Overview:
Reflete sobre o papel essencial do professor na formação de leitores.
Apresenta estratégias para apoiar estudantes com dificuldades de leitura.
Traz exemplos de atividades literárias que envolvem escola, alunos e famílias.
É difícil não abrir um sorriso ao encontrar Pedro Bandeira. Aos 84 anos, ele sorri de volta e parece carregar consigo alguma lembrança dos tempos de escola. Talvez porque, ainda hoje, novos e antigos leitores se aproximem dele trazendo as suas próprias memórias: um livro indicado por um professor, uma história descoberta na biblioteca, uma leitura compartilhada em sala de aula ou as aventuras dos Karas, iniciadas com “A Droga da Obediência”, em 1984.
Pedro conhece bem essa sensação de reencontrar a própria história por meio de um livro. Leitor desde menino, cresceu em Santos (SP) entre gibis escondidos da avó e tardes inteiras de leitura. Quando chegava à última página de “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, não queria que a história terminasse: voltava à primeira e começava tudo outra vez.
Décadas depois, são os livros dele que fazem esse caminho de volta.
Na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, bastava acompanhar Pedro por alguns minutos para perceber como sua obra marca gerações. Vieram abraços, fotografias, pedidos de autógrafos e recordações. Entre eles, professores que conheceram suas histórias quando ainda eram estudantes e hoje as apresentam aos próprios alunos.
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Não por acaso, uma das mesas de que participou levava o nome “Sessão nostalgia: livros que cresceram com seus leitores”. Ao lado dos escritores Thalita Rebouças, Maria Mariana e Nelson Luiz de Carvalho, Pedro conversou sobre obras e personagens que atravessaram o tempo. No caso dele, chegaram também às salas de aula e nunca mais deixaram de frequentá-las.
Essa relação com a educação começou muito antes de seus livros chegarem aos projetos de leitura. Primeiro, Pedro esteve nelas como aluno da educação básica, em Santos. Mais tarde, já em São Paulo, voltou à escola do outro lado da mesa, como professor de literatura brasileira e portuguesa no ensino médio e em cursos pré-vestibulares. Em 1983, com a publicação de “O dinossauro que fazia au-au”, iniciou uma nova relação com esse espaço: tornou-se autor de histórias que encontrariam na escola um dos principais caminhos para chegar a milhões de leitores.

Mais de quatro décadas depois, o percurso continua, ainda que as formas de ler tenham mudado. Pedro ainda encontra adolescentes diante de seus personagens e professores dispostos a apresentá-los a uma nova geração.
Na segunda-feira (7), durante a Bienal do Livro, Pedro Bandeira conversou com o Porvir sobre essa relação entre literatura e escola, o papel dos professores na formação de leitores e a experiência de ver histórias escritas há décadas continuarem a ganhar vida nas mãos de novos leitores.
Porvir – Seus livros fazem parte de diferentes gerações. Como é, para o senhor, estar sempre na sala de aula?
Pedro Bandeira – A sala de aula me fez escritor, porque, infelizmente, o Brasil não é o país do livro. Uma grande parte da população brasileira é mal letrada. Isso é um grande problema que nós temos. Quem faz um país é um povo. Se você tem um povo mal preparado, a coisa é difícil.
Por isso, o trabalho do professor é fundamental, porque as nossas famílias não dão tanta atenção à educação como deveriam. As professoras que nos leem sabem que, quando convocam uma reunião de pais, comparecem aqueles pais dos alunos que são bonzinhos, que fazem tudo direitinho. O pai do “demoninho”, ela nem sabe a cara dele. Por isso que ele é um “demoninho”. Nunca ouviu uma historinha no colo da mamãe, nunca recebeu um livrinho, uma revistinha, um quadrinho para folhear.
Essa é uma dificuldade com a qual a professora tem que lidar. Ainda mais em um país como o Brasil, em que a carreira do professor não tem o merecimento que deveria.
Porvir – Quando o senhor olha para a escola brasileira de hoje e compara com aquela em que estudou, o que mudou?
Pedro Bandeira – Está melhorando. Quando eu estudava, por exemplo, não havia vaga para todas as crianças. Para entrar no chamado ginásio, que hoje é o ensino fundamental 2, você tinha que prestar um exame de admissão.
Quando fiz isso na minha cidade, em Santos, descobri depois, quando fui estudar história da educação, que no meu tempo só havia vaga para 30% das crianças. Não era um exame de admissão, era um exame de exclusão de 70%. Só 30% entravam na escola depois do primário.
Agora há vagas para todas as crianças. Com muito esforço, com merenda e tudo mais, a gente está lutando. Está melhorando desde a redemocratização. O Brasil está andando graças ao professor que não desiste.

Porvir – E a valorização dos professores acompanhou essa melhora?
Pedro Bandeira – O professor ganha mal. Sempre que ouço falar em aumento de salário no setor público, para senador, para juiz… Nunca é para professor.
O professor tem que trabalhar em várias escolas para poder complementar [a renda]. E que horas é que ele tem para melhorar? Para ler, para ir ao cinema, para ir ao teatro, para ele também melhorar como professor? Ele trabalha tanto que, no fim de semana, fica corrigindo provas.
Porvir – Até onde vai o papel do professor na formação de leitores? E o que cabe à família?
Pedro Bandeira – O grande leitor é feito desde o berço. Desde o berço você tem que apresentar à criança a literatura, a historinha no colo, a música, tudo isso. Você não pode esperar que a professora faça isso.
As professoras têm hoje essa obrigação. Elas recebem crianças “zeradas”. E não é só filho de pobre, não. É filho de rico também. Nós temos que mudar [essa percepção] da família.
Mas eu dependo totalmente dos professores. Se, quando comecei a minha carreira, os professores não adotassem meus livros, eu jamais seria o escritor profissional que sou. Naquele tempo, era só adoção escolar. E a adoção escolar me fez escritor. Então, eu devo ao professor. Porque a criança não vai ao livro. A criança não vai a uma livraria comprar livros. Só vai se for para comprar o livro que a professora indicou.
Sem o professor, eu não sou ninguém. É o professor que dá o pontapé para a gente começar. Quando, na verdade, ele deveria continuar a educação da família. Mas chegaremos lá. Eu não sou pessimista.
Porvir – Quais livros ou autores foram responsáveis pelo seu amor pela literatura?
Pedro Bandeira – Muitos. Eu comecei, vamos dizer, com “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, que me transformou num menino. Depois, “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson, me transformou num jovem. E depois “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo, me transformou num adulto. E tem tantos outros…
Porvir – E, entre os professores que passaram pela sua vida, algum marcou especialmente o senhor?
Pedro Bandeira – No meu tempo, o professor era muito distante. Era mais um cara que fazia um discurso na aula. Hoje é diferente.
Eu não estudava, eu lia. Na véspera de uma prova de física, eu me lembro que estava lendo “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, em vez de estudar física. Hoje eu não sei nada de física, mas sei muito de Dostoiévski (risos).
As aulas eram muito repetidas, tinha pouca pesquisa também. Meu tempo foi nos anos 1950, 1960. Era muito atrasado. Hoje a escola mudou, o professor mudou, mas o salário dele não mudou. No meu tempo, os professores do estado, do ginásio, que hoje seria o fundamental 2, todos iam de carro. Minha família nunca teve um carro. Mas eles ganhavam o suficiente. E comprar um carro nos anos 1950 era difícil, porque tudo era importado, da França, da Inglaterra.
Dizem que o salário do concursado de escola pública no estado de São Paulo equivalia ao salário de um juiz. Hoje, onde está o salário do juiz e onde está o do professor? Tenho dado muitas conferências para professoras e a gente se lamenta junto disso.
Porvir – Quais dicas o senhor daria aos professores para aproximar da leitura os alunos que têm mais dificuldade?
Pedro Bandeira – Se um aluno não lê, é muito difícil. Mas procure facilitar a vida dele. Eu tenho, inclusive, um projeto que vou fazer nas redes sociais sobre como recuperar um mau aluno.
O mau aluno, na verdade, é alguém que lê mal. Ele não entende direito o que lê, tem dificuldade de letramento. E a culpa não é dele. Ninguém é mau porque quer. Ninguém é mau aluno porque quer. É porque não pode ser melhor.
Nós deveríamos ter na escola uma UTI, como tem num hospital. Você tem 30 alunos: cinco são ótimos, 20 são mais ou menos, mas tem cinco muito ruins, que precisariam de um trabalho duro. Agora, a professora não pode abandonar 25 alunos para cuidar de cinco.
Então, deveria haver, fora da aula, uma professora especializada para cuidar desses alunos. Não chamar de mau aluno, preguiçoso, vagabundo. Ele não tem culpa. Você começa a repetir que ele é preguiçoso e ele fala: “Ah, eu sou preguiçoso mesmo”. Ele engole o xingamento. “Eu sou um mau aluno mesmo. Eu sou isso mesmo.”
Já ouvi: “A professora diz que eu sou impossível”. Como você é impossível? É um ser humano, tudo é possibilidade para você. Como é que alguém diz que você é impossível?
Porvir – E como seria esse trabalho com os alunos que apresentam mais dificuldade?
Pedro Bandeira – Teria que ter uma professora que pudesse ir ao comecinho, devagarzinho. Você pode usar um gravador, mandar a criança ler uma frase e gravar. Aí ela ouve a frase e percebe que leu mal, porque ela fala direitinho, mas, na hora em que vai ler, lê mal. “Está vendo, meu filho? Você está com problema. Vamos resolver isso.”
E aí, com treinamento, vai crescendo. Tem que entrar história em quadrinhos, versinho simples, letra de música. Depois, pequenas histórias, uma fábula de Esopo: “O que você entendeu, meu filho?”. E vai indo até ele chegar ao livro.
Hoje em dia, eles passam de ano, mas passam de ano sem saber ler. No ensino médio, ele não entende a linguagem do professor. Quem lê tão pouco tem pouco vocabulário na cabeça. Então, o que ele faz? Abandona a escola.
Porvir – E o professor consegue dar esse acompanhamento dentro da sala de aula?
Pedro Bandeira – Nós temos que dar aula para o mau aluno, não para o bom aluno. O bom aluno vai sozinho. Todo professor sabe que o bom aluno quase não precisa de professor. Quem precisa são aqueles que ela não pode tratar especialmente.
Todos têm direito à plena educação, ao pleno letramento. Se você é capaz de ler qualquer coisa, vai bem em qualquer matéria, porque tudo está escrito. Pode ser no papel, na tela, no computador, mas tudo está escrito.
A culpa não é do celular. A culpa é nossa. Primeiro, da família. Mas a família não vai mudar assim. E eu sei que o professor ainda vai sofrer muito tempo. Mas, se a gente pudesse fazer uma “UTI do mau aluno”, melhoraria muito o que a gente entrega para a sociedade. Entregaríamos cidadãos mais bem preparados para lutar pela vida.
A professora de classe não consegue fazer isso sozinha. Ela não pode ser um hospital inteiro, ambulatório, enfermaria e UTI. Tem que ter alguém para cuidar dos que têm mais dificuldade, uma pessoa mais bem treinada, eventualmente com maior salário.
Porvir – Ao longo desses anos, alguma forma de os professores trabalharem seus livros em sala de aula marcou o senhor especialmente?
Pedro Bandeira – Há muito tempo, um professor me ensinou uma coisa importante. Ele adotava um livro e fazia um bilhete para o aluno levar para casa. O bilhete era para a mãe ou para o pai também lerem o livro, para conversar com a criança sobre ele. E depois ele fazia uma reunião.
Era lindo ver o pai e o filho abraçados e, de repente, conversando sobre alguma coisa que fazia sentido para os dois. Eles podem não conversar sobre cabelo, porque o menino acha ridículo o cabelo do papai, ou sobre roupa, ou sobre música. Mas há uma coisa da qual os dois gostaram: o livro.
Porvir – O senhor se lembra de qual livro era?
Pedro Bandeira – Lembro. Ele adotou, na época, “É Proibido Miar”, um livro de que gosto muito. Ele era de Jundiaí, mas isso faz 40 anos.
Teve também uma professora que adotou “A Droga da Obediência”. Ela falou com o juiz da comarca e, no tribunal vazio, fizeram um julgamento. O juiz ficou como juiz, tinha aluno que era promotor, outro era advogado de defesa do vilão do livro e tinha jurados. Eles fizeram o julgamento do meu vilão. Foi uma coisa linda. E foi tão bom que o defensor ganhou e o vilão foi inocentado pelo juiz. O menino era tão bom de fala. Foi um ótimo advogado.
▶️ A conversa com Pedro Bandeira continua no Instagram do Porvir
Eterno aliado dos educadores
Em um vídeo publicado em seu canal no YouTube, Pedro Bandeira deixa uma mensagem direta aos professores. O escritor agradece pela dedicação, pelo trabalho e por “não desistirem, apesar de tudo”. Também se apresenta como um aliado dos educadores na “batalha diária que é educar”.
“Vocês sempre terão um aliado em mim. Eu nunca me cansarei de defender vocês e vocês podem contar comigo para o que der e vier. Estaremos sempre juntos”, afirma.
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