Como o ensino de inglês pode abraçar a metodologia de projetos - PORVIR
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Inovações em Educação

Como o ensino de inglês pode abraçar a metodologia de projetos

Em conversa com o Porvir, consultor do grupo Pearson discute como a aprendizagem ativa melhora a aprendizagem do idioma

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 31 de outubro de 2019

Menos genérico e mais personalizado. Menos foco em teoria e mais integração da gramática e dos tempos verbais com projetos mão na massa e multimídia. Sempre que possível, em grupos. Assim como as outras áreas do currículo escolar, o ensino de idiomas também passa por uma transformação para se aproximar dos interesses do estudante.

Em conversa com o Porvir, Ken Beatty, consultor canadense do grupo editorial Pearson, analisa o impacto de novas tecnologias e a importância de novas perguntas para que o estudante se beneficie desta mudança. “Como promovemos um senso de curiosidade e seus irmãos, confiança, colaboração e pensamento crítico? O primeiro passo é dar aos alunos mais opções nos tópicos que lhes interessam. O segundo é parar de fazer perguntas para as quais sabemos a resposta”, disse Beatty.

No texto abaixo, o consultor discute também como os testes de certificações precisam mudar o foco para oportunidades de uso do idioma. “Quando foi a última vez que você estava andando na rua e alguém perguntou: “Com licença! Como você conjuga o verbo to be (ser, estar em inglês)?”, pergunta. Veja abaixo os destaques da conversa:

Ken Beatty, consultor PearsonDivulgação

Ken Beatty, consultor Pearson

Porvir – Nos últimos anos, surgiram muitas plataformas de ensino de idiomas que conectam estudantes a qualquer pessoa em todo o mundo. Quais são as próximas tendências que você vê no aprendizado apoiados em tecnologia?
Ken Beatty – Em 1943, Thomas Watson, presidente da IBM, disse: “Acho que existe um mercado mundial para talvez cinco computadores”. Esta e outras histórias mostram como é uma ilusão tentar prever o futuro da tecnologia. Mas há certas tendências que podemos ver crescendo para a tecnologia educacional. Uma é o uso de telefones celulares.

Um enigma antigo é: “Qual é a melhor câmera do mundo?” A resposta é: “A que você tem com você”. Para a maioria das pessoas, essa câmera é a que está em seu telefone. Da mesma forma, como muitos estudantes já possuem telefone celular, educadores e editores estão procurando oportunidades para explorá-los dentro e fora da sala de aula.

Uma nova série de conteúdos para adultos com a qual tenho trabalhado, chamada StartUp, faz isso de várias maneiras interessantes. Ela possui um aplicativo com todas as faixas de áudio e vídeo do livro do aluno, além de exercícios. Os alunos usam suas câmeras para ler códigos QR no livro e ir diretamente para concluir exercícios relacionados às aulas de audição, fala e gramática e muito mais. Para os alunos, ter o conteúdo de áudio e vídeo nos bolsos significa que eles podem visualizar as lições e depois revisar o que fizeram nas aulas, verificando sua compreensão com os exercícios no seu próprio ritmo. Isso apoia a metodologia de aprendizagem invertida, permitindo que os alunos cheguem às aulas prontos para usar o idioma, e não apenas aprender sobre ele.

Porvir – As pessoas dizem que a inteligência artificial será um divisor de águas. Como você vê o impacto dessa tecnologia tanto nos espaços de aprendizagem online quanto nos tradicionais?
Beatty – Fiz meu doutorado na área de aprendizado de idiomas apoiada por computador e sou um interessado em inteligência artificial há muitos anos. Há coisas que a inteligência artificial poderia fazer muito bem, mas também algumas coisas que ela poderia fazer muito mal. A inteligência artificial pode ajudar a personalizar o aprendizado para cada indivíduo, acompanhando o que o aluno aprendeu, avaliando a retenção de conhecimento ao longo do tempo e melhorando o aprendizado com aulas de revisão direcionadas. Muito do ensino de idiomas é ineficaz porque é tão genérico que os alunos não veem como suas partes dele se relacionam com seus interesses pessoais. Por exemplo, quando eu aprendo um novo idioma, preciso discutir ideias sobre ser canadense, professor, escritor de livros didáticos e pai casado com dois filhos. Se eu estivesse aprendendo português, a inteligência artificial poderia me ajudar a aprender, por exemplo, revisando milhares de meus e-mails pessoais e profissionais e elaborando lições a partir deles.

Mas há um lado obscuro da inteligência artificial com base na máxima informações imprecisas geram conclusões imprecisas. Por exemplo, a maneira com que inteligência artificial é usada pelos departamentos de polícia para prever crimes após examinar milhões de casos anteriores. E se essas investigações forem baseadas em pressupostos racistas? Isso significa que a inteligência artificial está apenas aprendendo a ser um policial ruim. Da mesma forma, na educação, as perspectivas da inteligência artificial sobre o aluno podem ser distorcidas por dados ruins. Precisamos ser céticos.

Quanto ao aprendizado online, por enquanto, há uma taxa de evasão muito grande. Por quê? Quando você vai para uma aula tradicional, você se relaciona com outros alunos e seu professor e se compromete ainda mais com o aprendizado. Em ambiente online, você é anônimo e é provável que ninguém perceba ou se importe se você desistir, e você não sente o mesmo senso de comunidade ou a pressão para continuar quando as coisas ficam difíceis. O aprendizado online não chegou ao estágio ideal, mas vai melhorar.

Porvir – Como o foco nas carreiras tecnológicas vai remodelar a maneira como ensinamos inglês para crianças e adultos? Que tipo de tópicos devemos acrescentar agora às salas de aula?
Beatty – Meu pai não recebeu muita instrução – ele nunca concluiu o ensino médio –, mas tinha uma mente matemática apurada e trabalhou a maior parte de sua vida adulta como contador. Mais importante, ele era curioso e nunca parava de aprender. Quando eu era jovem, ele aprendeu sozinho como se tornar carpinteiro, eletricista e encanador para reconstruir nossa pequena casa em algo que pudesse acomodar sua esposa e cinco filhos. Mais tarde, ele aprendeu jardinagem, música e poesia. Ele nunca parou de aprender.

A curiosidade não é um tópico, nem é exatamente uma habilidade, mas é um ingrediente essencial que falta nos currículos de muitas escolas. Como promovemos um senso de curiosidade e seus irmãos, confiança, colaboração e pensamento crítico? O primeiro passo é dar aos alunos mais opções nos tópicos que lhes interessam. O segundo é parar de fazer perguntas para as quais sabemos a resposta. Considere estas duas perguntas:

1) Qual é a capital do Brasil?
2) Por que você acha que Brasília foi escolhida para ser a capital do Brasil?

A primeira pergunta é chata. Um aluno levanta a mão e o resto da turma nem se dá ao trabalho de responder. A segunda pergunta suscita curiosidade e pensamento crítico. Se permitirmos que os alunos aprendam uns com os outros em grupos, sua colaboração levará ao ensino por pares e ao aumento da confiança. Precisamos fazer mais perguntas abertas e mais hipotéticas: “Se Brasília não fosse a capital do Brasil, qual seria a próxima melhor opção? Por quê?”.

Porvir – Aprender um segundo idioma está se tornando um processo mais flexível e autônomo. Diante disso, como você avalia o futuro dos processos tradicionais de certificação?
Beatty – Imagine que eu seja um professor de baixa escolaridade, cujas habilidades no idioma inglês são extremamente limitadas. Eu recebo um aluno que é pouca coisa melhor do que todos os meus outros alunos. Naturalmente, dou a ela uma nota “A”. Mas o que acontece se o aluno for para a universidade ou para uma posição profissional e descobrir que, apesar de ser melhor que seus colegas, ainda está em um nível extremamente baixo de inglês.

Muitos professores odeiam testes padronizados, mas fornecem um serviço valioso: são uma verificação independente dos fatos sobre as habilidades linguísticas dos alunos. Isso não quer dizer que eles não possam ser melhorados. Eles podem!

A maioria das avaliações baseia-se em ensinar a um aluno 10.000 coisas e depois colocar 100 delas em um teste de múltipla escolha. Esses testes são feitos a partir de regras, e não de oportunidades para usar o idioma. Isso é errado. Afinal, quando foi a última vez que você estava andando na rua e alguém perguntou: “Com licença! Como você conjuga o verbo to be (ser, estar em inglês)?”.

Precisamos mudar nosso pensamento sobre avaliação para permitir que os alunos mostrem o que sabem. Nos quatro primeiros níveis da série StartUp que mencionei acima, alteramos a página de revisão tradicional no final de cada unidade para um projeto de vídeo ou fotografia. Os alunos pegam o que aprenderam sobre o vocabulário, a gramática, o conteúdo e as estruturas da unidade e criam uma breve conversa ilustrada compartilhar com os colegas e depois com a turma.

Porvir – No Brasil, escolas estão começando a sair de um modelo baseado na gramática para outro em que o inglês é usado para adquirir habilidades e competências. Que tipo de formação o professor mais precisa neste caso?
Beatty – Visitei recentemente o Brasil pela primeira vez e pude falar em sete escolas e em duas conferências, para cerca de 1.600 professores. Gostaria de pensar que tive um pequeno impacto, mas quantos professores existem no Brasil? Quanto tempo eu e outros formadores levaríamos para chegar a cada um deles e oferecer instruções eficazes para guiá-los em direção à aprendizagem baseada em projetos e acompanhá-los para garantir que tudo está funcionando?

Não estou dizendo que devemos desistir da formação continuada de professores, mas talvez uma abordagem mais realista seja, ao mesmo tempo, alterar os currículos e incluir mais propostas baseadas em projetos integradas aos livros didáticos. Os professores são capazes e conseguem adaptar novas abordagens às necessidades e habilidades de seus alunos. Mas sim, é preciso começar. E essa mudança precisa começar hoje!


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aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, competências para o século 21, educação mão na massa, formação continuada, tecnologia

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