Apesar de avanços em políticas nacionais e leis recentes voltadas para a educação digital, os resultados do PISA 2025, avaliação internacional da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que mede o desempenho de estudantes de 15 anos, indicam que os jovens brasileiros ainda enfrentam grandes desafios para desenvolver competências digitais básicas. Ao mesmo tempo, cerca de 48% dos alunos já utilizam com frequência chatbots de IA para atividades escolares, proporção ligeiramente superior à média da OCDE (46%).

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Esses sistemas funcionam como um “assistente virtual” que conversa com o usuário em linguagem natural. Ele entende perguntas ou comandos escritos e responde de forma automática, simulando um diálogo humano. Diferente de uma busca tradicional no Google, na qual o estudante precisa visitar vários sites para construir uma síntese, o chatbot já entrega uma resposta pronta, organizada e contextualizada.

Os estudantes brasileiros recorrem a essas ferramentas principalmente para:

  • Pesquisas preliminares sobre novos temas (40%);
  • Resumo de textos (31%);
  • Elaboração de rascunhos (27%).

Apenas 11% disseram nunca ou quase nunca utilizar IA em atividades escolares. Esse cenário abre oportunidades pedagógicas, mas também levanta preocupações sobre dependência tecnológica e desigualdade de acesso.

Competências digitais e criticidade em baixa

No Brasil, apenas 30% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível mínimo de proficiência nessa competência, enquanto a média da OCDE foi de 64%. O dado evidencia a dificuldade dos alunos do país em aplicar raciocínio lógico na prática e coloca o Brasil distante dos líderes globais, como as regiões participantes da China (Pequim, Xangai, Jiangsu, Zhejiang, Macau e Hong Kong), além de Singapura, Coreia do Sul, Japão e Taipé Chinês. No ranking geral, o Brasil somou 406 pontos, ocupando a 69ª posição entre 91 países, quase 100 pontos abaixo da média da OCDE, que é 500.

A avaliação testou a resolução de problemas computacionais por meio de desafios práticos de programação, como mover objetos em grades ou manipular “garras recicladoras”. As tarefas exigiam criar sequências de comandos, aplicar estruturas de repetição e depurar erros. Mais do que chegar à resposta correta, a pontuação valorizou a eficiência, a clareza e a capacidade de pensar de forma estruturada.

Outro aspecto relevante desta edição do PISA foi a capacidade dos estudantes de avaliar conteúdos gerados por IA. A OCDE reforça que não basta colocar a tecnologia nas mãos dos alunos; é preciso ensinar autorregulação e prevenção contra a desinformação.

Além disso, o relatório destacou dados sobre o clima escolar: 17% dos alunos brasileiros relataram sofrer bullying e 3% foram vítimas de cyberbullying (assédio online), números alinhados às médias internacionais que reforçam a urgência de políticas de proteção digital.

Regulação do uso da IA na educação

Os dados do PISA chegam em um momento no qual diversos países começam a impor limites à inteligência artificial na rotina escolar. No Brasil, o CNE (Conselho Nacional de Educação) determinou recentemente que a IA na escola deve ter mediação docente obrigatória e foco no letramento digital crítico. Ou seja: os alunos podem interagir com a tecnologia, mas sempre em atividades planejadas, aprendendo a identificar viés algorítmico, desinformação e dilemas éticos.

Na média da OCDE, o desempenho dos estudantes caiu em relação a 2022, especialmente em leitura e matemática. O recuo também aparece em países que recentemente adotaram limites para o uso de IA por estudantes, como França e Noruega, que também retrocederam nos indicadores. Isso não significa, porém, que exista correlação entre os dois fenômenos: as restrições à IA são recentes e o PISA não permite atribuir as mudanças de desempenho ao uso da tecnologia.  

França: Desde junho de 2025, o marco de uso da IA na educação do Ministério da Educação francês estabelece que, no ensino primário, as crianças devem aprender conhecimentos básicos sobre inteligência artificial sem manipular diretamente ferramentas de IA generativa. A utilização pelos próprios alunos é permitida a partir da 4e, equivalente aproximadamente ao 8º ano brasileiro, desde que seja limitada, explicada e acompanhada pelo professor. No ensino médio, pode haver uso autônomo dentro de um contexto de aprendizagem definido pelo docente. No PISA 2025, a França apresentou resultados próximos à média da OCDE. A política francesa, no entanto, é anterior à divulgação do PISA e não pode ser interpretada como consequência desses resultados.

Noruega: O governo adotou uma recomendação ainda mais restritiva. A partir do ano letivo iniciado em 2026, estudantes do 1º ao 7º ano devem, em regra, ser impedidos de usar diretamente IA generativa nos trabalhos escolares. Do 8º ao 10º ano, a tecnologia pode ser introduzida de forma gradual e cautelosa, depois que os professores tiverem formação para orientar os estudantes. No ensino médio, a recomendação é preparar os jovens para utilizar IA adequadamente nos estudos e no trabalho. A medida pode ser consultada no comunicado oficial do governo norueguês e nas orientações da Diretoria de Educação da Noruega. Os resultados do país estão na nota da Noruega no PISA 2025.

Estados Unidos: Em Nova York, maior rede pública de ensino dos EUA, estabeleceu para 2026-2027 uma moratória de um ano para ferramentas de IA generativa voltadas diretamente aos estudantes da pré-escola ao 8º ano. No ensino médio, o uso fica restrito a programas aprovados, avaliados e acompanhados por educadores. Os chamados companion chatbots, criados para estabelecer conversas e vínculos continuados com o usuário, foram proibidos em todas as séries. A política das escolas públicas de Nova York e o anúncio oficial da prefeitura detalham as restrições. Como o PISA não produz resultado específico para a cidade, a comparação possível é com os dados dos Estados Unidos no PISA 2025.

Itália: O caso italiano é diferente porque a principal restrição está relacionada à proteção de menores diante de chatbots, e não a uma proibição nacional da IA nas escolas. Em julho de 2026, a autoridade italiana de proteção de dados sancionou a Character.AI após identificar problemas relacionados, entre outros pontos, à proteção de menores e aos mecanismos de verificação de idade. A decisão faz parte de um movimento de maior controle sobre sistemas que permitem conversas diretas e persistentes entre crianças ou adolescentes e personagens de IA. Os resultados educacionais do país podem ser consultados na nota da Itália no PISA 2025.

Cursos gratuitos sobre IA na educação

Para apoiar os educadores, o MEC (Ministério da Educação), por meio da plataforma AVAMEC, oferece cursos gratuitos de formação continuada:

É diretor e editor do Porvir e faz parte da equipe desde 2014. Nesse tempo, já produziu séries sobre formação de professores e guias multimídia sobre temas como educação socioemocional, tecnologia, participação estudantil e aprendizagem prática....