Por que vale a leitura
Apresenta os resultados do Brasil no PISA 2025 em ciências, leitura, matemática e resolução de problemas computacionais.
Mostra como a desigualdade socioeconômica está associada às diferenças de aprendizagem entre os estudantes.
Destaca o apoio dos professores e desafios como indisciplina, faltas às aulas e redução do acompanhamento familiar.
A edição de 2025 do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com jovens de 15 anos, mostra que o desempenho do Brasil permaneceu estatisticamente estável em relação à edição de 2022. As pontuações do país, entretanto, continuam abaixo das médias da OCDE, enquanto a origem socioeconômica permanece fortemente associada aos resultados.
Ao descreverem o cotidiano escolar, os estudantes brasileiros relatam receber apoio dos professores, mas também apontam problemas como barulho, desordem, faltas às aulas e redução do acompanhamento familiar.
Neste ciclo, o PISA manteve as avaliações de ciências, leitura e matemática, com foco principal em ciências. A avaliação desse domínio vai além da verificação de conteúdos escolares e considera a capacidade dos estudantes de analisar evidências científicas, avaliar a credibilidade das informações e aplicar conhecimentos na tomada de decisões.
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A avaliação também incorporou novos elementos. Um deles analisa o protagonismo dos jovens diante dos desafios ambientais. Outro é o novo domínio de resolução de problemas computacionais, voltado à capacidade de aprender e solucionar desafios com o apoio de ferramentas digitais.
Resultados gerais
No Brasil, 30.140 estudantes de 1.053 escolas participaram da avaliação. A amostra representa aproximadamente 2.185.000 jovens de 15 anos, o equivalente a cerca de 76% da população do país nessa faixa etária. O Brasil registrou as seguintes pontuações médias:
- Ciências: 409 pontos, ante 403 em 2022. A diferença não representa uma mudança estatisticamente significativa.
- Leitura: 408 pontos, ante 410 em 2022, resultado considerado estável.
- Matemática: 377 pontos, ante 379 em 2022, também sem mudança estatisticamente significativa.
- Resolução de problemas computacionais: 406 pontos.
Os estudantes brasileiros ficaram abaixo das médias da OCDE em todas as áreas analisadas. Em ciências, leitura e matemática, os resultados de 2025 permaneceram estatisticamente próximos das pontuações médias observadas no Brasil desde 2015.
Embora o desempenho em matemática e leitura não tenha apresentado uma mudança significativa no longo prazo, a proporção de estudantes brasileiros com baixo desempenho em ciências diminuiu 4 pontos percentuais em comparação com 2015.
Níveis de proficiência
O PISA considera o Nível 2 o patamar básico de proficiência em ciências, leitura e matemática. A partir dele, os estudantes começam a demonstrar conhecimentos e habilidades considerados necessários para lidar com situações práticas e continuar aprendendo:
- Ciências: 48% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o Nível 2, ante 74% na média da OCDE. Nesse patamar, conseguem reconhecer explicações para fenômenos científicos familiares e, em situações simples, avaliar se uma conclusão é válida com base nos dados fornecidos. Apenas 1% alcançou os níveis mais altos de desempenho, 5 ou 6.
- Leitura: 49% dos estudantes brasileiros alcançaram o Nível 2 ou superior, ante 69% na média da OCDE. Nesse nível, conseguem identificar a ideia principal de um texto, localizar informações com base em critérios explícitos e refletir sobre o propósito e a estrutura textual quando orientados. O grupo de alto desempenho representa 1% dos participantes.
- Matemática: 28% dos estudantes atingiram o Nível 2 ou superior, ante 65% na média da OCDE. Nesse patamar, conseguem reconhecer, sem instruções diretas, como situações simples podem ser representadas matematicamente. Menos de 0,5% dos estudantes brasileiros alcançou os níveis mais altos de desempenho.
- Resolução de problemas computacionais: 30% dos estudantes brasileiros alcançaram o Nível 3 ou superior. A OCDE não estabeleceu um patamar mínimo formal para essa nova escala, mas apresenta o Nível 3 como o ponto a partir do qual os estudantes começam a demonstrar conhecimentos e habilidades mais consistentes. Nesse nível, eles conseguem combinar comandos para criar programas funcionais e realizar experimentos controlados para identificar relações simples entre fatores de um modelo.
- Baixo desempenho nas três áreas principais: aproximadamente 43,8% dos jovens brasileiros de 15 anos ficaram abaixo do Nível 2 simultaneamente em ciências, leitura e matemática.
Desigualdade socioeconômica
No Brasil, os resultados do PISA mostram uma forte associação entre origem social e desempenho escolar. O nível socioeconômico explica 16% da variação observada na pontuação de ciências, acima dos 12% registrados na média dos países da OCDE.
Enquanto a média brasileira em ciências foi de 409 pontos, a diferença entre os 25% de estudantes com maior nível socioeconômico e os 25% em situação mais desfavorecida chegou a 96 pontos. Na média da OCDE, a distância entre os dois grupos foi de 85 pontos.
A diferença evidencia a desigualdade de aprendizagem entre estudantes da mesma idade. A conversão dessa distância em anos de escolarização pode variar conforme a metodologia utilizada e, por isso, deve ser interpretada com cautela.
Mesmo nesse cenário, 10% dos estudantes brasileiros em situação socioeconômica desfavorecida foram classificados pelo PISA como academicamente resilientes. Isso significa que alcançaram resultados entre os 25% mais altos do país em ciências, apesar das condições socioeconômicas menos favoráveis.
E se os mais ricos ou os mais pobres fossem um país?
O exercício a seguir é uma comparação elaborada pelo Porvir com base nas pontuações divulgadas pela OCDE. Os grupos socioeconômicos brasileiros não constituem países ou sistemas educacionais independentes, e a comparação não representa uma classificação oficial do PISA.
O grupo formado pelos 25% de estudantes brasileiros com maior nível socioeconômico alcançou uma pontuação estimada de 469 pontos em ciências. Se fosse comparado aos países e economias participantes:
- ficaria acima do Uruguai, com 445 pontos, e do Chile, com 442;
- teria resultado próximo ao da Letônia, com 468 pontos, e ao da Noruega, com 470.
Na outra ponta, os 25% de estudantes brasileiros em situação socioeconômica mais desfavorecida registraram uma pontuação estimada de 373 pontos em ciências. Na comparação com os resultados nacionais divulgados pelo PISA, esse grupo:
- teria a mesma pontuação das Filipinas, com 373 pontos;
- ficaria próximo do Líbano, com 372 pontos, da Armênia, com 369, do Quirguistão, com 363, da República Dominicana, com 361, da Autoridade Palestina, com 359, do Marrocos, com 358, e do Kosovo, com 357;
- ficaria 20 pontos abaixo da Argentina, com 393 pontos, e 18 pontos acima do Paraguai, com 355.
Estudantes reconhecem apoio dos professores
O apoio dos professores é um dos destaques da amostra brasileira. Segundo o relatório, 82% dos estudantes afirmam que os docentes demonstram interesse pela aprendizagem de cada um, percentual superior à média da OCDE, de 69%.
Além disso, 78% relatam que os professores continuam ensinando até que a turma compreenda o conteúdo, ante 66% na média da OCDE. Outros 76% dizem receber ajuda adicional dos docentes quando necessário, em comparação com 73% na média da organização.
Os estudantes também recorrem aos professores quando precisam de ajuda: 81% dos brasileiros relatam essa prática, ante 77% na média da OCDE.
Apenas 16% dos estudantes brasileiros consideram a escola uma perda de tempo, percentual inferior aos 24% registrados na média da OCDE.
Desafios persistentes
O barulho e a desordem continuam presentes nas salas de aula e são percebidos pelos próprios estudantes. Cerca de 44% relatam que essas situações interrompem a maioria das aulas de ciências, ante 31% na média da OCDE. Outros 25% afirmam que não conseguem trabalhar bem durante as aulas.
No Brasil, 25% dos estudantes relatam distração provocada pelo uso de dispositivos digitais pelos colegas, ante 28% na média da OCDE. O relatório identifica uma associação entre essa distração e uma diferença de 19 pontos no desempenho em ciências, acima dos 11 pontos observados na média da organização. Esses dados, isoladamente, não permitem atribuir a diferença à legislação que restringe o uso de celulares nas escolas.
O acompanhamento familiar relatado pelos estudantes também diminuiu. A proporção dos que afirmam que seus familiares perguntam semanalmente sobre a rotina escolar passou de 62%, em 2022, para 51%, em 2025.
As faltas às aulas aumentaram em comparação com 2022. No Brasil, 55% dos estudantes afirmaram ter faltado a pelo menos um dia inteiro de aula nas duas semanas anteriores à aplicação do PISA, mais que o dobro da média da OCDE, de 22%. No mesmo período, 53% dos brasileiros disseram ter faltado a pelo menos uma aula, ante 24% na média dos países da organização.
Caminhos para enfrentar os desafios
Para melhorar a aprendizagem em ciências, leitura e matemática, o debate precisa considerar tanto o que acontece dentro da sala de aula quanto os diferentes contextos sociais e econômicos em que os estudantes vivem.
No Brasil, fatores como gênero, raça e nível socioeconômico estão associados a diferenças nas oportunidades de aprendizagem, no acesso a recursos e nas expectativas dirigidas aos estudantes. Ignorar essas desigualdades significa observar apenas parte da realidade educacional e desconsiderar os obstáculos enfrentados por muitos jovens.
Colocar a equidade no centro do debate envolve reconhecer que os estudantes partem de condições diferentes e que as políticas educacionais precisam oferecer apoios adequados para reduzir essas disparidades.
🎧 Ouça o podcast do Porvir sobre equidade na educação.
A indisciplina é um fenômeno complexo e não pode ser explicada por uma única causa. Pode estar associada às relações entre estudantes e professores, às condições de ensino, ao ambiente escolar, ao desenvolvimento dos jovens e a fatores externos, como os contextos familiar e social.
Mais do que um problema a ser controlado ou punido, a indisciplina exige estratégias que favoreçam o diálogo, a construção coletiva de regras, a autonomia e a responsabilidade dos estudantes, além do fortalecimento das relações de confiança.
A redução do acompanhamento familiar relatado pelos estudantes também exige das escolas estratégias flexíveis, responsabilidades compartilhadas e canais frequentes de comunicação. Essas ações podem fortalecer a parceria entre famílias e instituições de ensino e criar um ambiente de maior confiança e colaboração.
Entre os benefícios dessa aproximação está a redução da busca por culpados, o reconhecimento de que escola e família desempenham papéis interdependentes e a valorização das diferentes perspectivas sobre o desenvolvimento dos estudantes. Leia este artigo sobre a parceria entre família e escola e conheça a série do Porvir sobre engajamento familiar.
No ensino de ciências, uma das abordagens possíveis é a STEAM, sigla em inglês para ciências, tecnologia, engenharia, arte e matemática. A proposta integra diferentes áreas do conhecimento em atividades e projetos práticos, sem se limitar à preparação para avaliações ou para o mercado de trabalho.
A abordagem pode ajudar os estudantes a relacionar conceitos de diferentes áreas, investigar problemas e desenvolver projetos criativos. Também favorece competências como colaboração, empatia, pensamento crítico e resolução de problemas.
Próximos resultados
A OCDE deve divulgar, em 2027, dois novos relatórios relacionados ao PISA 2025. O volume 2, Connected through English (Conectados pelo Inglês), examinará como os estudantes desenvolvem competências de leitura, compreensão oral e fala em inglês como língua estrangeira.
O estudo deverá analisar como essas habilidades se relacionam, como variam conforme fatores sociais e demográficos, onde os jovens aprendem e praticam o idioma e qual importância atribuem ao inglês. Também deverá abordar diferenças de desempenho entre escolas e possíveis implicações para as políticas educacionais.
O volume 3, Effective Learners in the Digital World (Aprendizes Eficazes no Mundo Digital), investigará como os estudantes regulam a própria aprendizagem e resolvem problemas utilizando ferramentas digitais.
O relatório deverá examinar estratégias de engajamento, acompanhamento do progresso e autoavaliação, além de comparar formas de aprendizagem e resolução de problemas entre países, grupos de estudantes e tipos de tarefa.

