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Autoaprendizado e tecnologia: mistura poderosa

Apesar de ainda não estarem disseminadas nos sistemas educacionais, a tecnologia e as plataformas digitais estão tirando o foco do ensino formal e devem quebrar paradigmas educacionais. Assim, modelos híbridos, baseados em autoaprendizado, aprendizado por games e relação com a comunidade são uma mistura poderosa. A análise é de Terry Heick, educador especializado em desenvolvimento social por meio de inovações no ensino e autor em sites especializados, como o Edutopia e o Edudemic, além de ser diretor de currículo do TeachThought. “O e-learning costumava ser considerado um método inferior em relação ao presencial e para muitos ainda é, mas isso está começando a mudar”, afirma.

As ferramentas disponíveis são muitas: jogos digitais, simulações, modelos de ensino usando aparelhos móveis, ambientes e plataformas de e-learning, mídias sociais. O desafio para os educadores, na opinião de Terry, é descobrir como os estudantes aprendem melhor e como a tecnologia pode ajudar melhor nesse processo. Por isso, os professores têm papel fundamental nessa engrenagem. Veja a entrevista concedida ao Porvir por e-mail, em que ele ainda aborda o aprendizado baseado em projetos, educação domiciliar e o novo papel da escola.

crédito Zuboff / Fotolia.com
 

No seu artigo “What To Expect From Education In 2013” (O que esperar da educação em 2013) você diz que a quebra de paradigmas é um tema para este ano e que a tecnologia e as plataformas digitais estão tirando o foco do ensino formal. Esse processo está acontecendo em todos os sistemas de ensino nos Estados Unidos? 

Nas escolas norte-americanas há bastante diversidade. Não existe uma fórmula mágica que todos seguem, e boa parte da inovação fica a cargo muito mais de cada professor do que da prefeitura ou do estado. Isso é um desafio porque os professores que estão em sala de aula não podem comprar aparelhos tecnológicos caros com acesso às mídias sociais e a outras ferramentas digitais. Também existe o problema das regras e políticas do governo. Quando as escolas públicas financiadas pelo governo conseguem introduzir essas tecnologias, normalmente elas têm que enfrentar regras rígidas, que podem inibir as habilidades dos professores em usá-las de modo consistente e criativo. A maioria das inovações citadas acima – e-learning, aprendizagem por meio de tecnologias e aparelhos móveis, simulações e similares — ainda são projetos únicos e isolados, ou integrados de forma precária no currículo.

“O modelo de cinco anos atrás tem sido substituído por abordagens novas e mais personalizadas. Enquanto, há uma década, o método era considerado uma forma nociva de ensinar, agora ele está se tornando uma alternativa viável às unidades e lições tradicionais.”

Você poderia falar sobre um projeto ou modelo de aprendizagem que o surpreendeu?

O modelo de aprendizagem que mais tem me interessado ultimamente é um tipo híbrido entre autoaprendizagem e aprendizagem através de jogos e brincadeiras. Com as novas tecnologias e com as comunidades, especialistas e mentores acessíveis, isso se torna especialmente poderoso. Há exemplos de aprendizagem com modelos híbridos em salas de aula de educação infantil e ensino médio e também nas universidades nos Estados Unidos. Isso não significa que todos os modelos de aprendizagem híbridos são iguais, mas mostra uma grande mudança no modo como as escolas estão trabalhando com o e-learning. O e-learning costumava ser considerado um método inferior em relação ao presencial, e para muitos ainda é, mas isso está começando a mudar.

Como os estudantes aprendem com jogos e brincadeiras?

Não só os alunos podem aprender com jogos e brincadeiras, mas eles só aprendem brincando. Os estudantes fazem uma tarefa e têm sua performance avaliada após a entrega, muitas vezes recebendo uma nota por isso. A ideia de aprender brincando é totalmente focada no estudante – ele escolhe o conteúdo, as ferramentas e a linha de aprendizagem a ser seguida. Isso poderia acontecer por razões formais ou poderia ser o resultado de uma aprendizagem informal. Aprender com jogos e brincadeiras estimula o aluno de várias maneiras, incentivando-o a experimentar uma forma livre de ridicularização ou correções. Numa sala de aula tradicional, os alunos aprendem a obedecer e a “ir bem na escola”. Por meio das brincadeiras, eles são guiados pela curiosidade, imaginação e pela disposição em relação a algum tema conquistada por uma autopercepção.

As escolas que quebram com os modelos tradicionais de ensino e aprendizagem normalmente trabalham com aprendizagem baseada em projetos. O que você pensa sobre essa metodologia? Seria possível ter um modelo de educação totalmente baseado em projetos, mas ainda assim seguindo o currículo?

O modelo de aprendizagem baseado em projetos tem se tornado cada vez mais popular, mas isso está evoluindo aos poucos. O modelo de cinco anos atrás tem sido substituído por abordagens novas e mais personalizadas. Enquanto, há uma década, o método era considerado uma forma nociva de ensinar, agora ele está se tornando uma alternativa viável às unidades e lições tradicionais. Neles, o processo de aprendizagem é mais importante do que o resultado do projeto em si. Se forem dados os treinamentos necessários, os professores podem usá-los para atingir os objetivos acadêmicos desejados.

Como você analisa esse fenômeno do homeschooling (ensino domiciliar), que vem crescendo nos EUA?

Em termos de dados atuais e mensuráveis, eu posso citar as estatísticas do Departamento de Educação dos EUA, que mostram aumento nesse número [de adeptos ao homeschooling]. Uma grande mudança que eu percebo é sobre a percepção do homeschooling. No passado, ele tinha mais a ver com socialização e religião do que com sabedoria, tecnologia ou até mesmo rigor acadêmico. Acredito piamente que um indivíduo pode ter uma educação melhor em casa [do que a que teria na escola].

Adoraria ver o papel das escolas públicas mudar, de uma única instituição detentora do saber para um papel diferente no ambiente de aprendizagem misto, onde escolas dão apoio a comunidades com recursos, programas de alfabetização, redes de tutores e mesmo com programas e projetos que ajudam os pais e os membros da família a entenderem o real significado de “aprendizagem”. Como uma mudança como essa, a capacidade de aprendizagem iria acontecer não só no nível institucional, como nos níveis da comunidade e individual, e uma mudança a longo prazo teria uma chance maior de acontecer.

Se você fosse dar um conselho para os professores, qual seria?

Em meio a tantos recursos e ideias que eu teria para recomendar, fica até difícil saber por onde começar. A melhor resposta que eu poderia dar a essa pergunta seria provavelmente a menos emocionante: eu adoraria ver os professores terem completo domínio sobre como as pessoas aprendem e sobre os inúmeros modelos de aprendizagem disponíveis, principalmente como resultado da inovação tecnológica.

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