Nascido na Espanha, comecei minha vida profissional no Brasil. Fui professor convencional por mais de quinze anos em faculdades de comunicação, em um colégio e na Universidade de São Paulo, durante meu mestrado e doutorado. O número elevado de alunos, de turmas, de trabalhos e provas, aos poucos, foi desanimando-me. Alguns materiais e estratégias de ensino começaram a não surtir o mesmo efeito de antes. Intimamente não encontrava mais prazer em estar na sala de aula. Dava aula para poder pagar as contas do mês.

Em crise profunda, dei-me um tempo para reencontrar o prazer de lecionar ou, então, desistir. A primeira saída veio pelo diálogo, de conversar mais com as pessoas, com os alunos, comigo mesmo. Escutar mais foi o primeiro passo para reencontrar o caminho pedagógico: menos aula expositiva e mais comunicação e envolvimento com os interesses dos alunos.

A descoberta da Internet em 1988 na USP foi impactante e decisiva. Eu e o professor Fredric Litto juntamos nossos orientandos de mestrado e doutorado e começamos a discutir em 1988 como seria a Escola do Futuro e criamos um núcleo de Pesquisa com esse nome, que existe até hoje lá. Foi meu primeiro contato significativo com a educação à distância (Tony Bates e Pierre Bordeleau), com as inovações metodológicas (David Thornberg), com a Rede Guri, de compartilhamento digital de experimentos no ensino de ciências (Uri Marhein) e com a teoria das múltiplas inteligências de Gardner.

Decidi aproveitar um laboratório com Internet para levar os alunos de graduação para aulas-pesquisa com supervisão em tempo real. Pesquisávamos inicialmente alguns materiais básicos sobre um tema específico, filtrávamos os melhores resultados e líamos esses materiais em casa previamente para discuti-los na aula presencial seguinte. A integração das atividades de pesquisa supervisionada no laboratório, as da leitura e fichamento dos textos em casa e da discussão posterior em classe, nos trouxe a todos um grande dinamismo e motivação.

Para guardar os materiais pesquisados no laboratório e poder consultá-los durante a semana, criamos uma página na Internet. Esta página web trouxe a possibilidade de manter contato com a informação, com e entre os alunos. O espaço principal de ensinar e aprender foi ampliado para três: o presencial, o do laboratório conectado e o do ambiente virtual. Cada um, com suas características específicas, nos permitiu realizar atividades diferentes e complementares, com um resultado mais enriquecedor, pela mobilização afetiva dos alunos, muito mais fácil e intensa. Utilizávamos algumas variações de aula invertida (leitura antes e aprofundamento depois, em sala); pesquisa supervisionada como ponto de partida para aprofundamentos posteriores e evolução para modelos flex (que chamávamos à época semipresenciais).

– Acesse o blog Educação Humanista Inovadora, do prof. Moran 

Experimentei o modelo flex, de forma mais consistente, na pós-graduação da USP, na segunda metade dos anos 90, liberando os alunos de algumas aulas presenciais e realizando atividades a distância, algumas em tempo real (chat) e outras de forma assíncrona, como os fóruns. Como muitos alunos vinham de outros estados, a liberação da necessidade de estar sempre fisicamente juntos, mostrou que podíamos ensinar e aprender em vários espaços, em diferentes tempos e de múltiplas formas, de forma prazerosa e com resultados mais consistentes.

A partir de 2003 tive a oportunidade de implementar na Faculdade Sumaré (SP) um modelo curricular blended ou híbrido: todos os professores planejavam as disciplinas de todos os cursos com atividades presenciais e online de forma integrada. Depois enveredei pela educação a distância e atualmente apoio a mudança para currículos mais inovadores, com metodologias ativas e tecnologias digitais.

O que considero mais importante de todo este processo foi a decisão, no período de crise profissional, de sair do modelo convencional para o de experimentar pequenas inovações possíveis.  Isso aumentou minha confiança, a visão de mundo, da educação e minha realização em todos os níveis (pessoal, familiar, profissional e social). Agora meu desafio maior é o de aprender a envelhecer, mantendo a mesma paixão por viver e por contribuir para melhorar nossa educação.

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É pesquisador, professor e mentor de projetos de transformação da educação básica e superior, com foco principalmente em metodologias ativas, modelos híbridos, tecnologias digitais, mentoria e projeto de vida. Foi professor de Novas Tecnologias...

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3 Comments

  1. O ano era 1998. Era o primeiro congresso de educacao a distancia de que eu participava. Tinha um trabalho aprovado para apresentar compartilhando a experiancia iniciada em 97 com educacao online em uma instituicao de ensino baseada no Rio de Janeiro.

    E la’ neste congresso conheci o prof. Moran. Era um dos palestrantes e apresentava suas descobertas de pesquisa e ensino usando tecnologia online.

    Quase 20 anos depois Moran continua sendo esta referencia nao apenas de profundo conhecimento mas de humildade pessoal e intelectual. Um dos principais nomes da inovacao educacional no pais.

    Foi muito bom rele-lo, Moran! 🙂

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