Avaliação diagnóstica permite olhar o aluno de forma integral - PORVIR
Crédito: Éder Chiodetto/Instituto Unibanco

Inovações em Educação

Avaliação diagnóstica permite olhar o aluno de forma integral

Informações ajudam a identificar pontos críticos no percurso escolar e a buscar formas de recuperar a aprendizagem de acordo com as necessidades de cada aluno ou grupo. Rede estadual de educação do Ceará começa a aplicar dados

Parceria com Instituto Unibanco

por Fernanda Nogueira ilustração relógio 13 de agosto de 2021

Com as perdas na aprendizagem provocadas pela pandemia de Covid-19, avaliações de larga escala que apoiam a tomada de decisão e o desenho de políticas públicas, como o Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), devem apresentar resultados ruins. Neste contexto, propostas de avaliações diagnósticas passam a fazer mais sentido, uma vez que vão além do conteúdo e buscam um olhar integral do estudante.

Segundo o professor emérito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Chico Soares, uma avaliação “para” a aprendizagem e não apenas “da” aprendizagem deve fazer parte da rotina pedagógica, por isso não pode ser externa.

“Verificar o aprendizado das dimensões do ‘ser’ e do ‘conviver’, que no Brasil são referidos como os aprendizados ‘socioemocionais’, exige muita observação dos docentes e convivência entre os estudantes. Isso foi dificultado ou mudou durante o longo período que as escolas estiveram fechadas”, afirma.

De acordo com Jorge Lira, cientista-chefe em Educação Básica no Ceará e professor titular da UFC (Universidade Federal do Ceará), testes padronizados, como os de português e matemática, se referem aos resultados consumados de aprendizagem no sistema educacional como um todo, mas são pouco informativos quanto ao desempenho dos indivíduos ou de turmas durante seu percurso acadêmico.

“Para que tenhamos efetivas políticas de recuperação das aprendizagens, é necessário termos avaliações padronizadas, estatisticamente validadas, mas que gerem resultados e devolutivas instantâneas, focalizadas e legíveis em termos de objetivos de aprendizagem expressos nos currículos”, explica Jorge.


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O professor participa da coordenação de projetos e políticas educacionais de ciclos de recuperação e fortalecimento das aprendizagens no Ceará. Na rede, a avaliação diagnóstica é o ponto de partida, seguida da formação de professores, coordenadores e supervisores.

Nas formações, são trabalhados modelos de planejamento curriculares, materiais estruturados e metodologias, considerando as evidências localizadas da aprendizagem, escola a escola, turma a turma.

Em cada ciclo, que podem chegar a quatro por ano, as avaliações são pautadas em matrizes de referência de português e matemática, segundo Jorge, descrevendo conhecimentos e habilidades ao longo de uma espiral ascendente e inter-relacionada de complexidade. Essas matrizes incorporam as usadas nos sistemas nacional e estadual de avaliação, mas vão além.

“Por estarem alinhadas ao currículo do Estado, permitem gerar devolutivas que tornam os objetivos e resultados da avaliação visíveis/legíveis para os professores. De posse das devolutivas, e com ajuda da gestão escolar, eles conseguem reorganizar seus planos de aula e estratégias pedagógicas usando as evidências, interpretadas do ponto de vista curricular”, afirma. As escolas adotam materiais estruturados, pensados para um uso flexível e adaptável a grupos de alunos com diferentes padrões de desempenho.

Pontos críticos
Jorge explica que os dados de avaliações mostram que a diferença no desempenho dos alunos do ensino médio está relacionada a noções estruturantes que deveriam ter sido alicerçadas entre os anos iniciais e finais do fundamental.

Por isso, as avaliações diagnósticas devem ajudar a identificar os pontos críticos no percurso escolar, “jogando luz sobre a rede de pré-requisitos e conhecimentos prévios que precisam ser retomados ao longo da trajetória do aluno, em abordagens significativas para sua atual etapa de aprendizagem”.

Na matemática, por exemplo, segundo o cientista-chefe, deve-se recorrer aos instrumentos e devolutivas da avaliação como norte para retomar os fundamentos da aritmética, articulá-los à linguagem das funções e desenvolver as habilidades que permitam ao estudante modelar e resolver problemas de diversos contextos, não apenas cotidianos, mas também sociais, científicos e tecnológicos.

A avaliação é fundamental para ajudar cada estudante na solução de problemas que não teve a capacidade de resolver, de acordo com Chico. “A devolutiva, que consiste em mostrar a cada estudante como pode enfrentar mais efetivamente o problema, é etapa essencial na avaliação”. Os problemas são de várias naturezas e exigem o aporte das quatro dimensões da educação integral: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a conviver.

Para o professor emérito, a organização da escola brasileira de ensino médio, em que os docentes não têm responsabilidades sobre os estudantes, mas, sim, sobre disciplinas, dificulta a ação educacional necessária num momento de crise como o atual.

A escola precisa mudar para melhor atender seus estudantes. Essa é uma lição que a pandemia nos traz

“A professora deve ser também uma educadora e, portanto, sensível para as mensagens que cada estudante lhe traz pela sua linguagem, comportamento e participação no coletivo. A escola precisa mudar para melhor atender seus estudantes. Essa é uma lição que a pandemia nos traz”, afirma Chico.

Essa estratégia dependeria então de uma mudança no planejamento de cada escola, que precisa colocar cada estudante no seu centro. “Neste momento, considerando a enorme crise de aprendizagem, o ideal é que cada estudante tivesse sua situação analisada e a equipe escolar pudesse acordar como cada um deveria ser tratado.”

Jorge conta que há evidências indiretas dos efeitos do contexto atual sobre a aprendizagem, com a correlação, feita no Ceará, dos resultados da avaliação com os efeitos da pandemia e com indicadores socioeconômicos dos estudantes.

“Temos esforços, ainda preliminares, de usar indicadores combinados de segurança pública, saúde (especialmente dos impactos da Covid-19) e educacionais para, por exemplo, alocar recursos e monitorar seu uso na expansão do tempo integral no Ceará e, mais recentemente, na formatação de um plano a ser lançado para a recuperação das aprendizagens.”

Segundo Chico Soares, a escola é apenas uma das estruturas sociais, por isso não deve oferecer todos os serviços sociais que os estudantes precisam como cidadãos. “Sem o Estado funcionando é difícil imaginar que a escola funcione. A escola tem funções específicas e deve se concentrar nelas. Por outro lado, cada estudante deve receber o apoio de estruturas na área da saúde. Parcerias sim. Transferência de responsabilidade não.”

O país precisa colocar em prática a meta de atender seus estudantes em escolas de tempo integral, de acordo com o professor emérito.

“As condições básicas para isso já existem. Isso deve começar com a fixação dos professores em uma escola. Isso exige mudanças profundas na forma de contratação e no regime de trabalho. Além disso, para que isso possa ser viável em escolas menores é preciso que o Estado apoie a capacitação dos professores para ensino de um leque maior de disciplinas. Só nessa escola será possível atender adequadamente aos estudantes. Discutir como dar atenção individualizada aos estudantes em uma escola onde todos estão de passagem é fútil.”

Menina observa colegas jogarem futebo em quadra da escola em dia de solCrédito: Éder Chiodetto/Instituto Unibanco

A escola precisa mudar para melhor atender seus estudantes, diz Chico Soares

Matrizes
Os ciclos de recuperação e fortalecimento das aprendizagens nas escolas do Ceará, que partem da avaliação diagnóstica, têm duas matrizes, segundo Jorge: uma, especificando conhecimentos e habilidades em progressão e interdependência; outra, uma matriz de conhecimentos básicos, que orienta os professores sobre como criar e implementar percursos curriculares adaptados às diferentes necessidades dos grupos de alunos.

O material e os percursos curriculares são pensados para propiciar quatro ou mais modos de organização, de acordo com as características que melhor definem os grupos de alunos identificados com a ajuda dos dados da avaliação.

Não se trata de criar rótulos ou estigmatizar, mas trabalhar a mensagem de que as habilidades serão desenvolvidas e os conhecimentos serão consolidados

“Não se trata de criar rótulos ou estigmatizar, mas trabalhar a mensagem de que as habilidades serão desenvolvidas e os conhecimentos serão consolidados segundo trajetos percorridos a ‘paces’ diferentes. Trata-se de encontrar o passo da montanha para cada grupo desses alunos”, diz Jorge.

A dinâmica é trabalhada em encontros formativos, em nível estadual, regional e local. Além das matrizes avaliativa e curricular e das devolutivas das avaliações, são trabalhados e difundidos materiais estruturados de apoio a professores e alunos na construção dos percursos formativos diferenciados por grupos.

“Esse processo, além de ser o canal por excelência para difundir os resultados da avaliação, as propostas curriculares e os materiais/metodologias de apoio, fomenta uma densa rede colaborativa, em que professores e gestores de diferentes regiões do Estado se apoiam mutuamente, compartilhando práticas e discutindo problemas comuns, além de apontarem, produzirem, compilarem e realizarem curadoria das estratégias que vão implementando nas escolas”, conta Jorge.

Ceará
A aplicação da avaliação diagnóstica na rede estadual de educação do Ceará, feita no início do ano letivo, faz parte de um programa estadual com ações destinadas à melhoria da qualidade da educação. Os resultados gerados com o teste chegam à escola à medida que o estudante conclui sua aplicação em um sistema online, que permite uma intervenção direta, de acordo com a secretaria. A segunda aplicação será em agosto.

“O objetivo foi identificar as lacunas de aprendizagem dos estudantes para que, a partir das informações, com apoio do uso de material estruturado e formação de professores, a escola pudesse promover as intervenções necessárias para o fortalecimento e recuperação”, explica a secretária da Educação do Estado, Eliana Estrela.

O segundo semestre na rede começou com jornadas pedagógicas nas escolas para planejamento e acolhimento aos profissionais, estudantes e famílias. “Foi um momento em que a comunidade escolar analisou sua realidade, de forma mais abrangente, olhando o município onde está localizada, o perfil de seus professores e estudantes para iniciarem de forma gradual ao modelo híbrido”, diz a secretária.

Para incentivar o crescimento pessoal dos estudantes, a construção de projetos de vida e a preparação para a vida acadêmica e profissional, a rede conta com uma política de desenvolvimento de competências socioemocionais desde 2018.

“Nove iniciativas compõem o conjunto de ações desta política. Elas têm o objetivo de promover reflexões sobre o jovem, em suas diversas fases da vida, com ênfase em projetos futuros, de modo a levá-lo à aspiração a uma vida saudável e que dialogue com os seus interesses e talentos. A ação teve continuidade no período de pandemia”, afirma Eliana.

Uma das iniciativas inclui o projeto “Professor Diretor de Turma”, cujo objetivo é qualificar o diálogo constante do estudante e familiares com a direção da escola e corpo docente.

“A estratégia mantém um professor da unidade de ensino como diretor de uma turma, acompanhando todo o desempenho escolar dos estudantes até o final de sua escolarização, identificando vulnerabilidades, fazendo as intervenções necessárias à conclusão de seu projeto de vida, evitando o abandono escolar.”

A secretaria promove encontros online de acolhimento a gestores e coordenadores pedagógicos com psicólogos educacionais. Mantém ainda programas digitais para a interação e troca de experiências entre professores, além de apoio para desafios do dia a dia.

A rede está em processo de execução dos “Círculos de Construção de Paz” junto a coordenadorias e superintendências. “A partir desse momento, essa iniciativa será levada aos professores, alunos e demais integrantes da comunidade escolar”, diz Eliana.

Para fortalecer as competências digitais, a rede oferece cursos e oficinas sobre ensino remoto e híbrido e publicou guias sobre os temas. Forneceu ainda kits de gravação de aulas para as escolas, distribuiu chips de internet e tablets para estudantes e notebooks para professores.

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avaliação, coronavírus, educação integral, ensino médio, socioemocionais

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