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Inovações em Educação

Inovar na escola dá trabalho, mas melhora aprendizagem

Diretora de colégio centenário conta como é enfrentar desafios para trazer novas metodologias que mudam a prática pedagógica

por Andrezza Amorelli 17 de agosto de 2017

Quando cheguei ao Elvira Brandão, o colégio estava passando por um período de mudanças. Diferente de uma instituição criada para adotar novas metodologias, inovar em uma escola de 113 anos é um desafio diário, que te obriga a se despir de algumas crenças para trabalhar em nome de um propósito. Eu costumo falar que o projeto é feito por pessoas, mas ele deve ser maior do que as pessoas.

Em busca da inovação, muita coisa tinha sido colocada em prática aqui, mas de maneira fragmentada. Era um professor que trabalhava com design thinking, o outro que dava uma aula invertida, alguém que desenvolvia um projeto diferenciado, e assim por diante. Mas de tudo isso, o que de fato tinha permanecido? Pouca coisa tinha sido incorporada ao cotidiano da escola.

Antes de definir um caminho para atingir o nosso propósito, que é o de ser uma escola aprendente, conectada e atual, tivemos que voltar atrás e fazer um exercício de identificar o que era a inovação para nós. Percebemos que não era possível fazer tudo de uma vez, então teríamos que eleger dois ou três focos de trabalho.

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Não existe uma receita do que é ser uma escola inovadora, mas podemos encontrar alguns pressupostos. Aqui no Elvira, depois de ouvir estudantes, pais, professores e funcionários, elencamos três pilares que hoje pautam a nossa atuação: metodologia de projetos, metodologias ativas e cultura maker.

Para colocar esses três pilares em prática, todos os dias temos que ter em mente o nosso propósito de forma muito clara. É preciso realmente desejar a transformação, porque ela é muito sofrida. Sem a disposição de passar pela dor de se ressignificar todos os dias, nada acontece.

Uma série de fatores estruturais limitam a inovação dentro do ambiente escolar. Entre eles, percebemos que a formação da equipe é um dos maiores desafios. Assistir a uma palestra sobre sala de aula invertida não garante que toda a equipe compreenda a aplicação dessa metodologia. Todo mundo veio de uma escola tradicional, então é muito difícil ter abertura para uma nova proposta.

Outro grande desafio acontece no âmbito da própria gestão, que precisa pensar na escola como um todo. Não basta ter um olhar apenas para o pedagógico. É preciso entender do administrativo e do financeiro para tomar as melhores decisões. No meu caso, isso acabou sendo um pouco mais fácil, já que eu resolvi fazer pedagogia depois de ter trabalhado quase dez anos no mercado financeiro. Mesmo assim, ainda estou sempre buscando formações em áreas que não estão apenas dentro da educação.

Do ponto de vista estrutural, inovar não envolve necessariamente grandes recursos. Ao menos que a intenção seja construir um novo espaço dentro da escola, a mudança de postura da equipe já um grande passo para adotar novas metodologias. Ter um propósito e mudar sua forma de agir não custa dinheiro.

Apesar dessa percepção, também fizemos algumas mudanças na escola em termos de espaço físico: móveis foram trocados, a sala de informática deu lugar a um laboratório de fabricação digital, as paredes ganharam cores e o ambiente passou a ter mais a cara das crianças e dos adolescentes. Por outro lado, também começaram a aparecer novos desafios. Quando transformamos a sala de artes em um ateliê livre, por exemplo, percebemos que os estudantes começaram a usar tintas erradas e os materiais estragavam mais rápido. Mas aí temos um projeto de educação que entende que o conceito de uma sala aberta é muito maior do que esses problemas.

O processo de inovação também envolve uma reestruturação dos próprios estudantes. Eles precisam de muita formação, pois não estão acostumados com esse novo formato de escola. Quando decidimos adotar a metodologia de projetos como um dos pilares da escola, o terceiro ano do ensino médio ficou passado com essa história. Foi preciso passar um dia na sala com eles para explicar o propósito dessa escolha.

Só conseguimos mudar a percepção dos estudantes quando eles passam por uma experiência verdadeira. Desde uma conversa até um trabalho maker, as mudanças só fazem sentido quando eles encontram significado real no que estão fazendo.

No início desse processo de inovação, um dos nossos grandes erros foi não envolver e não comunicar claramente as nossas escolhas aos estudantes e suas famílias. Costumamos pensar que eles não entendem de educação, então precisam acompanhar o estamos fazendo, mas não é bem assim que as coisas acontecem. A transparência é fundamental para engajar todo mundo em um novo projeto de escola.

Também erramos ao acreditar que pessoas sem o mesmo propósito poderiam ajudar a construir essa escola inovadora. Nenhum gestor consegue enfrentar um processo de mudança sozinho. Ele precisa ter ao seu lado pessoas capacitadas e engajadas. Se os professores não se envolverem na mudança, eles não vão refletir esse projeto de escola quando fecharem a porta da sala de aula.

Já conseguimos colocar muitas coisas em prática, mas reconhecermos que sempre precisamos melhorar e aprender com os nossos próprios processos. Lidamos com o desafio de ser uma escola aprendente, que precisa se renovar e se reestruturar a todo o momento.

Apesar de todos os desafios, o processo de inovação garante que as crianças e os adolescentes aprendam mais. Pode até ser sofrido e trazer mais trabalho, mas a aprendizagem fica. Os estudantes vão levar isso para a vida deles. O que eles aprenderam aqui será útil para outras instâncias fora da escola.

TAGS

aprendizagem baseada em projetos, educação infantil, ensino fundamental, ensino híbrido, ensino médio, mão na massa, sala de aula invertida