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Inovações em Educação

Sucesso da Base Curricular depende da formação dos professores

Para Paulo Blikstein, professor em Stanford, mais difícil do que discutir o currículo é implementá-lo

por Sergio Pompeu 25 de setembro de 2015

Professor em Stanford, onde comanda o Centro Lemann, think tank dedicado à educação, Paulo Blikstein tem uma contribuição importante a dar ao debate da Base Nacional Comum Curricular (BNC). Do seu ponto de vista privilegiado na universidade californiana, Blikstein tem acompanhado os erros e acertos na adoção do Common Core, a base comum dos Estados Unidos, restrita a Matemática e Língua Inglesa, adotada no início da década. Blikstein revela ceticismo quanto à capacidade de o Brasil implantar com sucesso o novo currículo em todas as disciplinas de uma vez só. “Em nenhum lugar do mundo a discussão sobre currículo é uma discussão difícil. Difícil é implementá-lo, até porque custa muito caro”, diz.

Esse ceticismo se estende aos conteúdos não-pedagógicos, ou de desenvolvimento integral, que, para parte dos educadores, devem ter papel central na nova Base. Blikstein receia que as competências socioemocionais, por exemplo, sejam tratadas de forma rasa, fora de contexto, até pela falta de familiaridade dos professores com o repertório dos saberes para o século 21. Mas o pesquisador admite que não se pode fugir do desafio de dar destaque a esses saberes na Base. “Se não incluir na BNC coisas que estimulem o professor e a escola a buscar formas alternativas de ensinar, você vai ter mais do mesmo”, diz. “Precisamos pensar no tipo de ensino que queremos ter nos próximos 10, 20 anos.”

Leia série de reportagens sobre o debate da Base Nacional Comum Curricular:
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Porvir – O senhor esteve no Brasil em fins de agosto, quando o Ministério da Educação colocou formalmente em consulta pública o anteprojeto da Base Nacional Comum. O que o senhor acha importante levar em consideração nesse debate?
Paulo Blikstein
– Falando mais genericamente da questão da Base, em qualquer lugar do mundo ela é necessária, mas insuficiente. Não é uma tábua de salvação. A gente tende a fazer isso o tempo todo na educação, se agarrar a tábuas de salvação. A BNC é uma delas; o trabalho com as competências socioemocionais é uma minitábua de salvação, assim como a Khan Academy, os MOOCs (sigla em ingês para Cursos Abertos Massivos Online) e tudo mais. Minha teoria é de que, quando você tem temas muito complexos, as pessoas querem acreditar na possibilidade de um milagre. Na época da inflação descontrolada, por exemplo, era mais fácil ganhar corações e mentes se você apresentasse soluções mágicas, como o congelamento de preços. Quando a inflação era um problema complexo, que exigia mudanças na lei, na política fiscal, em várias áreas, enfim.

Porvir – Como fazer a Base funcionar de fato?
Blikstein – A Base só vai funcionar se você tiver os recursos para implementar as mudanças que ela requer. Então, por exemplo, não vai adiantar nada se você implementar a Base e não tiver um investimento massivo na formação dos professores que vão colocar as mudanças em prática. Também não adiantará nada se você não tiver investimento massivo para criar os materiais didáticos que serão necessários para ensinar com a BNC.

Para mim, a Base é quase um pretexto para você fazer esses investimentos tão necessários. Como aborda todos os aspectos da educação, o currículo, o jeito de ensinar, ela é um pretexto para você começar de novo – não do zero, mas treinando outra vez os professores, criando novos materiais pedagógicos – e se livrar um pouco do que a gente chama de legado, tudo aquilo que permaneceu no sistema educacional por inércia.

Infelizmente, a Base, que para sua implantação precisa de muito recurso, está sendo discutida numa época em que o Brasil está em uma situação financeira difícil. O grande risco é o de que ela seja aprovada e coisa e tal, mas sem essas medidas necessárias, que são na verdade a parte mais importante.

Porvir – Por que o senhor considera essas outras medidas mais importantes do que a Base?
Blikstein
– Porque, apesar de não existir formalmente uma BNC, não é que a gente não tenha um currículo. Os livros didáticos são muito uniformes, têm quase todos o mesmo conteúdo, a gente também tem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)… Então não é uma situação em que cada um faz o que bem entender. Cerca de 90% dos alunos do Brasil usam livros didáticos que são mais ou menos padronizados. Então já existe uma certa uniformidade de conteúdos e não vai ser simplesmente uma outra uniformidade trazida pela BNC que, por si só, resolverá alguma coisa. A Base vai, isto sim, facilitar um monte de outras coisas que a gente precisa fazer depois da sua aprovação.

A Base só vai funcionar se você tiver os recursos para implementar as mudanças que ela requer. Então, por exemplo, não vai adiantar nada se você implementar a Base e não tiver um investimento massivo na formação dos professores que vão colocar as mudanças em prática

Porvir – O que a experiência americana do Common Core pode ajudar no debate brasileiro?
Blikstein – Um exemplo: o Common Core é só de uma parte do currículo, pega Matemática e Língua lnglesa. No Brasil, querem pegar tudo. Acho que seria mais prudente adotar uma BNC em algumas disciplinas, como um projeto-piloto, e depois ir adicionando outras. Pegar, por exemplo, Matemática e Português, ver como a BNC está impactando o sistema de ensino e só então decidir o que será feito depois. Nos Estados Unidos, com apenas duas disciplinas, o governo teve de gastar rios de dólares, imagine o custo aqui para adotar uma BNC com dezenas de disciplinas. A estrutura para treinamento de professores, para fazer a revisão do material didático, é uma tarefa hercúlea, uma coisa brutal. Seria melhor se fosse gradual, num horizonte de cinco a dez anos, porque daí você vai aprendendo à medida que faz.

Porvir – O que o senhor acha do papel dos saberes para o século 21 no contexto da base?
Blikstein
– Como a BNC em geral, eles também não são um milagre. Funcionam dentro de um contexto no qual apareçam com autenticidade. Por exemplo, se você tem um currículo no qual periodicamente elogia os alunos, diz a eles que podem ir mais longe, têm inteligência maleável, ou mesmo um currículo baseado todo no desenvolvimento da persistência: se todo o resto não funcionar, o currículo não fará milagres por si só. Imagine que você quer ensinar persistência e dá problemas muito difíceis para o aluno resolver. Se o material pedagógico não for de boa qualidade, se o professor não for capaz de indicar para o estudante qual o próximo passo, se o problema não tiver sido bem concebido, de nada vai adiantar você só falar para o aluno: ‘Vai persistindo aí por uma duas horas que você acaba aprendendo.’

As competências socioemocionais funcionam no contexto de um currículo bem montado, com bom material didático, bons professores, que façam elas serem trabalhadas de forma natural. Não é um truque, não é você decorar cinco frases e ficar repetindo durante a aula (‘aí, pessoal, não desistam, vocês conseguem’ etc e tal). O professor tem que saber dizer: ‘Sei que vocês estão enfrentando dificuldades na solução deste problema, então tentem fazer este procedimento aqui.’ Só que isso exige professores muito bem preparados.

Paulo Blikstein concedeu palestra no Transformar 2015

Paulo Blikstein concedeu palestra no Transformar 2015 / Crédito: Luciana Serra

Porvir – Mas não dá para a gente pensar em incluir na Base a obrigatoriedade de a escola desenvolver projetos multidisciplinares pelo menos duas vezes por ano, como na Finlândia? Imagine um projeto que faça estudantes saírem pelo entorno da escola colhendo depoimentos de pessoas da comunidade, de gente que de alguma forma superou adversidades para chegar aonde chegou, cuja trajetória sirva de modelo para os jovens. Para isso só precisa de smartphone e tempo, disposição. Depois de editados em algum programinha simples de computador, gratuito, os vídeos seriam exibidos e os próprios colegas escolheriam os melhores (ou até mesmo os pais de estudantes ou todos eles juntos) e dali sairia a atribuição de notas. Esse é um jeito de colocar os saberes do século 21 em pauta na BNC sem precisar de uma requalificação mais aprofundada do professor, não?

Blikstein – Esse é um bom exemplo de aplicação de competência socioemocional num contexto que faz sentido para o aluno. O professor pode entrar ajudando a conectar o trabalho a algum conteúdo pedagógico, algo que os alunos terão necessariamente de aprender. Talvez o professor possa ligar um dos personagens dos vídeos a um conteúdo histórico, a alguma passagem da 2ª Guerra Mundial, digamos. Essa é uma das coisas nas quais o professor pode ser extremamente útil: quando os alunos não conseguem resolver um problema ou não exploram alguma coisa porque não sabem como relacioná-la a alguma passagem da disciplina – nesse caso, da História.

As competências socioemocionais funcionam no contexto de um currículo bem montado, com bom material didático, bons professores, que façam elas serem trabalhadas de forma natural

Porvir – E dá para fazer coisas escaláveis com propostas como esta, não?
Blikstein – Insisto na questão de que as competências socioemocionais não são a panaceia para os problemas da educação e precisam fazer parte de projetos interessantes. Mas, ao mesmo tempo, se não incluir na BNC coisas que estimulem o professor e a escola a buscarem formas alternativas de ensinar, você vai ter mais do mesmo.

Uma experiência que está dando muito certo nos Estados Unidos é a do Next Generation Science Standards (algo como Padrões Científicos para a Nova Geração), uma espécie de Common Core das Ciências. O foco é muito em cima da experimentação e da investigação científicas. Não é deixar o aluno na sala de aula decorando fórmulas, mas ficar descobrindo fórmulas através de experimentos. A NGTS trabalha a necessidade de você criar hipóteses e depois validar essas hipóteses.

Isso é importante de a gente discutir neste momento de debate da BNC porque precisamos pensar no tipo de ensino que queremos ter nos próximos 10, 20 anos. E a NGTS é um tipo de educação baseada no ensino por projetos, com uma pegada hands on (mão na massa), de experimentação, na qual os alunos criam o conhecimento, desenvolvendo suas hipóteses e as validando.

É preciso colocar essas coisas na Base, coisas que obriguem a escola a sair do padrão normal de aula expositiva mais prova. Em suma, é preciso colocar na Base coisas que fazem parte dos métodos de ensino e da educação do século 21. Esse é um processo em desenvolvimento e está cada vez mais veloz. Esses métodos hoje são muito mais conhecidos e pesquisados do que há, digamos, três anos. E os materiais são cada vez mais baratos. Tipo: um laboratório de Ciências custava há 30 anos uma fortuna; hoje, com uma placa de um sistema como o Arduíno você tem um laboratório com capacidade de fazer experimentos com sensores químicos e físicos. No smartphone você tem apps gratuitos como o Video Physics, que te permite lançar um projétil e depois analisar o movimento quadro a quadro para entender a trajetória dele.

É preciso colocar na Base coisas que obriguem a escola a sair do padrão normal de aula expositiva mais prova. Em suma, é preciso colocar na Base coisas que fazem parte dos métodos de ensino e da educação do século 21

Porvir – E se a gente adotasse uma Base que fosse dividida em quatro grandes áreas, mais ou menos nos moldes do Enem: Matemática, Linguagem, Ciências e Sociedade?
Blikstein
– É uma ideia interessante, até porque acho que não temos no Brasil gente suficiente para treinar professores em 17, 18 disciplinas no espaço de um, dois anos.

Porvir – Mas a gente pode usar o online como recurso para trabalhar a formação de pessoal, não?
Blikstein
– Mesmo o online precisa de gente para criar os cursos, não é uma coisa trivial. Veja, tem toda uma questão óbvia da necessidade de formar professores, que existe desde sempre, mas ela é diferente da formação para você implementar uma Base Nacional Comum. Quando se fala em reformas na educação, qualquer reforma do governo tem de atingir a milhões de professores. Quando se fala da formação genérica, se não der certo o mundo não vai cair: a educação já está ruim e continuará assim. Já colocar em prática uma BNC sem ter todos os componentes alinhados vai provocar um desastre muito maior. Daí a preocupação com a praticidade do cronograma de implantação, de fazer isso a curto prazo em 16, 17 disciplinas em um país continental como o Brasil.

O David Plank, pesquisador americano, tem uma análise que pode ser interessante para o caso brasileiro. O Estado de Nova York, que está longe de ser um Estado pobre, tentou implantar o Common Core a toque de caixa, na linha de ‘se os professores não quiserem, vamos fazer o projeto descer goela abaixo’. O governo criou até uma política de bônus para atenuar resistências. Mas a adoção do Common Core em Nova York foi um grande fracasso e o motivo principal foi a falta de adesão dos professores.

Já a Califórnia teve melhores resultados optando por um processo muito mais demorado, negociado com os professores. Para você ter uma ideia, eles precisaram suspender todas as provas estaduais durante dois anos, até que tivessem montado uma avaliação coerente com o Common Core. Foi necessário um aparato logístico e até legal para colocar em prática o projeto.

A Califórnia teve de aprovar leis proibindo a comparação de notas de escolas e alunos pré e pós-Common Core. Imagine uma escola em que os alunos tinham média 7 na avaliação pré-Common Core e 6 na pós. Isto não quer dizer nada, porque você está falando de escalas diferentes. Só que a percepção pública não é essa, é de que a escola piorou. Da mesma forma, universidades usam as notas dos estudantes nos seus processos de seleção e alunos poderiam ser prejudicados na comparação com concorrentes mais velhos. Aliás, nos Estados Unidos essa questão da avaliação influencia até no mercado imobiliário – o valor das casas é muito determinado pela qualidade das escolas do entorno. Então, o que aconteceu na Califórnia foi o equivalente a suspender o Enem durante dois anos. Esta é a envergadura do que foi feito lá.

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base nacional comum curricular, ciências, competências para o século 21, experimentação, interdisciplinaridade, socioemocionais