em 106 países e territórios. O relatório está disponível em inglês.
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Tempestades tiveram o maior alcance, afetando 109 milhões de estudantes, seguidas por inundações, com 70 milhões, e ondas de calor, com 50 milhões. Além da suspensão das aulas, os eventos extremos provocaram danos a escolas, redução do tempo letivo, queda na frequência e adoção temporária do ensino remoto.
No Brasil, ao menos 745 mil crianças e adolescentes tiveram as aulas interrompidas em algum momento do ano por eventos relacionados ao clima.
Diante de um cenário em que emergências climáticas podem alterar a rotina escolar por dias ou até meses, cresce um desafio para escolas e redes de ensino: como se preparar antes que a crise aconteça e reduzir seus impactos sobre estudantes, profissionais e a aprendizagem?
É nesse contexto que ganha importância a construção de escolas resilientes, preparadas para identificar riscos, reduzir vulnerabilidades, organizar respostas a emergências e planejar a continuidade ou a retomada das atividades pedagógicas.
Escolas Resilientes
Em 2024, o Porvir publicou uma série especial de reportagens sobre escolas resilientes, mostrando como comunidades escolares têm criado estratégias para enfrentar desafios ambientais, sociais e territoriais. A iniciativa foi reconhecida pelo prêmio internacional de jornalismo da organização Covering Climate Now, que destaca coberturas sobre mudanças climáticas.
Como escolas podem se preparar para eventos climáticos extremos
O planejamento começa antes da emergência
A preparação para eventos climáticos extremos começa pelo reconhecimento dos riscos de cada território. Durante a formação, Carol Campos, do Vozes da Educação, propôs que escolas e redes façam um autodiagnóstico em quatro eixos: infraestrutura, acolhimento, continuidade pedagógica e comunicação.
A partir desse levantamento, a orientação é elaborar um plano de contingência que estabeleça responsabilidades e procedimentos para antes, durante e depois de uma emergência.
Plano de contingência define responsabilidades e respostas
O documento deve prever, por exemplo, como manter contato com as famílias, acolher estudantes, garantir atividades pedagógicas em caso de suspensão das aulas e acionar instituições como Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e serviços de saúde.
“Não é um plano de gaveta, é um plano que eu sei quem faz o quê, em que momento, e a gente forma as pessoas para que elas possam fazer o que deve ser feito”, afirmou Carol.
Formação e articulação fortalecem a resposta da escola
A especialista reforçou que a preparação precisa acontecer antes da emergência, com ações de prevenção, redução de vulnerabilidades, formação das equipes e articulação de redes de apoio.
“Eu não consigo evitar a catástrofe, mas eu consigo minimizar os efeitos dela”, resumiu.
Assista à formação completa “Educação Resiliente – El Niño”
Materiais de apoio para preparar escolas
Escolas e redes de ensino podem encontrar guias e orientações para transformar essas recomendações em ações concretas. O Porvir reuniu sete materiais sobre preparação para emergências climáticas, elaboração de planos de contingência, infraestrutura, acolhimento, comunicação e continuidade da aprendizagem.
Guias para elaborar planos de contingência
PLANCON Escolar — Guia para Elaboração de Planos de Contingência Escolares para Eventos Climáticos
É o material mais operacional para a escola. Orienta a elaboração de um plano de contingência para eventos como inundações, enxurradas, vendavais, chuvas intensas e granizo. Organiza o trabalho em 19 etapas, cobrindo o que fazer antes, durante e depois de uma emergência, incluindo identificação de riscos, definição de locais seguros, sistemas de alarme, evacuação, acolhimento, continuidade educativa e simulações.
Foi desenvolvido pela Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, com apoio do Instituto Alana e assessoria técnica do Vozes da Educação.
Traz uma perspectiva voltada às redes de ensino e às políticas públicas. As recomendações envolvem governança e responsabilidades institucionais, financiamento e infraestrutura resiliente, equidade e justiça climática, além de currículo, práticas pedagógicas e formação docente.
O documento foi produzido pelo Todos Pela Educação em parceria com o Vozes da Educação e apoio da B3 Social.
Coleção Educação e Emergências Climáticas
Voltada à Amazônia Legal, a coleção Educação e Emergências Climáticas reúne cinco cadernos produzidos pelo Consórcio Amazônia Legal em parceria com Instituto Unibanco, Unicef e Vozes da Educação.
Volume 1 — Fundamentos conceituais
Apresenta fundamentos e diretrizes para compreender as emergências climáticas no contexto educacional, fortalecer a resiliência das escolas e proteger o direito à educação diante de situações adversas.
Volume 2 — Logística e Infraestrutura
Reúne orientações para a preparação material e operacional das escolas e redes de ensino diante de emergências, com foco em logística e infraestrutura.
Volume 3 — Acolhimento e Apoio Psicossocial
Aborda estratégias de acolhimento e apoio psicossocial para construir respostas que considerem as necessidades de crianças e adolescentes em situações de crise.
Volume 4 — Comunicação em Contextos de Crise
Apresenta orientações para a comunicação antes e durante situações críticas, com foco na circulação de informações que promovam segurança e confiança entre escola, famílias e comunidade.
Volume 5 — Continuidade Pedagógica e Recomposição das Aprendizagens
Discute como manter ou reconstruir o processo de aprendizagem depois de uma emergência, incluindo continuidade pedagógica, recomposição das aprendizagens e reconstrução de vínculos e rotinas escolares.
Para ouvir: conhecimentos tradicionais sobre clima e território
A série especial “Vozes do Clima”, do ISA (Instituto Socioambiental), aborda os impactos do El Niño a partir das experiências de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
No primeiro episódio, participam Tépãncipa (Clarindo Chagas), benzedor e conhecedor do povo indígena Tariana, e Nicéia Santos, liderança do Quilombo Maria Rosa (SP). A apresentação é do comunicador Raimundo Quilombola, do Maranhão.

