Cerca de um em cada três municípios brasileiros (1.842 cidades) enfrenta uma situação crítuca no saneamento básico das escolas, com falhas no abastecimento de água, esgotamento sanitário ou coleta de lixo. O mesmo número de cidades também aparece na classificação mais urgente por outro problema que afeta o cotidiano escolar: a ausência de áreas verdes.
Os dados integram o Painel Crianças e Meio Ambiente, plataforma desenvolvida pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e pela organização de saúde pública Vital Strategies. A ferramenta permite consultar, município por município, como os riscos ambientais e climáticos afetam crianças e adolescentes.
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Voltado a gestores públicos e demais interessados no tema, o painel reúne 14 indicadores, organizados em quatro áreas: ambiente escolar, eventos climáticos extremos, qualidade do ar e infraestrutura ambiental e urbana. Também apresenta recomendações para apoiar as lideranças a definir prioridades e elaborar políticas de proteção à infância e à adolescência.
Embora o Brasil tenha 5.571 municípios, a nota técnica analisa 5.570. A exceção é Boa Esperança do Norte (MT), criado em 2025 e ainda sem dados disponíveis.
No painel, cada indicador recebe um nível de prioridade: alta (exige ação imediata), média (pede planejamento no curto ou médio prazo) ou baixa (requer apenas monitoramento). A avaliação compara, na maioria dos casos, cidades de porte populacional semelhante.
| Consulte a situação do seu município |
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O Painel Crianças e Meio Ambiente permite identificar os indicadores de cada cidade e consultar orientações para o planejamento de políticas públicas. Acesse: https://www.criancasemeioambiente.org.br/ |
Em Melgaço (PA), problemas se acumulam
O diagnóstico de Melgaço, no arquipélago do Marajó (PA), exemplifica como problemas ambientais e de infraestrutura podem se acumular em um mesmo território e afetar a vida escolar. Sem ligação terrestre com outros municípios, a cidade depende dos rios para tudo. Carros e motos circulam apenas nas poucas ruas da área urbana, como mostro reportagem da BBC Brasil. Nas comunidades rurais, onde vive 80% da população, os barcos garantem o transporte dos estudantes. Quando a frota fluvial para, o direito à educação é interrompido.
A presença da água também define a forma das moradias. Muitas casas são construídas sobre palafitas, estruturas apoiadas em estacas que ajudam a protegê-las de inundações e da força das correntezas.
Melgaço registra o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) entre as cidades brasileiras. Neste município marcado pela baixa infraestrutura, crianças e adolescentes representam pouco mais da metade da população (51,1%).
Segundo o diagnóstico municipal disponível no painel, cerca de 7 em cada 10 estudantes estão matriculados em escolas sem áreas verdes. Aproximadamente 6 em cada 10 frequentam estabelecimentos que não contam, simultaneamente, com água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo. Somadas à falta de energia elétrica e atendimento de saúde realizados, por vezes, fora da cidade, essas condições se somam à exposição a eventos climáticos extremos. Melgaço está entre os territórios que registram chuvas intensas acima da média histórica. Em 2024, foi o município que mais enfrentou calor extremo, com temperaturas por volta de 38ºC em 224 dias, mostra a reportagem do Correio Braziliense.
Saneamento escolar exige ação imediata
Um dos dois indicadores relacionados ao ambiente escolar calcula a proporção de matrículas da educação básica em estabelecimentos que não dispõem simultaneamente de água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo. Os dados vêm do Censo Escolar 2024, produzido pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).
Dos 5.570 municípios analisados, 1.842 estão na faixa de alta prioridade, 2.271 aparecem na de média prioridade e 1.457 foram classificados como de baixa prioridade. O cenário mais gravem concentra-se no Norte, onde 71% dos municípios estão na faixa mais urgente, seguido pelo Nordeste, com 49%.
A nota técnica alerta que a precariedade do saneamento ultrapassa as residências e contamina o ambiente escolar, com impacto direto sobre a saúde dos estudantes e as condições de aprendizagem.
Sem estrutura básica, as redes de ensino falham na oferta de água potável, na limpeza dos banheiros, no preparo da merenda e no combate a infecções, o que empurra os estudantes para o absenteísmo e o abandono escolar. A recomendação do painel é que as prefeituras integrem as políticas de educação e saneamento, com atenção especial às escolas do campo, indígenas e quilombolas.
Nordeste e Sudeste concentram falta de áreas verdes
O segundo indicador do ambiente escolar mede o percentual de matrículas em estabelecimentos sem áreas verdes. O painel considera espaços com vegetação ou gramado, livres de impermeabilização. A fonte também é o Censo Escolar 2024.
No país, 1.842 municípios estão na faixa de alta prioridade, 1.834 aparecem na de média prioridade e 1.894 foram classificados como de baixa prioridade.
Enquanto o saneamento afeta prioritariamente o Norte, a falta de áreas verdes atinge 52% das cidades do Nordeste e 39% do Sudeste. Embora a proporção seja menor, essas cidades concentram mais da metade das crianças e dos adolescentes da região. No Norte, 23% dos municípios aparecem em alta prioridade.
Os números do Sudeste apontam um problema comum em territórios densamente urbanizados. A ocupação dos terrenos escolares por construções e a impermeabilização dos pátios podem limitar os espaços destinados à vegetação, à sombra, à convivência e ao contato com a natureza.
Áreas verdes contribuem para o bem-estar físico e psicológico dos estudantes, estimulam o envolvimento com o meio ambiente e oferecem espaços de aprendizagem mais saudáveis.
Pátios arborizados, jardins, hortas e áreas com solo permeável também ajudam a amenizar o calor e ampliam as possibilidades de brincadeira. Esses espaços podem apoiar atividades pedagógicas relacionadas a ciências, alimentação, sustentabilidade e educação climática. As informações estão disponíveis na nota técnica do painel.
Riscos ambientais
Dos 5.570 municípios analisados, apenas 108 (1,9%) estão totalmente livres de riscos críticos nos 14 indicadores. Na outra ponta, 333 cidades enfrentam alarme alto em dez ou mais áreas. No Norte, metade dos municípios está nesta faixa extrema.
O mapa mostra que os municípios não podem adotar uma única resposta. Enquanto o Norte exige socorro urgente no saneamento, Nordeste e Sudeste precisam desimpermeabilizar seus pátios.
Em algumas cidades, a medida mais urgente será garantir abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de resíduos. Em outras, as prefeituras precisarão ampliar a arborização, reduzir a impermeabilização dos pátios e adaptar os prédios escolares ao aumento das temperaturas.
Para Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil, os dados territorializados podem ajudar os municípios a identificar seus principais riscos e escolher medidas compatíveis com a realidade local. “Crianças e adolescentes são os mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas e da poluição, embora sejam os que menos contribuem para esse cenário”, afirma.
Pedro de Paula, vice-presidente sênior de Inovação da Vital Strategies, destaca que “um ambiente seguro, saudável e sustentável não é apenas um direito”, mas uma condição para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento integral. O desafio agora passa para as prefeituras: transformar o diagnóstico em medidas práticas, sejam obras preventivas ou projetos pedagógicos antes que o clima inviabilize o ano letivo.

