Pela primeira vez na história, os jogos da Copa do Mundo Feminina foram transmitidos ao vivo na televisão aberta. Apesar da seleção brasileira de futebol feminino marcar presença desde a primeira edição do evento, que aconteceu há 28 anos, na China, desta vez os jogos conseguiram atrair muito mais holofotes. O momento também reforça a necessidade de levantar o debate sobre futebol e gênero na escola. Como aproximar as meninas do esporte e desconstruir estereótipos que cercam a modalidade? Para tratar essa questão, o Porvir conversou com educadores e especialistas de programas educacionais esportivos.
“O esporte feminino brasileiro está em alta”, garante Vanderson Berbat, diretor do Impulsiona, programa de educação esportiva do Instituto Península que, em parceria com o MEC (Ministério da Educação), oferece formações para professores e coordenadores pedagógicos diversificarem modalidades na escola e trabalharem competências por meio do esporte. No entanto, ele reconhece que ao mapear o contexto da educação física escolar no Brasil, a discussão sobre gênero no esporte ainda é uma questão desafiadora para muitos educadores.
Estimular a participação das meninas obrigatoriamente passa por mudar a dinâmica das aulas, mas como fazer isso? O que fazer para que os meninos também respeitem o espaço delas durante as atividades esportivas? É possível começar um trabalho com equipes mistas? Essas são apenas alguns dos questionamentos que surgem entre os educadores durante as aulas de educação física.
Além de destacar que a prática do futebol feminino na escola deve ser promovida de forma intencional, Vanderson destaca que os professores também podem identificar oportunidades que extrapolam os horizontes da quadra. “Podemos trabalhar a temática em outras disciplinas. A temática do esporte que é muito atraente para estimular que os professores possam tratar gênero com os alunos”, menciona.
Com esse foco, a equipe do Impulsiona desenvolveu o conteúdo pedagógico “Esporte não é coisa de menina?”, que aborda a desigualdade no esporte e também aponta exemplos de mulheres que estão se destacando no meio. Disponível de forma gratuita plataforma do programa, o material é recomendado para professores de ciências humanas ou linguagens do ensino fundamental 2 ou ensino médio.
Duas semanas antes do início da Copa do Mundo de Futebol Feminino, o conteúdo pedagógico voltado para essa temática recebeu o dobro de acessos diários em relação aos demais meses do ano. De acordo com dados cedidos pelo Impulsiona ao Porvir, a partir de junho professores de ambos os sexos passaram a consumir o conteúdo na plataforma (51% feminino e 49% masculino), tendo como os principais estados de origem Bahia, Minas Gerais e São Paulo.
“Como o professor usa ações do cotidiano para tornar as aulas mais atraentes? Estamos falando de Copa do Mundo Feminina, e o Brasil tem uma seleção madura para jogar. Esse tema deve ser trabalhado nas escolas não apenas com a oferta do esporte, mas como valor e competência”, diz o diretor do Impulsiona.
Nos programas e projetos desenvolvidos pela Fundação Gol de Letra, que tem atuação na Vila Albertina, em São Paulo (SP), no Caju e na Barreira do Vasco, no Rio de Janeiro (RJ), o trabalho com turmas mistas de meninos e meninas também é uma das ações que ajuda a promover a equidade na prática de diferentes modalidades, como basquete, vôlei e futsal. Apesar da prática gerar uma resistência inicial de alguns meninos, o educador esportivo Mauricio Amatto menciona que isso muda quando durante as atividades eles começam a entender que elas também têm o direito de estar na quadra. “Eles precisam entender que a turma é mista e que as meninas também têm o direito.”
Para trabalhar a temática, a organização também desenvolve ações direcionadas para a discussão sobre gênero e sexualidade no esporte, como é o caso do projeto Sexualidade em Ação, que oferece oficinas educandos da Fundação, assim como alunos e professores de escolas públicas da região da Vila Albertina (SP), e do projeto Gol pela Igualdade.
Nas atividades, são trabalhadas questões como desigualdade de gênero, estereótipo de gênero, liderança e protagonismo feminino e o espaço ocupado por homens e mulheres no esporte. “Ultimamente, temos trazido bastante a reflexão sobre a Copa Feminina, o espaço na mídia para elas, quais investimentos foram feitos [nas modalidades femininas] e a diferença desses investimentos”, descreve Juliana Cristina Santos, educadora social da Fundação Gol de Letra. De acordo com ela, também é importante mostrar referências para a turma. “Uma ação que estamos fazendo durante as nossas atividades é trazer figuras inspiradoras, pensando nessa questão da representatividade.”
A educadora social Mallena Sales Gomes ainda ressalta que, durante as atividades, os professores devem estar sempre atentos para acompanhar como as meninas estão participando. “Estão jogando? Estão tocando a bola para elas?”, exemplifica. “Quando trabalhamos gênero, trazemos essas questões para que meninas e meninos reflitam.”

