Séries investigativas de TV inspiram alunos a relacionar biologia, física e química - PORVIR
Crédito: Flickr.com / Nukamari

Diário de Inovações

Séries investigativas de TV inspiram alunos a relacionar biologia, física e química

O curso é baseado em casos clínicos hipotéticos que ajudam a ilustrar na prática os conteúdos e também aguçar a curiosidade dos estudantes

por Nicolas Yamada Tanigava ilustração relógio 24 de abril de 2019

Uma mulher de 75 anos de idade chega ao hospital queixando-se de dor. A equipe médica inicia o atendimento. Este foi o cenário que propus na última aula extracurricular do Colégio Anglo São Paulo. Eu baseio o meu curso em casos clínicos hipotéticos que ajudam a ilustrar na prática os conteúdos ministrados no ensino médio. A disciplina é baseada em séries de televisão investigativas a fim de incentivar a participação e aguçar a curiosidade dos estudantes.

A dinâmica é diferente das aulas tradicionais; já que os alunos interpretam o papel dos médicos e eu do paciente. Ou seja, a aula é conduzida pelos estudantes, por meio de suas indagações a respeito do caso: Onde dói? Que tipo de dor? Qual é o histórico da paciente? Os estudantes têm total liberdade para expor suas visões e, no desenrolar de suas perguntas, descobrem juntos o diagnóstico e o tratamento da doença. Esse processo é importante porque eles vão construindo o conhecimento de forma ativa.

No caso trabalhado, a paciente era diabética e possuía pressão alta, além de um histórico familiar de morte por AVC (acidente vascular cerebral, popularmente conhecido como derrame). A dor no peito da idosa foi diagnosticada como angina decorrente de arterosclerose, doença vascular em que a passagem de sangue é comprometida pelo acúmulo de gordura nas artérias.

Na preparação do conteúdo a ser desenvolvido, seleciono sempre uma condição teórica e dou preferência para doenças que são exigidas em exames vestibulares e Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou aquelas em que há uma prevalência muito grande na população. O infarto, por exemplo, é uma ocorrência comum, que provavelmente já se passou com algum familiar do aluno ou alguém conhecido.

Dessa forma, além de captar mais a atenção dos estudantes, eles aprendem as causas da doença, sua prevenção e ainda conseguem lidar melhor com uma situação de urgência. O infarto, por exemplo, não pode esperar. Neste caso, tempo é vida.

O processo rendeu uma revisão e um aprofundamento dos diferentes tipos de diabetes, a formação do sangue, os tipos de colesterol, a química orgânica envolvida na formação desses componentes e ainda a relação entre arterosclerose e trombose.

Um dos objetivos da matéria é a integração da biologia, da física e da química, algo que me ajudou imensamente quando estudante. Estabelecer relações é importante para os exames e também para a vida porque, na prática, esses elementos funcionam juntos dentro do nosso corpo.

Desafios e resultados
No projeto, o mais desafiador para mim como professor foi adaptar o linguajar técnico e clínico para transmitir o conteúdo ao estudante de ensino médio. Não adianta falar os termos corretos, mas de maneira restrita à realidade deles. É preciso compreender o raciocínio dos alunos para ser assertivo.
O meio que encontrei para resolver a questão, de forma simples e efetiva, foi interpretar o papel do enfermo, que é leigo e, assim, usa termos do cotidiano. O linguajar do paciente é o mesmo dos alunos.

Ao final da atividade também lancei um desafio, agora para os participantes. Eles sabiam que a enferma possuía arterosclerose e o procedimento indicado era a cirurgia, pois o quadro já estava avançado. No entanto, a paciente se recusava a ser operada porque sua vizinha morrera da mesma forma. O dilema ético foi lançado: como seguir com o caso? Operar ou não?

A reação frente à provocação foi a melhor possível. Todos ficaram discutindo o que eles fariam diante de uma situação assim. Nesse momento, eles já tinham perdido totalmente o receio de expressar suas opiniões.

O mais importante foi perceber que os alunos entenderam o papel deles como médicos nessa simulação. Eles compreenderam o lado humano do paciente, a importância da empatia; e que essa iniciativa deve partir do profissional da saúde. Quando assumem o papel de uma equipe que busca a solução de um caso, além de treinarem os conceitos de física, química e biologia, eles treinam como aplicar questões complexas de cunho psicológico: como indagar o paciente, como lidar com a família do doente e ainda como tomar decisões éticas.

Ao longo do processo foi claro o interesse dos estudantes em procurar as soluções, em saberem como os órgãos funcionam, em insistirem em novas perguntar para levar a descoberta de resolução dos casos. Eles perderam o medo de errar e isso é essencial no processo de aprendizagem.

Inclusive, a discussão sobre operar ou não a paciente se postergou até depois do final da aula, mostrando que eles se sensibilizaram e se engajaram bastante com o tema. Além do mais, nosso encontro se deu em um sábado de manhã, reuniu cerca de vinte estudantes para uma disciplina extracurricular que é a única do colégio sem obrigatoriedade de presença ou formas de avaliação.

Sinto-me satisfeito em observar que os objetivos do projeto foram cumpridos. Os estudantes do Ensino Médio frequentam as aulas e aprofundam conceitos, impulsionam seu desempenho em outras disciplinas; são ativos na obtenção do conhecimento – conectado com o seu mundo de séries em formato de investigação.

Eles ainda compreenderam que não basta só o conhecimento teórico, a prática possui outras camadas de complexidade. O atendimento humano e cunhado em princípios éticos é um dever e responsabilidade na medicina e em qualquer carreira que porventura sigam durante suas vidas.


Nicolas Yamada Tanigava

Professor do Colégio Anglo São Paulo, graduando em medicina pela Universidade de São Paulo, destaque entre as 30 melhores redações da Unicamp e medalha de bronze na Olimpíada Brasileira de Química.

TAGS

aprendizagem baseada em projetos, ensino médio

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