3 mitos e 5 caminhos da motivação na escola, segundo Dennis Shirley - PORVIR
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Inovações em Educação

3 mitos e 5 caminhos da motivação na escola, segundo Dennis Shirley

Para o professor da Boston College, desmistificar os lugares comuns é o primeiro passo para, de forma realista, olhar para o que pode ser mobilizador.

Parceria com Edify

por Luciana Alvarez ilustração relógio 4 de outubro de 2021

Dennis Shirley, professor na Boston College (Estados Unidos), tem como seu trabalho habitual desenhar e orientar pesquisas em larga escala, assim como pôr em prática intervenções em redes de educação. Pela experiência e pelas evidências acumuladas, ele garante ter encontrado cinco caminhos capazes de motivar estudantes em contextos variados. Mas logo que começa a falar, adverte que não é um guru ou alguém que vai dar uma receita infalível. O professor sabe que quando se trata de educação pode sempre haver situações únicas. “Não digo que são ‘os’ cinco caminhos. Pode haver outros”, afirmou.

Em uma palestra para o HUB, evento online organizado pelo Edify, o professor americano mostrou dados de uma pesquisa em escolas de seu país indicando que, em média, apenas 50% dos estudantes costumam estar engajados com as aulas. “Como chegamos nisso?”, questiona. De acordo com Dennis, não se deve simplesmente culpar os professores e a escola. “Vivemos numa sociedade em que ninguém mais dá atenção plena para ninguém. Todos temos dispositivos em nossos bolsos que são máquinas de distração”, disse.

Dennis ShirleyCrédito: Boston College

O professor Dennis Shirley, da Boston College

O importante, contudo, é mudar esse panorama para que os alunos aprendam mais, tanto conteúdos acadêmicos, quanto valores e atitudes. “Conhecimento é libertador. O conhecimento serve para pagar uma conta, pegar um troco. Mas também temos de saber como ser neste mundo sem que sejamos tão competitivos. Temos que aprender a tratar este planeta com o amor que ele merece”, elencou Dennis.

Na jornada para encontrar formas de motivar os estudantes, o pesquisador recomendou, em primeiro lugar, desmistificar três lugares-comuns do tema.

Mito 1: educação precisa de relevante para motivar 

Dennis reconhece que muitas crianças e jovens se engajam quando os professores tratam de temas relevantes da atualidade, como mudança climática, racismo, sexismo. Porém, não são os únicos assuntos que despertam curiosidade. “Crianças adoram coisas como dinossauros, que já foram extintos. E saber do Harry Potter, de unicórnios, porque gostam de usar a imaginação. E adultos também!”.

Mito 2: professor precisa usar tecnologia para motivar 

Novas tecnologias podem ser sim excelentes aliadas, mas elas não são imprescindíveis, nem precisam ser usadas o tempo todo. “Até hoje eu me lembro de uma aula de biologia na qual tivemos que sair para a cidade, uma aula de observação ao ar livre. Mesmo morando numa grande cidade isso é possível – e as pesquisas mostram que há muitos benefícios”, citou o pesquisador.

Mito 3: a aula precisa ser divertida para motivar

Sim, a escola pode ser um espaço acolhedor e divertido, mas é impossível ser divertida o tempo todo. Até mesmo a diversão pode ser uma ideia aprisionadora. “Algumas vezes vamos ter que pensar sobre o genocídio de indígenas, ou ler o Diário de Anne Frank. Divirtam-se sempre que possível, mas não podemos fingir que certas questões não existem”, afirmou.

Ao ficar livre dos mitos que limitam as formas de despertar o interesse, os educadores podem olhar de forma mais realista para o que pode ser feito para de fato motivar seus alunos. Há cinco bons caminhos para conseguir fazer isso, segundo Dennis.

Caminho 1: Valor intrínseco

O inimigo número do interesse na escola é o desencanto. Um dia a dia enfadonho pode acabar drenando a magia do aprender. Mas as crianças são naturalmente curiosas, por isso a ideia é tirar proveito dos interesses que elas já têm, explorando temas e metodologias diferentes. Dennis elogiou a experiência de um professor que fez as crianças tocarem xilofone para aprenderem matemática. “Não importa qual é o interesse dos alunos, se é um jogador de futebol famoso, um astro pop. Os professores têm que conhecer seus interesses e aproveitá-los”, disse.

Caminho 2: Importância

A desconexão dos conteúdos com a realidade pode ser um entrave ao interesse dos alunos na escola. Muitos estudantes relatam não entender os motivos ou propósitos do que os professores falam. Para conseguir mostrar a importância dos conteúdos, é necessário trazer a vida e a comunidade para dentro do contexto de aprendizagem. “Vi um guarda florestal que foi na escola falar de um peixe. Era um ingrediente da comida tradicional local e, com essa tradição, estavam tentando atrair turistas e melhorar a economia da região”, cita como um bom exemplo para dar importância a conteúdos.

Caminho 3: Associação

Durante a pandemia, com a necessidade de distanciamento social, todos sofreram com a dissociação e percebemos como é mais difícil produzir dessa forma. Mas não é só a pandemia que afasta as pessoas. Na escola, muitas vezes há bullying, marginalizações e exclusões. “Associação é sentir que você é parte do grupo, e não um forasteiro. Nós, professores, temos de acolher e fazer com que nenhum aluno se sinta fora da escola”, recomendou.

Caminho 4: Empoderamento

Não ter espaço para partilhar suas opiniões, dizer que tipo de trabalhos gostam, o que gostariam de ver no currículo costuma levar ao desinteresse. Alunos querem ter voz na escola. Portanto, quando se fala em “empoderamento” não se trata do poder no sentido de dominação, mas sim como uma habilidade de agir. Esse tipo de aprendizado vai ter repercussões ao longo da vida. “Empoderar é fazer com que sintam que eles têm a capacidade de mudar o mundo”, afirmou Dennis.

Caminho 5: Maestria

“Todo mundo quer ser bom em alguma coisa; ninguém quer ser bom em ‘nada’. Alguns talvez tenham dificuldades e precisem de ajuda para encontrar um assunto acadêmico em particular que possam lidar”, disse o pesquisador americano. A busca pela excelência em algo específico pode ajudar a dar mais foco, evitando assim as distrações tão naturais. “Quando se tem 15 anos, além do celular, você pode se distrair com um colega do outro lado da sala”, lembrou Dennis.

Reconhecendo os mitos e seguindo alguns bons caminhos, toda escola pode ser um local empolgante, garante o professor. “Podemos transformar nossas escolas de um lugar burocrático, onde existe isolamento, em um local onde as pessoas tenham foco, se divirtam e possam fazer do mundo um local melhor”, disse.

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ciências da aprendizagem, ensino fundamental, ensino médio

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