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Arquiteto propõe opções à sala de aula tradicional

Tomas Eliaeson, da Little Online, defende que escolas tenham 5 tipos de espaços: descoberta, transmissão, troca, criação, reflexão

As salas de aula, formatadas no século 18 e replicadas até hoje, vêm sendo sistematicamente condenadas por especialistas, que as consideram um ambiente impróprio para as novas formas de aprendizado que se aprensentam hoje. Que elas não são os ambientes mais adequados, já se sabe, mas o que se pode construir no lugar delas? O arquiteto espanhol radicado nos EUA Tomas Eliaeson, do escritório Little Online, propõe uma divisão da escola em que, no lugar das grandes vilãs, as salas de aula tradicionais, os espaços sejam divididos a partir de cinco novas tipologias, cada uma delas com funções, mobília e atividades específicas para proporcionar momentos de aprendizagem efetiva. Nessa nova configuração, o espaço de divide em descoberta, transmissão, troca, criação e reflexão.

“Dependendo da atividade que se faça, é preciso um ambiente específico. Se você quer se concentrar ou fazer uma prova, você precisa se isolar. Se você está trabalhando com aprendizado baseado em projetos, você precisa de móveis adequados para acomodar três ou quatro pessoas”, afirma Eliaeson, que esteve no Brasil na semana passada para apresentar sua proposta de novos ambientes imersivos de aprendizagem em um evento promovido pela escola americana Graded. Essa reformulação de espaços só foi possível, enfatiza o especialista, com as revoluções tecnológicas e os avanços da ciência nos últimos anos, que passou a entender melhor como o cérebro funciona. “Hoje nós colocamos 25 alunos em uma sala e ensinamos tudo de um jeito só para todo mundo. Isso até funciona para alguns, mas não funciona para todo mundo. Ao entendermos o cérebro, aprendemos que nós não somos iguais, que precisamos de ambientes mais personalizados”, afirma o especialista.

Crédito Robert Keenan / Fotolia
 

Tal customização, que se faz necessária na escola, já pode ser observada na vida real em vários outros segmentos, como na TV e nos restaurantes, argumenta ele. “A sala de aula não consegue acomodar adequadamente os múltiplos métodos de aprendizagem. Ela não facilita a interação entre estudantes e seus pares e entre professores e alunos; também não permite a flexibilidade necessária para um espaço voltado ao trabalho em equipe, para o aprendizado facilitado pela tecnologia colaborativa e transdisciplinar. Acima de tudo, as salas de aula tradicionais não dão o suporte necessário para o aprendizado ativo, motivador e criativo”, escreveu o especialista no artigo “The Immersive LearningScape”.

Pela sua proposta, que tem orientado a construção de escolas e a adaptação de espaços já existentes, essas cinco tipologias seriam usadas por professores de todas as disciplinas. Confira, a seguir, como é cada um deles.

1. Pensar: baseado no conceito de que o aprendizado também acontece individualmente. Espaços pequenos e ambientes intimistas permitem que o aluno tenha o tempo e o ambiente necessários para analisar e pesquisar, refletir e digerir a informação;

2. Descobrir: este é o espaço para oficinas. Será o local onde os alunos vão experimentar, explorar, aprender a partir de seus projetos, ou seja, colocar as mãos na massa. Nesse ambiente, artes, ciências e engenharia serão estimuladas a partir da cocriação, da invenção, da fabricação, do teste, da desconstrução, da recostrução, da produção e do design. Aqui, o uso da tecnologia é muito importante;

3. Transmitir: é o mais parecido com uma sala de aula tradicional. Acomoda reuniões de grupos maiores, mas a mobília flexível permite momentos de descontração ou reunião em grupos menores. Dois espaços iguais, localizados um ao lado do outro, podem se tornar uma grande sala para reunião de grupos ainda mais numerosos. Do ponto de vista físico, se parece com um auditório, uma vez que possui a acústica necessária para que todos se ouçam e os atributos físicos importantes, como um plano inclinado (como em auditórios e cinemas), para que haja contato visual entre todos os que ali estiverem;

4. Trocar: inspirado pelo potencial do aprendizado social. Esse é o espaço onde os alunos vão mostrar o resultado de seus trabalhos para colegas, professores e comunidade. É também um local de encontros, de trocas informais de aprendizado, de compartilhar ideias e de se aproximar do outro; é aqui que todas as formas de aprendizagem se encontram;

5. Criar: locais específicos para trabalhos em equipe, em grupos de pequeno ou médio porte. Esses espaços podem ser organizados a partir de flexibilidade e múltiplas configurações para comportar vários tipos de atividades, mais engajamento e aprendizado interativo. Estações com computadores que permitem conferências com pessoas de qualquer lugar do mundo podem estar aqui.

 

Arte sobre ilustração da Little Online
 

Ainda não presente no modelo ilustrado acima, que é uma das escolas cujo design foi elaborado pela Little Online, Eliaeson tem mais uma proposta de interação para o ambiente da descoberta. Para ele, grupos de escolas deveriam se organizar para ter laboratórios móveis, em caçambas de caminhões. Esses espaços teriam pequenas exposições sobre algum tema. Por exemplo: em vez de cada escola ter sua coleção de rochas, o espaço da caçamba do caminhão seria pensado para apresentar cada tipo de rocha de uma maneira atraente para os alunos. O laboratório móvel passaria uma semana ali naquela instituição à disposição dos alunos e depois seguiria para outra escola, dando lugar a outro caminhão, vindo de outra escola e com outra pequena exposição.

Claro que reorganizar o fluxo de alunos da escola não mais por salas de aula, mas por espaços de variados tamanhos e características diferentes vai exigir habilidade dos gestores, mas, como tudo o que se vem falando até aqui, é uma questão de adaptação, diz o arquiteto. Uma adaptação, aliás, mais do que necessária. “O mais triste no meu trabalho é perceber que muitas escolas construídas hoje ainda têm esse formato que já se provou ineficiente. As pessoas têm medo de tentar algo novo, mas tem muita gente mostrando que é possível”, diz Eliaeson.

 

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    1. Gostei muito da proposta. Talvez haja alguma redundância ou desnecessidade na separação dos ambientes para descobrir e criar. E acho que faltam espaços para o autoconhecimento (razão, sentimento e sensação) e para aprender a conviver (acolher o outro, respeitar e colocar limites, respeitar diferenças, etc). Mas sem dúvida é esse o caminho.

    2. Achei super interessante os ambientes de aprendizado que nao se fundamentam somente na aprendizagem conceitual do conhecimento, porém senti falta dos espaços destinados aos conhecimentos (sua produção, criação, discussão…) que permeiam o movimentar. A Educação Física muitas vezes é desconsiderada como espaço de produção de conhecimento conhecimento. Além de poder transitar nesses diferentes espaços propostos, a nossa “sala de aula” não é somente a quadra e tampouco os espaços fechados. Mas sao espaços próprios que permitem o movimentar-se, considerando as diferentes dimensoes do ser e do aprender.

    3. Nos anos 1960, eu estudava em um grupo escolar público. Se minha memória não falha, esses espaços todos sugeridos pelo arquiteto estavam contemplados por lá. Tínhamos a sala de aula tradicional, estudávamos individualmente e sossegadamente na biblioteca, as oficinas de ciências, artes etc eram dadas em lugares específicos e equipados para isso, saíamos em equipes para estudos fora da sala de aula, às vezes no entorno. E aprendíamos a conviver no páteo durante o recreio, quando todo mundo brincava junto nas rodas e às vezes brigava. Minha pergunta: qual é a inovação?

    4. Antes dos CIEPs sonhados por Darcy Ribeiro se concretizassem, trabalhei em uma escola chamada Centro Cultural Comunitário de São Cristóvão que, na verdade, era um teste do modelo de Centros Integrados de Educação Pública. Lá já não haviam salas de aula. Lembro que havia: oficina da palavra (com um grande espaço livre para ouvirmos e contarmos histórias e uma mesa grande para registros escritos), oficina de ciências (um laboratório bem montado), oficina de música (cheia de instrumentos), oficina de artes (rica em materiais para criançada pintar e bordar), oficina de teatro, de história e geografia, espaço para educação física e jogos ao ar livre, a Quinta da Boa Vista era usada como um espaço de descobertas, a cozinha também, de vez em quando, era explorada. Nada projetado por arquitetos, era um espaço já existente, adaptado pela equipe pedagógica do projeto seguindo as orientações provenientes das idéias de Darcy. A equipe docente era multidisciplinar. Modelos foram testados até chegar aos CIEPs implantados a época. E isso tudo a mais de 20 anos atrás aqui mesmo no Rio de Janeiro. Não sei se há registros desta experiência ou se tudo está na memória de quem lá trabalhou. Nem tudo foi um sucesso, mas com certeza aprendemos muito. O que quero ressaltar é que estas alternativas vem sendo experimentadas e desde do meu curso de formação de professores (a mais de 30 anos) já ouvia estes questionamentos. Entretanto, nenhuma mudança significativa ocorreu e a humanidade continuou sendo educada nos moldes seculares e destes bancos condenados continuaram a surgir grandes homens e mullheres, cientistas, escritores, artistas, engenheiros, professores… Isso me faz crer que nem tudo pode estar errado e que a mente humana é capaz de superar as limitações da educação formal.

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