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Como Inovar

Seu produto de tecnologia para educação é uma geladeira ou uma máquina de lavar?

Como a realidade das escolas e secretarias influencia no uso de novas soluções digitais

por Julia Freeland Fisher 20 de abril de 2017

Empreendedores da área de educação adoram falar a respeito de curvas de adoção e uso de seus produtos. É um jeito mais sofisticado de olhar para um conceito básico: a proporção em que uma ferramenta, modelo ou abordagem satura o mercado.

Mais recentemente, essas curvas apareceram em conversas sobre ensino personalizado. À medida em que novos sistemas de ensino tentam customizar seus ambientes de aprendizagem e mais especialistas e financiadores elogiam os modelos de personalização, as pessoas ficam ansiosas para saber: em que ritmo podemos esperar que novas ideias e ferramentas cheguem ao sistema tradicional de educação?

Nem todas as curvas de adoção são iguais. Dependendo das características das ferramentas e os usuários que querem atingir, o arco de adoção pode ser bastante diverso. Uma dessas distinções diz respeito à maneira com que a novidade harmoniza com a estrutura de uma escola tradicional.

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Para entender essas diferenças, podemos olhar para dados históricos sobre como consumidores passaram a usar todo o tipo de dispositivos que chegaram ao mercado durante o século 20. Meu colega no Instituto Clayton Christensen, Horace Dediu, pesquisou esses tipos de comportamento para tentar explicar tais tendências e investigar anomalias. No ano passado, ele destacou uma curiosa divergência nos números sobre a adoção de eletrodomésticos. Nos anos 1930, duas inovações chegaram ao mercado dos Estados Unidos: a geladeira e a máquina de lavar.

Geladeiras rapidamente tomaram a dianteira, conquistando quase 90% de adoção até o final dos anos 1950. Mas as famílias subiram muito mais lentamente a curva de adoção das máquinas de lavar, que chegaram ao ponto de saturação do mercado somente ao final dos anos 1990. A hipótese de Dediu é que o fato tem pouco a ver com a avaliação feita pelas donas de casa dos pontos positivos ou negativos de estar com roupas limpas ou bem alimentado. Em vez disso, argumenta, a diferença no ritmo de adoção reflete como cada inovação podia se adaptar às casas e apartamentos da metade do século passado. A maioria dos domicílios tinham tomadas que serviam para ligar diretamente as geladeiras, fazendo com que as caixas de gelo fossem abandonadas. Mas poucos lares tinham os canos e tubulações de esgoto necessários para instalar uma máquina de lavar.

Em outras palavras, as casas daquela época nunca foram planejadas para receber máquinas de lavar. Como resultado, para aproveitar a nova tecnologia, as famílias não tinham apenas que investir dinheiro; mas também que chamar um encanador para instalar os tubos para levar e tirar a água do novo equipamento.

O mesmo pode ser dito sobre várias inovações tecnológicas que chegam ao mercado educacional nos dias de hoje. A maioria das empresas dizem que proporcionam ensino e aprendizagem mais efetivos, eficientes e convenientes. Mas nem todas as ferramentas se conectam às mesmas interfaces, e nem a todas as escolas e salas de aula foram construídas para receber essas inovações. Algumas ferramentas têm se mostrado compatíveis para chegar às salas de aula sem problemas. Por exemplo, ferramentas com tutoriais rápidos, como a Khan Academy, se encaixam em muitas salas de aulas e sem dúvida podem apoiar modelos tradicionais. Essas ferramentas tendem a ajudar alunos a terem melhores resultados em provas ou a superarem dificuldades em um determinado assunto.

Por outro lado, outros produtos ou modelos não podem ser simplesmente conectados à sala de aula tradicional ou à rotina da escola – que tem que mudar ou adaptar sua infraestrutura para acomodar a ferramenta. Por exemplo, modelos como Teach to One ou plataforma de aprendizagem da Summit exigem uma nova engenharia dos processos. Escolas precisam de um novo conjunto de tubos – infraestrutura, cronogramas e até mesmo novas abordagens pedagógicas – para adotar essas inovações e usá-las de acordo com todo seu potencial.

Também é importante notar que, ao contrário dos canos de drenagem, esta reconfiguração das escolas é extremamente complexa e muitas vezes guarda interdependência com as políticas locais, a cultura e as limitações geográficas ou financeiras. Não é surpreendente, portanto, que nos últimos anos surgiram intermediários, como Transcend e 2Rev, que estão entrando nas escolas para ajudá-las a remodelar seus canos e plugues.

O esboço dessas curvas de adoção pode parecer desolador se você for um empreendedor construindo as máquinas de lavar roupa das tecnologias educacionais, ou um investidor com esperança de encontrar modelos disruptivos que tenham adoção rápida. Mas elas também devem nos emprestar uma dose saudável de esperança e realidade sobre o que a adoção parece ser dependendo de quantos ajustes os clientes serão obrigados a fazer a fim de absorver uma nova ferramenta. Elas também devem nos ajudar a alinhar melhor os recursos que filantropos e formuladores de políticas estão investindo para mover as pessoas ao longo das curvas de adoção de ensino personalizado e tecnologias educacionais.

Felizmente, tem havido um reconhecimento que precisamos nivelar investimentos em recursos digitais com a formação profissional. Porém, para as ferramentas e modelos que menos se adaptem às estruturas escolares tradicionais, é provável que precisemos investir na base – isto é, não apenas desenvolver a proficiência dos professores para seu uso, mas repensar processos como cronogramas, avaliações e alocação de recursos humanos em uma escola ou secretaria de educação.

Com essa dose de realidade, podemos começar a imaginar a adoção com maior precisão. Também podemos prever quando a adoção corre o risco de não decolar. Por outro lado, se ignorarmos os custos da adaptação e esperarmos que as escolas só vão descobrir como usar novos modelos dentro de seu paradigma atual, a promessa de novas inovações pode ficar aquém do esperado. É como tentar ligar a mangueira de uma máquina de lavar em uma tomada elétrica. Não vai terminar bem.

* Publicado originalmente no EdSurge e traduzido mediante autorização.

Julia Freeland Fisher (@juliaffreeland) é diretora de pesquisas educacionais do Instituto Clayton Christensen

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aplicativos, ensino fundamental, ensino médio, personalização, plataformas adaptativas, tecnologia