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Inovações em Educação

3 verdades e 1 mentira que influenciaram Mandela

Empreendedora que leva nome de presidente sul-africano usa experiência de escola para liderar Startup Weekend Education

por Patrícia Gomes ilustração relógio 25 de fevereiro de 2014

Mandela Schumacher-Hodge carrega no nome a responsabilidade de homenagear o líder sul-africano, que morreu no fim do ano passado e deixou um país inteiro de luto. Em comum, ao menos um ponto une a jovem empreendedora Mandela ao velho político e pacifista Mandela: a paixão educação. Aos 28, ela acaba de ser nomeada pela Forbes uma das 30 personalidades do mundo da eduação com menos de 30 anos. Por quê? A velocidade na fala que acompanha a empolgação por seus projetos dá uma dica. Claro, pelo trabalho que atualmente vem fazendo à frente da rede da Startup Weekend Education, que reúne educadores e startupeiros de todo mundo para solucionar problemas reais da sala de aula com educação e tecnologia. Mas também, ela faz questão de frisar, por seus anos de experiência como professora de escola pública e empreendedora.

Antes, porém, de se tornar um símbolo de uma geração de jovens que resolveu assumir para si a responsabilidade de melhorar a educação, Mandela queria era ser jogadora de futebol. Mas depois de uma viagem, que incluiu uma passagem pelo Brasil, Mandela resolveu voltar para os EUA e fazer trabalhos voluntários. Trabalhou em um centro de detenção para menores infratores e descobriu que tinha talento para o ensino. Começou a faculdade e, ao se formar, foi selecionada para o Teach for America, um programa que escolhe os melhores alunos das melhores universidades para, durante dois anos, dar aulas em escolas em situação de alta vulnerabilidade social.

Foi lá, durante seu primeiro ano como professora, que conheceu o Edgar. E foi por causa dele, de três verdades e uma mentira, que sua vida como educadora mudou completamente. Mandela dava aula de inglês para alunos do sexto ano, para crianças que tinham seus 10 anos de idade. Edgar tinha o perfil muito parecido com qualquer aluno de sua idade: gostava de ler o que seus colegas liam, não gostava muito do uniforme escolar e adorava o recreio. Por outro lado, ele era também um aluno esforçado, fazia os deveres de casa, tirava notas altas e ajudava os colegas.

Na volta do recesso, para retomar as atividades e conhecer melhor seus alunos, ela propôs uma dinâmica em que cada aluno deveria falar quatro frases, sendo três verdades e uma mentira. A turma deveria descobrir qual era a frase mentirosa. Na vez de Edgar, ele falou: 1. eu tenho o nome do meu pai; 2. já fiz parte de uma gangue; 3. quero ser chef de cozinha quando crescer; e 4. meu herói favorito é o Batman. Os colegas do menino primeiro apontaram a frase da gangue como mentira. “Não, essa é verdade”. “O queixo de todo mundo caiu, inclusive o meu. Dei a palavra a outro aluno que queria falar, mas nem me lembro o que ele disse. O Edgar, um menino normal de 10 anos de idade, de ótimo comportamento e ótimas notas, já fez parte de uma gangue? Eu não podia acreditar”, disse a educadora. Então ela voltou-se ao seu aluno e perguntou qual era a mentira. Ele logo esclareceu: seu super-herói favorito era o Homem Aranha, não o Batman.

Ao conversar reservadamente com o menino, logo depois da dinâmica, Mandela descobriu o tanto de história que se escondia por trás de uma vida tão curta. O pai de Edgar era o chefe de um bando no Texas. O garoto se lembrava de, na sua casa, haver sempre gente envolvida com o crime, armas e drogas. Aos 7 anos, seu pai já o mandava entregar pacotes, que tinha ordens expressas de não abrir. Na maior parte das vezes, ele descobriria depois, era dinheiro. Algumas outras, drogas mesmo. Durante esses anos de sua infância, viu coisas que preferiu não contar para Mandela. Ele as resumiu dizendo apenas que eram “muito ruins”, mas deixou escapar que uma de suas lembranças era ter visto seu tio, irmão de seu pai, ser baleado. Por fim, seu pai foi preso e a mãe do menino se mudou com os filhos o Centro Sul dos EUA para ficar perto da família.

divulgação

É aí que o avô de Edgar entra na história. Ele ensinou ao neto que a vida é toda feita de escolhas, que é possível escolher ter raiva ou escolher ser feliz. Que o pai do menino havia feito escolhas ruins e agora estava arcando com as consequências disso. E que ele não tinha que se envergonhar do passado, porque ele explica o menino forte que Edgar havia se tornado. “Eu escolhi olhar para o bem, pensar no bem e tentar ser feliz”, disse o menino para a educadora. “Naquele dia, durante os 20 e poucos estranhos minutos que duraram aquele almoço, uma mudança aconteceu dentro de mim. O Edgar me fez entender que nossas vidas são resultado das escolhas que a gente faz e como decidimos lidar com elas”, disse Mandela.

Da sala de aula para a startup
Com esse sentimento de poder nas mãos, três anos depois, em 2011, Mandela participou com uma ideia do primeiro Startup Weekend Education. O evento Startup Weekend já ocorria há mais tempo, mas era a primeira edição voltada à educação. Nele, durante um fim de semana, empreendedores se reúnem para contar suas ideias, passam por palestras para melhorar a estruturação de seus produtos e, ao fim, apresentam sua solução. As melhores ideias ganham. Mandela ficou em primeiro lugar com a ideia de uma rede, primeiro chamada Demo Lessons e depois Tioki, em que os professores trocam informações e se conectam uns aos outros. Como se fosse um “LinkedIn da Educação”.

Ali, naquele fim de semana em São Francisco, Mandela dava o passo de sair das salas de aula para se tornar empreendedora. O doutorado e o caminho previamente trilhado podiam esperar. Nesse momento, ela foi buscar na sua experiência como professora e nas lições que Edgar deixara as habilidades de que precisava para liderar um negócio. “O tipo de habilidade que um empreendedor precisa em muito se parece com as do professor. Um professor precisa ser um líder, ter perfil empreendedor, buscar informação em múltiplas fontes e enfrentar muitos obstáculos. Minha experiência como professora me ajudou muito quando decidi empreender”, afirmou ela.

Sonho de Cinderela
A Tioki foi crescendo e, um dia, pela experiência que tinha tanto como empreendedora quanto educadora, os organizadores da Startup Weekend Education a convidaram para mediar um encontro. Era um teste. Depois do evento, ela foi chamada para se tornar a diretora do Startup Weekend Education que, pela primeira vez, teria alguém com experiência de sala de aula no comando. “Era como se fosse uma história da Cinderela. Eu ganhei o primeiro SWEdu (Startup Weekend Education) e agora estava sendo chamada para dirigir a rede”, lembra-se Mandela.

A gente vê frequentemente que muitas inovações são criadas sem nem sequer considerar o que as escolas precisam. Quer um exemplo simples? Muitas escolas ainda usam Internet Explorer 7.0 e as soluções que têm aparecido são para Chrome.

A diretora explica que muitos Startup Weekends acontecem organicamente, a pedido de pessoas que conheceram a rede, voluntariamente. Então gerentes locais dão o apoio necessário para que o evento ocorra. Os organizadores abrem páginas nas redes sociais, os empreendedores interessados se inscrevem e o burburinho e as conexões começam antes mesmo de o encontro começar. Os eventos têm início na sexta-feira à noite e terminam no fim da tarde de domingo. O modelo tem dado certo, mas a intenção de Mandela é fazer com que os SWEdu passem a ser espaços mais plurais. Por isso, para a comissão julgadora das ideias, ela sempre busca convidar gestores públicos e diretores de escola. Mas a presença que ela quer mesmo incentivar, suas raízes não negam, é a dos professores.

“A gente vê frequentemente que muitas inovações são criadas sem nem sequer considerar o que as escolas precisam. Quer um exemplo simples? Muitas escolas ainda usam Internet Explorer 7.0 e as soluções que têm aparecido são para Chrome. Temos que garantir que a tecnologia que está sendo desenvolvida condiz com a infraestrutura que as escolas têm hoje. Se estivermos falando de sala de aula invertida, ela só vai funcionar se os alunos tiverem acesso à internet de casa”, exemplifica ela. Por isso, ela quer garantir que ao menos 20% dos participantes sejam educadores.

Uma pedrinha no lago
Desde que assumiu, Mandela vem aumentando o número de eventos. Em 2013, foram organizados 2013 eventos. Em 2014, o plano inicial é ter 26, mas só entre janeiro e fevereiro terão sido 7, com mais de 700 envolvidos nos cinco primeiros. Um deles, inclusive, aconteceu em São Paulo, durante a Campus Party, nesta que foi a primeira edição do evento no Brasil e na América Latina.

“Em São Paulo, tivemos o vencedor mais jovem da história do Startup Weekend Education. Ele tinha 10 anos e era do TV Joca. O que fizemos no Brasil foi deixar a primeira pedra cair no lago e agora as ondas vão chegar até as margens. As conversas no Brasil sobre educação estão mudando. Há mais dinheiro para investir em educação. É uma excelente oportunidade para as pessoas se reunirem e conversarem”, afirma Mandela. O próximo SWEdu no Brasil está marcado para 11 de abril, em Recife.


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campus party, empreendedorismo, negócios de impacto social

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Jamile Coelho Quem acabou de comentar
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Jamile Coelho

Amo historias que inspiram pessoas!
Vou compartilhar porque como ela acredito em educação e em sua ótica de olhar a pessoa humana que está atras de cada estudante!
Só por isso que educacao é e será sempre o caminho para as transformações que precisam ser realizadas!