Protagonismo estudantil abre espaço para projetos sobre gênero na escola - PORVIR
Esther Moreno / Canva

Inovações em Educação

Protagonismo estudantil abre espaço para projetos sobre gênero na escola

Ao colocar os estudantes no centro do debate e ouvi-los atentamente, a escola pode facilitar o debate sobre gênero e sexualidade de maneira que faça mais sentido para a turma

por Ruam Oliveira ilustração relógio 28 de junho de 2022

Nem sempre é a escola quem “puxa” as principais conversas sobre gênero. Muitas vezes, o cotidiano dos estudantes faz com que eles próprios insiram debates que consideram relevantes dentro do ambiente escolar. 

Entender a escola como algo que não está dissociado da sociedade é fundamental para compreender essas relações. Em algumas situações, as demandas e maneiras de ver o mundo que os alunos e alunas têm podem passar longe e despercebidas da gestão e do corpo docente. O que fazer nesses casos? A resposta mais simples e imediata é: dar ouvidos ao que os estudantes têm a dizer

Junho é o mês da visibilidade e orgulho LGBTQIA+. Assim como assuntos relacionados à mudanças climáticas e privacidade, questões de identidade são uma das pautas de maior relevância para as novas gerações. E a escola precisa estar aberta para a conversa. Esta é, também, uma forma de trazer o protagonismo para os jovens. 

Muitas vezes o que acontece, porém, é que os estudantes não se sentem seguros para compartilhar ou apresentar trabalhos com essa temática, explica Jaqueline Gomes de Jesus, professora de psicologia do IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro) e da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). 

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“É preciso que este não seja um tema temporário ou que dependa somente da iniciativa dos estudantes. A instituição deve criar ações que permitam que eles se sintam livres para poder apresentar e discutir as suas perspectivas”, afirma Jaqueline. Ela também considera que, na maioria das vezes, os alunos têm mais conteúdo que o próprio corpo docente: “É muito importante que haja de fato um engajamento da escola, da direção, dos demais professores, dos técnicos para que o estudante se sinta seguro para abordar a temática”, diz. 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Educação Básica, produzido pela ONG Todos pela Educação em 2021, projetos envolvendo temáticas de combate à homofobia eram realizados em apenas 26,1% das escolas. O número fica abaixo apenas de projetos relacionados ao machismo, que representaram 15,8%. Bullying e educação ambiental são os temas recordistas de projetos nas escolas, ambos com mais de 70% de respostas positivas. 

A instituição deve criar ações que permitam que eles se sintam livres para poder apresentar e discutir as suas perspectivas

Protagonismo

O Porvir ouviu três escolas que abrem espaço para que suas turmas possam se expressar no que se refere a gênero e sexualidade. É assim na EMEB (Escola Municipal de Ensino Básico) Getúlio D. Vargas, em Novo Hamburgo (RS). A proposta pedagógica da escola acontece por meio das pesquisas, nas quais grupos de estudantes selecionam um tema específico e contam com o apoio de um professor orientador. 

Neste âmbito surgiu o “Love is Love: Toda forma de amar”. Idealizado por três estudantes do 8º ano, o projeto teve impacto em toda a turma, como destaca a professora Fernanda Gisela Soares, que atua na disciplina de Articulação dos Saberes nos 6° e 7° anos e é orientadora do projeto de pesquisa. 

“O projeto ‘Love is Love’ começou no segundo semestre do ano passado, e impactou bastante os adolescentes da nossa escola, pois a homotransfobia é um assunto que precisa ser debatido. Com a pesquisa, vimos que os adultos não foram educados sobre o assunto, o que faz com que o diálogo em casa não ocorra”, comenta. “As questões religiosas também impactam as conversas familiares a respeito deste tema. Os estudantes indicaram que têm medo de tocar no assunto gênero/sexualidade em casa, com medo da violência e de incompreensão familiar, o que gera muitas dúvidas e angústias. Eles também apresentam curiosidade com relação à sua sexualidade, e nós estamos conversando sobre o assunto”, acrescenta a professora. 

O projeto, liderado pelos estudantes Isabella Glitz Kaefer, João Renato Matias de Oliveira e Lara Pereira Hahn, concentra-se na identificação e diferenciação entre gênero e sexualidade e aborda aspectos como identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico, por exemplo. Além de exemplos sobre as diferenças da sigla LGBTQIA+, a pesquisa também aponta para contextos históricos do debate sobre sexualidade.

“Depois do projeto, o assunto começou a ser mais falado na escola e os alunos começaram a se sentir mais confortáveis para falar sobre isso”, comenta Lara. João complementa a opinião da colega, explicando que a escolha do tema também se deu a partir de uma leitura e percepção sobre si mesmos. Eles criaram um perfil no Instagram para falar sobre o projeto.

Apresentação do projeto “Love is Love: Toda forma de amar”.

Esse cenário de abertura em relação ao tema nem sempre é a regra. Jaqueline comenta que muitos educadores ainda não querem abordar temas associados a gênero, questões étnico-raciais e sexualidade, por exemplo, por virem de uma criação mais conservadora e restritiva, em um tempo que a escola não abordava temas de cidadania. 

“Muitas vezes se reforçava a cultura do estupro, de violência, de assédio e naturalização de bullying. Este é um momento diferente: contamos com o apoio da comunidade para que os professores que têm iniciativas se sintam mais livres para atuar, e consigam engajar a direção e os demais colegas nesse trabalho. É importante que seja um trabalho coletivo dentro da escola e junto à comunidade”, reforça Jaqueline. 

Formação e participação docente

A necessidade de formação e informações para tratar sobre o tema, por vezes, dificulta que eles sejam abordados no âmbito escolar. No entanto, existem algumas estratégias possíveis para projetos que discutam identidade e gênero cheguem às escolas. 

“Eu tinha muito medo de tocar naquele [ponto] que não é o meu lugar de fala. Aí, eu fui ler bastante”, comenta a professora Raquel Melilo, professora da educação básica no Colégio Mangabeiras, em Belo Horizonte (MG) e doutoranda em ensino de geografia. O receio acontece porque ela se identifica como uma mulher branca, heterossexual e cisgênero – pessoas que se identificam com o gênero que foram designadas ao nascer. Ela explica, porém, que as leituras a fizeram ampliar o olhar sobre essa questão. 

Como exemplo, Raquel cita textos e entrevistas da escritora Helena Vieira, pesquisadora, transfeminista e consultora. “Ela comenta um pouco sobre essa coisa do lugar que a gente fala e sobre só quem está naquele lugar da violência poder falar. Ela diz: ‘quando a gente morre tanto, qualquer fala que coloca em evidência essas violências que sofremos é uma oportunidade de salvar vidas'”, lembra a professora. 

A fala de Helena trouxe a Raquel também certa consciência a respeito de não repetir preconceitos. A educadora comenta que essa reflexão fez com que ela entendesse que, apesar de não viver diretamente as violências sofridas pela população LGBTQIA+, ainda que sofra violências de gênero por ser mulher, qualquer pessoa deve estar atenta aos sofrimentos que essa população passa. 

Segundo o Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil, em 2021, 316 pessoas LGBTI+ morreram de forma violenta no país. Esse número representa um aumento de 33,3% em relação aos dados de 2020.

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O projeto da professora Raquel chama-se “Cartografia da violência contra pessoas trans – o alvo e o avesso“, e assim como o “Love is Love“, foi premiado no Criativos da Escola, em 2021. Dos projetos recebidos, 24% deles combatem preconceitos por meio da valorização das diferenças e 11% tratam especificamente da questão LGBTQIA+, aponta o relatório divulgado pela instituição. 

A construção do projeto organizado por Raquel, no entanto, teve participação engajada da turma. Antes de tratar sobre a temática LGBTQIA+, a professora havia realizado um projeto semelhante sobre cartografia voltada aos povos indígenas. Com a possibilidade de abordar um novo tema dentro da eletiva, ela sugeriu aos estudantes que uma nova cartografia da violência fosse feita, sempre levando em consideração populações e grupos sociais marginalizados socialmente. 

Entre as opções de projeto estavam povos indígenas, refugiados e população LGBTQIA+; e a turma escolheu realizar uma cartografia da violência de pessoas trans, sobretudo mulheres trans.

“Quando comecei a investigar essa violência, escutei uma narrativa de uma mulher trans que sofreu uma violência absurda: ela foi impedida de ir ao banheiro no shopping. Jamais pensei que alguém seria violentado dessa forma porque eu, como mulher branca, consigo acessar vários lugares. É muito triste saber que algumas pessoas vão ser violentadas ao usar o banheiro”, comenta Raquel.

Via de mão dupla

Existe o caminho no qual os professores trazem a pauta para a turma, quando os estudantes trazem a pauta para os professores e também quando a realidade deles se impõe de tal maneira que tanto corpo docente quanto alunos reconhecem a urgência de tratar sobre esse tema. 

Foi assim com a turma do professor Thiago de Lima, da Escola Técnica Estadual Nelson Barbalho, que fica em Caruaru (CE). Além de dar aulas de matemática e física, o educador também atua com projetos temáticos. Ao perceber que em sua turma do 3º ano de ensino médio 50% dos alunos eram da comunidade LGBTQIA+ e grande parte da escola não sabia lidar com o tema, entendeu que era momento de juntar forças. 

A vivência de uma aluna trans na escola, a Ivy, foi o ponto de partida para trabalhar com essa questão. Com seus registros ainda no sexo masculino, a aluna precisava reforçar, diariamente, inclusive com professores, o direito de ser tratada como uma pessoa trans. 

Tendo em vista essa necessidade, o projeto “LGBTQIA+ na escola: Todxs as alternativas” foi tomando forma. Além de formações, o professor organizou, junto aos alunos da comunidade LGBTQIA+ da escola, uma série de entrevistas e podcasts. As temáticas eram sobre desmistificar assuntos como orientação sexual, identidade de gênero, o significado de cada letra da sigla, entre outros pontos. 

Thiago conta que esse movimento o fez perceber que havia uma falta de informação não só da parte dos estudantes, como também da gestão e do corpo docente. “A reação maior foi com a gestão e com parte da secretaria por conta de alguns entraves em relação à transexualidade de Ivy”, comenta o professor.

Esses entraves estão relacionados à aderência ao nome social dela nos registros, por exemplo. “Foram dois anos para mostrar que não precisava ter uma identidade em registro, que ela se considerava mulher e havia o constrangimento de, na chamada, precisar responder pelo nome morto”, conta Thiago. Nome morto é a maneira como se refere ao nome dado às pessoas trans ao nascimento, com o qual não se identificam mais. “A gente lutou para que ela tivesse o nome social, mesmo que sem registro, para que ela não precisasse passar por esse constrangimento.” 

Nem sempre tais assuntos surgem dos próprios estudantes. E é nessa via de mão dupla que os educadores também podem atuar. Por também fazer parte da comunidade LGBTQIA+, Thiago conta que os alunos se sentiam mais à vontade para conversar com ele, e até vê-lo como referência. “Para mostrar que é possível um homossexual ser um professor, ter uma graduação… Porque a gente sabe que eles se sentem abandonados, incentivados, em muitos casos, para a prostituição e a trabalhos que não são legais”, comenta o professor. O projeto dele também foi premiado em 2021 no Desafio Criativos na Escola e inspira a turma a criar novos canais de comunicação, como explicam as alunas no vídeo abaixo.

Orientação e debate

Aproximadamente 20 milhões de pessoas no Brasil se identificam como LGBTQIA+, uma população que está exposta à violência, não apenas física, como também psicológica. A maioria das denúncias recebidas pelo Disque 100, setor de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos, em 2017, foi devido a isso. Dados do ministério apontam, ainda, que a LGBTFobia é a terceira maior causa de bullying.

A professora Raquel menciona que a turma dela recebe e trata o assunto de maneira positiva. Mas ela faz um alerta: entre os estudantes, há, por vezes, uma necessidade de se auto rotular porque, dentro do cotidiano da escola, essa é uma forma de lidar com a sexualidade. “Eles têm necessidade de pertencimento a um grupo. Estar dentro da sigla para alguns não é o suficiente, mas eles têm muita vontade de identificar a letra da sigla ao qual fazem parte”, afirma.

Por comporem o cotidiano de uma parcela dos alunos, as temáticas acabam engajando com mais facilidade. “Temos percebido que temas como deficiências físicas, preconceito, identidade de gênero, migrantes, problemas emocionais e familiares são os escolhidos pela maioria dos grupos, principalmente no período pós-pandemia”, afirma a professora Fernanda, de Novo Hamburgo. 

No caso da escola dela, que trabalha com os projetos do ponto de vista da pesquisa, as discussões sobre os diversos temas são sempre muito amplas. “Debatemos estes temas em todas as aulas, ao longo da montagem e execução das pesquisas. São momentos em que os estudantes podem falar sobre os problemas, identificá-los na escola e propor soluções para os conflitos”, diz. “As demandas dos estudantes só podem ser percebidas se a escola tiver um espaço de escuta e acolhimento. Nós temos por prática ouvi-los, e os estudantes têm abertura para relatar os problemas ao professor com quem mais se identifica, pois trabalhamos em conjunto. A orientação educacional precisa ser efetiva e ter um canal aberto de diálogo com os adolescentes“, complementa Fernanda. 


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ensino fundamental, ensino médio, equidade, gênero

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