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Diário de Inovações

Alunos criam livros e debatem ausência de negros na literatura

Após terem contato com literatura africana, alunos criaram livros digitais e compartilharam selfies nas redes sociais com os seus trechos favoritos

por Isaias dos Santos Ildebrand 6 de janeiro de 2016

Quando fizemos uma análise dos livros de literatura infantil que tínhamos na escola, percebemos que era possível encontrar poucos personagens negros nas histórias. A partir do questionamento sobre essa ausência, desenvolvemos o projeto “E-books Digitais: representações da identidade negra a partir da Literatura”, que envolveu os alunos do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual La Salle, de Campo Bom, no Rio Grande do Sul.

O projeto surgiu com o intuito de sanar a falta de conhecimento de uma cultura de grande respaldo no Brasil. Durante sete meses, os alunos do ensino médio se aproximaram da literatura africana e foram estimulados a conhecer inúmeros aspectos relacionados à pluralidade cultural. Percebendo a ausência de protagonistas negros nas histórias infantis, eles começaram a desenvolver livros digitais para os alunos do quinto ano. As produções traziam a temática da identidade negra, a fim de promover a quebra de estereótipos, preconceitos e o conhecimento de discursos ideológicos e históricos.

Antes de iniciar a confecção dos livros, foram estipuladas algumas regras: as personagens principais deveriam ser negras; a história não precisava ser baseada em discursos reflexivos sobre o preconceito racial, mas também poderiam ser contos de fadas, histórias de super-heróis, fatos cotidianos, entre outros; os livros teriam que ser doados ao quinto ano das séries iniciais; todos deveriam conter no mínimo oito laudas; a construção poderia ser individual e coletiva, desde que todos participassem igualmente da produção; no final do processo, deveríamos escolher, de forma democrática, um nome para a coleção de e-books.

diario_inovacoescrédito: Divulgação

Enquanto fazíamos a produção dos livros, também desenvolvemos outros projetos que buscavam estimular o processo de percepção da identidade negra, segregação e preconceito. Fizemos um debate informal na sala de aula sobre cotas raciais, realizamos uma leitura cinematográfica do filme “A Cor Púrpura”, dirigido por Steven Spielberg, e produzimos resenhas opinativas.

A coleção produzida pelos alunos foi chamada de “Identidades”. A criação dos textos e montagem das páginas aconteceu nas aulas de língua portuguesa. Como não tínhamos como usar mais de dois notebooks para realização do projeto, tivemos que adaptar os desenhos e as laudas à mão. Concluída a confecção, digitalizamos as páginas na escola.

Percebendo que os alunos utilizam as redes sociais diariamente para postar selfies, após a finalização da leitura “As Aventuras de Ngunga”, do escritor angolano Pepetela, propus que eles fizessem um Selfie Literário, incluindo na legenda da foto um trecho marcante da leitura. A fim de também promover o interesse dos amigos virtuais pela leitura, selecionamos três hashtags: #AsAventurasdeNgunga, #LitetaruraAfricana e #SelfieLiterária. No início, eles ficaram um pouco tímidos porque sempre compartilham selfies da mesma experiência, eles sozinhos ou eles e os amigos. Depois, muitos relataram que as pessoas fizeram comentários perguntando sobre os livros.

Vale lembrar alguns trechos do livro que foram escolhidos pelos alunos: “Mais uma vez Ngunga jurou que tinha que mudar o mundo. Mesmo que, para isso, tivesse de abandonar tudo o que gostava”; “Se Ngunga está em todos nós, que esperamos então para o fazer crescer?”; “Quero ver o mundo”; “Um homem tinha nascido dentro do pequeno Ngunga”; “Ngunga pensava, pensava. Todos os adultos eram assim egoístas? Ele, Ngunga, nada possuía. Não tinha uma coisa, era essa força dos bracitos. E essa força ele oferecia aos outros, trabalhando na lavra, para arranjar a comida dos guerrilheiros. O que ele tinha, oferecia. Era generoso. Mas os adultos? Só pensavam neles”; e “Um homem só pode ser livre se deixar de ser ignorante”.

Consoante ao relato nas redes sociais, no encerramento do projeto organizamos um café literário com os alunos do ensino médio e das séries iniciais. Dessa forma, os alunos do terceiro ano leram as histórias criadas para as crianças. No processo da narração, os mais novos tiveram dúvidas sobre o significado dos termos preconceito e racismo, assim, os alunos comentaram e relataram o significado destes.

Os alunos do quinto ano parabenizaram a turma pelas histórias e também mencionaram a possiblidade de construir as suas próprias histórias para apresentarem aos terceiros anos. Conhecer a cultura do outro proporcionou uma nova visão nos alunos, estimulando a reflexão sobre seus conceitos e preconceitos.

Conheça alguns livros digitais produzidos pelos alunos:
– A Jornada de Zé Alfredo
A Aventura de Tchalla
A Escola de Talentos
A História do Negrinho
A Vida de Caíque
A Menina e a Galinha
A Vida de Joaquina
Gunga
O Garotinho Luan

Isaias dos Santos Ildebrand

Professor de Língua Portuguesa na Escola Estadual de Ensino Médio La Salle de Campo Bom-RS e Tradutor e Intérprete de LIBRAS na Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul. Tradutor e Intérprete de Língua Portuguesa e Língua Brasileira de Sinais pelo Centro Universitário La Salle.

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ensino fundamental, ensino médio, livros digitais