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Software usa neurociência para melhorar aprendizado

Pesquisadores nacionais criam plataforma para identificar transtornos de aprendizagem e oferecer ensino personalizado

Depois de mais de 15 anos de investigação, pesquisadores brasileiros, baseados em Sergipe, conseguiram desenvolver um software capaz de auxiliar o aprendizado de português e matemática de alunos do ensino fundamental que apresentam transtornos de aprendizagem. O grande diferencial do programa intitulado EnsCer (Ensinando o Cérebro) é que ele foi desenvolvido a partir do conhecimento neurocientífico sobre o processamento cognitivo cerebral dos próprios estudantes que tinham déficit de atenção ou dislexia, por exemplo. Foi a partir da leitura dos mapas cerebrais dos alunos, com ajuda de eletrodos, aliado ao desenvolvimento de modelos matemáticos, que os pesquisadores conseguiram analisar as dificuldades específicas dos estudantes.

Depois que o aluno responde a uma série de questões de matemática e português, o software consegue indicar àqueles com transtornos de aprendizagem, um roteiro de assuntos que precisariam gastar mais tempo para melhor compreender. A partir daí, os estudantes têm acesso a uma série de exercícios e atividades complementares que os auxiliam na recuperação do conteúdo. O primeiro piloto do projeto foi realizado com alunos que moram em um dos municípios mais miseráveis do Brasil: Santa Luzia do Itanhy, localizado a 86 km da capital sergipana. E os resultados em relação à melhoria da aprendizagem dos estudantes foram positivos.

crédito denisovd / Fotolia.com
 

Do total de 1.271 participantes, cerca de 30% apresentaram, em algum nível, um determinado tipo de transtorno de aprendizagem. Esses 382 alunos foram monitorados durante o ano letivo de 2010 e tiveram uma melhora de desempenho de 16% em português e 12% em matemática. Conforme relatório que resume os dados da pesquisa: “o resultado positivo pode ser constatado em 2010 e novamente no ano seguinte.  Além disso, professores relataram uma significativa melhoria no comportamento destes alunos, provavelmente decorrente do fato deles passarem a conseguir acompanhar os conteúdos das aulas”.

“Nós acreditamos piamente que a neurociência vai ajudar a educação. Quando se estuda o cérebro do ponto de vista neurofisiológico, dá para perceber que ele adota certos caminhos e certas conexões. Dependendo do tipo de problema neurocognitivo do aluno essas conexões podem adotar outros caminhos. Buscamos entender melhor esse processo para que dessa forma possamos conhecer as dificuldades de cada estudante”, explica  Saulo Barreto, cofundador e pesquisador do IPTI (Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação), instituição líder do projeto experimental e que também desenvolve uma série de tecnologia sociais em Sergipe. Todas elas criadas conjuntamente com os diferentes públicos-alvo a que se direcionam.

Com os resultados em mãos, foi observado não apenas um acréscimo no desempenho como também uma melhoria na autoestima dos alunos das séries iniciais do ensino fundamental de Santa Luzia. “Antes eles achavam que eram ‘burros’, mas com o sistema eles passaram a compreender melhor quais eram suas dificuldades e em que assuntos precisavam melhorar”, diz Barreto, que juntamente com outro pesquisador do IPTI, Fábio Rocha, comandou a implantação da iniciativa.

Próximo passo

Depois do resultado satisfatório do projeto experimental, a partir de 2012 os pesquisadores do IPTI decidiram reformular a plataforma do EnsCer com o objetivo de torná-la mais robusta. Está em processo de desenvolvimento no momento uma nova versão atualizada do software. Intitulada Synapse, o novo programa visa auxiliar alunos do ensino fundamental no processo de alfabetização. Ou seja, agora o foco não é apenas aqueles estudantes que têm transtornos de aprendizagem.

A ideia é, após o mapeamento das dificuldades dos alunos, sugerir materiais didáticos adequados a serem trabalhados em cada sala de aula. Para tanto, a participação do professor das escolas de Santa Luiza – que servirão novamente de laboratório –  será fundamental. “Antes nosso trabalho era feito apenas no contraturno e com um contato mais direto com o aluno, agora queremos ir para dentro das salas de aulas e levar essa ferramenta ao professor. Mas sabemos que uma mudança dessa exige paciência e sem o apoio dos educadores não podemos chegar a lugar algum”, fala Barreto.

Para o próximo passo da empreitada, já foram selecionados 150 alunos divididos em seis turmas, todos eles estudantes do 1o ano do fundamental de quatro escolas da cidade. A ideia é testar a plataforma com esses alunos e comparar os resultados obtidos por eles com os de outros estudantes que não participarão da pesquisa. A plataforma estará acoplada a um outro software de gestão escolar, incluindo dados de frequência e desempenho, tudo isso para melhor facilitar a leitura dos resultados pelos professores. O monitoramento começará, no entanto, apenas a partir do próximo ano letivo. “Nosso sonho é que cada aluno possa aprender aquilo que ele deve aprender na sua respectiva idade. Esperamos depois de colher os resultados, levar, nos próximos anos, essa tecnologia social a escolas de outros 4.900 municípios que possuem menos de 50 mil habitantes”, fala Barreto.

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